Incerteza eleitoral aumenta no Peru após denúncias de fraude de Fujimori

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Simpatizantes do candidato Pedro Castillo em Tacabamba, região de Cajamarca, em 7 de junho de 2021

A incerteza aumenta no Peru nesta terça-feira, enquanto a apuração dos votos do segundo turno presidencial avança de maneira lenta, com a liderança do candidato de esquerda Pedro Castillo, depois que sua rival de direita Keiko Fujimori denunciou "indícios de fraude", possibilidade descartada por observadores.

O professor de escola rural aparece em primeiro lugar na contagem oficial, com 50,2% dos votos, contra 49,7% de sua adversária, após a apuração de 95,25% das urnas da eleição de domingo, em uma disputa que continua com final aberto, de acordo com fontes do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE).

A filha do detido ex-presidente Alberto Fujimori denunciou na segunda-feira "irregularidades" e "indícios de fraude", depois que o rival passou a liderar a apuração.

"Há uma clara intenção de boicotar a vontade popular", afirmou Fujimori, que exibiu vídeos e fotos para reforçar sua denúncia, incluindo uma ata de votação de uma seção na área rural na qual o adversário obteve 187 votos e ela nenhum.

A vantagem de Keiko Fujimori no início da apuração, em que ela chegou a ter 52,9% contra 47,09% do rival, caiu na segunda-feira com o avanço da contagem de votos das zonas rurais e áreas de selva, mas a disputa prossegue nesta terça-feira.

O ONPE nega a possibilidade de fraudes, assim como a presidente da Associação Civil Transparência, Adriana Urrutia, que declarou ao jornal El Comercio: "Não há nenhuma evidência que nos permita falar de fraude eleitoral".

Enquanto o suspense persiste, Castillo pediu em sua conta no Twitter para atenção "para defender a democracia que se expressa em cada um dos votos, dentro e fora do nosso amado Peru. Não podemos descansar".

A esperança de Fujimori está nos votos do exterior, onde estão registrados um milhão dos 25 milhões de eleitores peruanos, que demoram a ser contabilizados.

"O voto do exterior pode mudar a tendência, mas o desespero já começou a se espalhar do lado de Keiko", declarou a cientista política peruana Jessica Smith à AFP.

"As denúncias de fraude devem fazer parte do show de um lado ou do outro, mas se Keiko não começar a se recuperar, o arroz já estará cozido", acrescentou a acadêmica da Universidade Central do Chile.

O partido Peru Livre, de Castillo, pediu em um comunicado ao ONPE que "cuide da correta proteção dos dados dos votos, ao processá-los e publicá-los".

O segundo turno parece longe de acabar com os distúrbios políticos dos últimos cinco anos. O Peru teve quatro presidentes desde 2018, três deles em cinco dias de novembro de 2020.

- Longa espera -

A Bolsa de Lima encerrou a sessão de segunda-feira em queda de 7,82%, enquanto o dólar disparou e atingiu a cotação recorde de 3,94 soles ante a incerteza, em meio à crise econômica provocada pela pandemia.

"A Bolsa cai pela incerteza e porque Castillo pode vencer. No Chile, a Bolsa também caiu (quando a esquerda venceu as eleições locais em abril), mas isto é passageiro", afirmou à AFP o analista Hugo Otero, ex-assessor do falecido ex-presidente Alan García.

"Estamos passando por um momento de incerteza e expectativas, mas o que o país espera é que os resultados da votação sejam aceitos pelos candidatos", completou.

A missão de observação eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA) afirmou, pouco antes da denúncia de Fujimori, que "a apuração dos votos aconteceu de acordo com os procedimentos oficiais", certificando o trabalho do ONPE.

Fujimori, 46 anos, casada e com duas filhas, pode ser a primeira presidente do Peru, meta para a qual trabalha há 15 anos, desde que assumiu a tarefa de reconstruir praticamente das cinzas o movimento político de direita populista fundado por seu pai em 1990.

Uma derrota para Castillo não significaria apenas a terceira derrota em um segundo turno. Ela será levada a julgamento e corre o risco de ir para a prisão, por uma investigação do MP sobre os pagamentos ilegais da empresa brasileira Odebrecht, um escândalo que afetou quatro ex-presidentes peruanos. Keijo já passou 16 meses em prisão preventiva por este caso.

Castillo, professor de Cajamarca (norte) de 51 anos, que saiu do anonimato há quatro anos ao liderar uma greve de docentes, seria, em caso de vitória, o primeiro presidente peruano sem vínculos com as elites política, econômica e cultural.

O novo presidente assumirá o poder em 28 de julho em um país que registra a maior taxa de mortalidade do mundo pela pandemia, com mais de 186.000 mortos entre 33 milhões de habitantes.

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