Incerteza interrompe onda de IPOs até as eleições de 2022

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***ARQUIVO***SAO PAULO, SP, BRASIL - 09-05-2015: Painel mostra flutuação do câmbio e índices acionários na Bolsa de Valores, em São Paulo (SP).  (Diego Padgurschi /Folhapress)
***ARQUIVO***SAO PAULO, SP, BRASIL - 09-05-2015: Painel mostra flutuação do câmbio e índices acionários na Bolsa de Valores, em São Paulo (SP). (Diego Padgurschi /Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os anos de 2020 e 2021 registraram crescimentos robustos nas ofertas públicas iniciais (IPOs) na Bolsa de Valores brasileira, que surgiram como oportunidades de ganhos para empresários e investidores em um contexto de juros baixos e otimismo sobre uma futura retomada do crescimento econômico no pós-pandemia.

Nas últimas semanas, porém, as expectativas de negócios se desmancharam com a incerteza fiscal e a inflação recolocando o país em um cenário de juros suficientemente altos para, praticamente, inviabilizar aplicações mais ousadas no mercado de ações.

IPOs aguardados pelo mercado, como das das empresas Kalunga, Havan, Bluefit, Eztec, Housi, You Inc, AgriBrasil e Comerc Energia, foram suspensos ou cancelados recentemente, segundo levantamento da iHUB Investimentos.

Entre janeiro e setembro deste ano, ocorreram 45 IPOs, 66,6% a mais do que em todo o ano de 2020. Os valores das operações na comparação entre os períodos avançaram 40%, passando de R$ 45,3 bilhões para R$ 63,4 bilhões.

As somas das operações (72) e dos valores (R$ 108,7 bilhões) no biênio 2020-2021 representam altas de 1.520% e 1.380%, respectivamente, em relação às médias anuais de ofertas (4,4) e de volume financeiro (R$ 7,3 bilhões) registradas entre 2011 e 2019, segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).

Agora, analistas enxergam a retomada da onda de ofertas iniciais em um horizonte além das eleições de 2022 ou mais adiante, em 2023, quando o arrefecimento das pressões políticas por aumento nos gastos públicos tende a colaborar com controle da inflação e, consequentemente, com a queda nos juros.

O ambiente para que empresas se abram ao mercado vem se deteriorando desde setembro, quando a aceleração da inflação mundial se combinou à crise institucional doméstica cujo agravamento ficou evidenciado pelos protestos de raiz golpista estimulados pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

O cenário piorou em outubro, quando o governo tornou pública a sua intenção de furar o teto de gastos para aumentar despesas no ano eleitoral de 2022, ampliando ainda mais a percepção do mercado quanto ao risco fiscal do país. Somente em outubro, a Bolsa caiu 6,7%. Neste ano, as perdas são de quase 12%.

A taxa anual de juros dos contratos DI (Depósitos Interfinanceiros) para janeiro de 2023 passou de 8,5%, em 1º de setembro, para 12,1% na última sexta-feira (5).

"Com uma taxa de 1% ao mês se tornando o piso dos juros no país, os IPOs se tornam muito improváveis", afirma o CEO da iHUB, Paulo Cunha.

Mesmo que a Bolsa se recupere antes das eleições de 2022, Cunha avalia que a instabilidade do período pré-eleitoral manterá a maioria das operações suspensas até outubro do ano que vem.

"A coisa piorou. Fazer a confiança voltar com as eleições se aproximando deve ser bastante difícil", diz Cunha. "Um IPO é um processo que exige mais estabilidade do mercado."

O aumento da taxa de juros faz com que os investidores exijam prêmios de risco cada vez maiores, derrubando o valor de mercado das companhias, destaca Rodrigo Lima, analista da plataforma de investimentos Stake.

O analista da Stake, que é especializada em conectar investidores ao mercado americano de ações, considera que até mesmo as emissões iniciais de empresas brasileiras nos Estados Unidos devem ser realizadas apenas por empresas em franco crescimento e com grande capacidade de fazer o mercado acreditar que elas podem oferecer remuneração maior do que a já elevada taxa livre de risco.

O enfraquecimento da onda de IPOs não significará, porém, a ausência completa de emissões de ações ao longo do próximo ano, segundo Denis Morante, sócio-diretor da Fortezza Partners.

Para Morante, algumas ofertas devem ocorrer ainda no final deste ano e no início do próximo, mas uma nova onda "com euforia e otimismo" vai demorar para acontecer, segundo o especialista. "Pode ser que seja necessário esperar as eleições de 2022."

Com investidores avessos a apostas em empresas iniciantes na Bolsa, as ofertas ao longo dos próximos meses deverão se concentrar nas emissões de companhias que já possuem capital aberto e que retornarão ao mercado para ofertar mais papéis, o que no jargão do mercado é chamado de follow on.

"O processo vai se tornar mais seletivo e só emissões volumosas e muito sólidas vão acabar acontecendo, provavelmente, haverá mais follow on do que IPO", afirma Morante.

Outro movimento esperado pelo analista é que empresas antes dispostas a abrir ofertas públicas resolvam dar um passo atrás e recorrer a investimentos privados por meio de instituições do mercado de private equity (patrimônio privado). "O empresário poderá e deverá acessar esse mercado, que está aquecido e otimista com a possibilidade de ocupar o lugar das emissões de ações", diz.

Será necessária mais atenção do investidor para avaliar as empresas que resolverem se lançar ao mercado mesmo durante as turbulências dos próximos meses, de acordo com o especialista da iHUB Guilherme Ammirabile.

O principal ponto é sobre o valor da companhia (valuation), que é apresentado no prospecto da emissão. Essa análise requer o auxílio de um especialista.

Outro caminho para amenizar o risco de pagar caro demais é avaliar se o setor é considerado promissor e se a companhia tem vantagens competitivas em relação à concorrência.

Ammirabile alerta que, embora o IPO teoricamente apresente o menor valor de mercado que uma companhia terá, a relação entre demanda e oferta pode distorcer essa regra. "É muito comum observarmos uma grande volatilidade nesse momento", diz.

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