Incerteza permanece na Etiópia, e cada lado reivindica vitórias militares no Tigré

Robbie COREY-BOULET
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Refugiados etíopes que fugiram do Tigré em Gadarif, ao leste do Sudão
Refugiados etíopes que fugiram do Tigré em Gadarif, ao leste do Sudão

O governo etíope e as autoridades regionais do Tigré reivindicaram, nesta quarta-feira (18), vitórias militares no conflito que enfrentam há duas semanas e que Adis Abeba considera estar em sua fase "final".

A realidade da situação sobre o terreno é difícil de avaliar, devido ao bloqueio dos veículos de imprensa na região e às restrições impostas aos movimentos de jornalistas.

"O Exército avança em todos os lados", afirmou nesta quarta-feira Berhanu Jula, chefe da força do governo, a vários veículos oficiais da mídia.

"O plano da Frente de Libertação do Povo do Tigré (TPLF) de levar a Etiópia à guerra civil e desmembrá-la fracassou, e (a TPLF) está completamente encurralada", acrescentou.

Na tarde de ontem, o governo etíope afirmou controlar várias cidades do leste do Tigré, como Mehoni, a 125 km da capital regional, Mekele, para a qual o Exército "se dirigia".

Além disso, o governo afirma controlar o oeste do Tigré há vários dias e, desde terça-feira, a cidade de Shire (norte). Enquanto isso, avança para Axum, um enclave importante na religião cristã ortodoxa etíope.

O Prêmio Nobel da Paz de 2019, Abiy Ahmed, anunciou uma campanha militar contra o Tigré em 4 de novembro, em resposta aos ataques da TPLF contra bases militares federais, segundo Ahmed.

Já as forças do Tigré reivindicam vitórias militares, mas sem dar precisões geográficas.

"Infligimos importantes derrotas às forças inimigas em todas as frentes", afirmou o presidente do Tigré, Debretsion Gebremichael, em um comunicado.

"Convoco todos a saírem em massa para rejeitar o invasor e continuar infligindo importantes perdas e derrotas", acrescentou.

- "Em 10, ou 15, dias" -

A ONU alertou na terça-feira para a "crise humanitária em grande escala" que está sendo produzida na fronteira entre o Sudão e a Etiópia, atravessada todos os dias por 4.000 pessoas que fogem dos combates.

A preocupação aumenta na comunidade internacional pelas consequências que o conflito poderia gerar para a estabilidade do Chifre da África.

No sábado, a Frente do Tigré lançou foguetes contra o aeroporto da capital da Eritreia, Asmara, porque considera que ajuda o governo etíope no conflito. Isso levou o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, a acusar as autoridades do Tigré de quererem "desestabilizar a região".

O vice-primeiro-ministro etíope, Demeke Mekonnen, foi recebido por vários chefes de Estado do leste da África (Uganda, Quênia, Ruanda) que pedem o retorno rápido da paz.

Mas Abiy Ahmed afirma que a mediação ocorrerá apenas quando a TPLF for desarmada, e seus líderes, presos.

Adis Abeba afirmou na terça-feira ter entrado na fase "final" de sua operação militar. No mesmo dia, o ministro da Defesa, Kenea Yadeta, declarou, em uma entrevista à televisão alemã DW, que o conflito terminará "provavelmente em 10, ou 15, dias".

Mas, segundo várias fontes diplomáticas, não é tão simples para as forças do governo conseguirem derrotar rapidamente a TPLF, que tem um importante equipamento militar e cerca de 250.000 soldados (entre paramilitares e milícias), que conhecem bem o terreno.

Os efetivos do Exército etíope são estimados em cerca de 150.000 soldados, mas não estão incluídas neste número as forças especiais nem as milícias.

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