Incêndios seriam a marca do Piroceno, a Era do Fogo

Ana Lucia Azevedo

RIO — O historiador e especialista em incêndios florestais americano Stephen Pyne, professor emérito da Universidade Estadual do Arizona, salienta que eles são cada vez mais frequentes no mundo e estão associados, por diferentes motivos, à ação humana. Autor do recém-lançado “Fire: a brief history” (Fogo: uma breve história, em tradução livre), Pyne cunhou o termo Piroceno, a Era do fogo, para designar o período atual em que milhares de quilômetros de florestas são consumidos pelo fogo em todo planeta com frequência cada vez maior, com consequências não apenas para elas, mas para as cidades e a economia.

Os incêndios florestais na Austrália superam em seis vezes a área das queimadas que atingiram a Amazônia em 2019. Mas, explicam especialistas, não podem ser comparados, como tem ocorrido em redes sociais, inclusive pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em sua conta no Twitter.

No caso australiano, o fogo é consequência de extremos climáticos num cenário propício. Os incêndios se alimentaram de uma seca feroz e ondas de calor recorde sobre florestas predominantemente de eucaliptos e outras espécies adaptadas ao regime de queima sazonais. Já na Amazônia as queimadas foram associadas predominantemente ao desmatamento ilegal, que usa o fogo para limpar pastos e invadir a mata.

Diferenças marcantes

Diferentemente da Austrália, a Amazônia teve em 2019 chuvas dentro da normalidade, num ano neutro no clima, sem fenômenos como El Niño. Impossível colocar na mesma fogueira as chamas que arderam no Brasil daquelas que consomem a Austrália porque os bosques australianos são tão parecidos com a Floresta Amazônica quanto a água do vinho.

Para entender a diferença é preciso saber que cada ecossistema tem um regime de fogo, salienta o especialista em Amazônia Jos Barlow, das universidades de Lavras (MG) e de Lancaster (Inglaterra). Barlow liderou um estudo, publicado no periódico científico internacional Global Change Biology, que mostrou que o desmatamento foi a principal causa das queimadas amazônicas e que estas transformaram as matas incendiadas em prisioneiras do fogo, num ciclo vicioso que as torna mais vulneráveis a novos incêndios.

Barlow explica que o regime de fogo está ligado à intensidade (por exemplo, altura das chamas), à severidade (percentual de árvores mortas), à frequência (a cada ano, década, milênio, nunca), à extensão e à sazonalidade (fogo no começo da seca, ou no fim). Segundo ele, a parte da Austrália que está queimando está acostumada com fogo, mas não da forma como ocorre agora. O regime na Austrália mudou em termos de intensidade, extensão e severidade.

— Já na Amazônia, o regime natural é não ter fogo! É uma ecossistema que evoluiu sem fogo. Quando você tem queimadas na floresta, é uma drástica mudança. Os focos de calor detectados por satélites foram associados ao desmatamento. Isso é uma ação humana que não tem nada a ver com os incêndios na Austrália — destaca.

Segurança nacional

A Nasa, baseada na análise de dados de seus satélites, diz que os incêndios australianos têm sido particularmente agressivos nas florestas de eucalipto, árvore nativa do país. Essas florestas existem tanto em regiões secas quanto úmidas e em ambas são vulneráveis. As folhas dos eucaliptos de áreas secas são ricas em óleo e rapidamente se incendeiam. O fogo ajuda as árvores a dispersar suas sementes, mas este ano a seca foi tão severa que impediu a germinação e acabou por consumir as matas. Já os eucaliptos de regiões úmidas são ainda mais vulneráveis e morrem depressa.

A ecóloga das universidades de Oxford e Lancaster Erika Berenguer, especialista nas consequências do fogo sobre a Amazônia, diz que, mais do que ficar se lamentando de críticas pelos incêndios florestais, os governos deveriam compreender que ataques ao meio ambiente e mudanças climáticas não são uma questão ideológica:

— O caos ecológico mostra que desmatamento e mudanças climáticas têm sérios impactos econômicos e sociais. Não são um problema de ecochatos, e sim uma crise que afeta a nossa existência e a segurança de nossos países.