Incêndio em unidade para Covid-19 deixa mais de 60 mortos em hospital no Iraque

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ao menos 66 pessoas morreram nesta segunda-feira (12) em decorrência de um incêndio em um hospital na cidade de Nassíria, no sul do Iraque. Mais de 100 pessoas ficaram feridas, de acordo com autoridades locais, que agora enfrentam acusações de negligência.

Segundo o resultado das primeiras investigações, o fogo começou em uma aula exclusiva para tratamento de pacientes com coronavírus quando faíscas de uma fiação defeituosa se espalharam para um tanque de oxigênio, que explodiu.

Durante horas, as chamas se espalharam pela unidade anti-Covid, impedindo a saída das vítimas, incluindo grupos de familiares que estavam em horário de visita. Quando os bombeiros conseguiram controlar o fogo, o cenário era de tetos afundados, paredes enegrecidas, vidros estilhaçados e dezenas de corpos carbonizados.

Nesta terça-feira (13), equipes de resgate estavam usando guindastes para remover os destroços carbonizados, e centenas de pessoas se juntaram do lado de fora do hospital al-Hussain -muitos como voluntários, para ajudar a resgatar pacientes presos e outros em busca de informações sobre amigos e familiares que estavam internados.

Um médico cujo turno de trabalho havia acabado poucas horas antes do início do incêndio contou à agência de notícias Reuters, sob anonimato, que a ausência de medidas básicas de segurança provocaram o desastre. Segundo ele, o al-Hussain não possui nem alarmes nem um sistema de extinção de incêndios.

"Reclamamos várias vezes nos últimos três meses que uma tragédia poderia acontecer a qualquer momento com uma ponta de cigarro, mas sempre recebemos a mesma resposta das autoridades de saúde: 'não temos dinheiro suficiente'", disse o médico.

Em abril, uma explosão semelhante, seguida de incêndio, deixou 82 mortos e 110 feridos em um hospital para tratamento de Covid-19 em Bagdá, capital do Iraque.

Em uma publicação nas redes sociais, o presidente do país, Barham Salih, disse que as duas tragédias são "produto de corrupção e má gestão persistentes que negligenciam a vida dos iraquianos". Salih governa o Iraque desde 2018.

Para Ali Bayati, chefe da Comissão de Direitos Humanos iraquiana, a explosão desta segunda mostra como as medidas de segurança ainda são ineficazes em um sistema de saúde prejudicado pela guerra e por sanções internacionais. "Ter um incidente tão trágico repetido poucos meses depois significa que ainda não foram tomadas medidas [suficientes] para evitá-los."

Por ordem do primeiro-ministro Mustafa al-Kadhimi, os gerentes de saúde e defesa civil de Nassíria, bem como o diretor do hospital, foram suspensos e presos ainda na segunda-feira. O premiê iraquiano também decretou três dias de luto nacional.

O desastre gerou uma onda imediata de indignação, e centenas de pessoas protestaram em frente ao al-Hussain durante a noite, gritando "os partidos políticos estão nos queimando".

"Mais uma vez, os políticos mostraram sua incapacidade de administrar o país. Estamos indo de uma tragédia a outra, e a situação dos iraquianos está piorando a cada dia", disse Yasir al-Barrak, professor da universidade da província de Dhi Qar, onde fica Nassíria.

Grupos de jovens se espalham por vários hospitais privados da cidade, com faixas que diziam: "fechado por ordem do povo". Eles demandam que os pacientes sejam transferidos para um centro médico público com 500 leitos que foi construído pela Turquia e inaugurado em junho, mas ainda não foi utilizado.

No necrotério da cidade, a raiva se espalhou entre as pessoas reunidas que esperavam para receber os corpos de seus parentes mortos no incêndio --segundo as autoridades, ao menos 21 vítimas não foram identificadas.

"O que devo dizer depois de perder minha família?", disse Imad Hashim, 46, à Reuters. Ele perdeu a mãe, uma cunhada e uma sobrinha no incêndio. "Não adianta exigir nada de um governo falido. Três dias e este caso será esquecido como os outros."

Até esta terça, o Iraque registrou mais de 1,4 milhão de casos e 17 mil mortes por coronavírus, de acordo com dados da Universidade Johns Hopkins.

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