As incertezas sobre os acordos de Ucrânia e Rússia para a exportação de cereais

Os acordos assinados sexta-feira por Ucrânia e Rússia com as Nações Unidas, mediados pela Turquia, para permitir a exportações sobretudo de cereais mantêm-se envoltos em muitas incertezas.

Logo à partida, se o Kremlin irá de facto cumprir o prometido, como nos antecipa Nikolai Petrov, analista da Euroásia na consultora "Chatham House".

Penso que os acordos, no geral, são muito frágeis e podem ruir a qualquer altura por diversas razões ou simplesmente por a Rússia decidir quebra-los alegando certos pretextos

"A Rússia exigia que certas sanções fossem levantadas ou pelo menos aligeiradas. Até agora, desconheço os exatos detalhes destes acordos, mas percebe-se que o Kremlin não está interessado em permitir a exportação dos cereais ucranianos sem receber contrapartidas importantes", afirma o especialista de política russa e euro-asiática.

Com diversas razões para desconfiar do Kremlin, a Ucrânia recusou assinar o acordo diretamente com a Rússia, país que agora considera um "estado terrorista" devido à invasão iniciada a 24 de fevereiro e que se mantém sobretudo com bombardeamentos que continuam indiscriminadamente a matar civis.

As mudanças constantes de argumentação e ações contrárias às negociações diplomáticas reveladas pelo Kremlin, como o ataque já deste sábado ao porto de Odessa, levaram o governo de Kiev a exigir assinar um acordo com a ONU e a exigir à organização liderada por António Guterres a supervisão do cumprimento do agora ratificado em Istambul pelo governo russo.

Os acordos preveem, por um lado, um corredor seguro para a saída dos barcos ucranianos transportando cereais dos portos de Odessa, Chornomorsk e Yuzhny, num processo totalmente controlado pela Ucrânia e respetivos parceiros internacionais. Por outro, a circulação segura de barcos russos exportando cereais e fertilizantes pelo Mar Negro.

Para o Presidente Zelenskyy, a assinatura destes acordos "é mais uma demonstração de que a Ucrânia pode aguentar esta guerra".

"Mais importante, o nosso país tem de controlar todo o processo nas águas territoriais ucranianas. É claro para todos de que poderá haver provocações russas e tentativas de desacreditar os esforços ucranianos e internacionais, mas agora confiamos nas Nações Unidas. É responsabilidade da ONU e dos nossos parceiros internacionais garantir o cumprimento dos acordos", exigiu Volodymyr Zelenskyy.

Do lado russo, que agora mantém cativo boa parte da costa sul ucraniana e por conseguinte de portos onde estavam armazenadas toneladas de cereais ucranianos, como Mariupol, continua a culpar-se o ocidente pela agravada crise alimentar global.

"A assinatura do memorando entre a Rússia e a ONU vem uma vez mais sublinhar a natureza artificial das tentativas do ocidente de virar para a Rússia as culpas pela entrada dos cereais nos problemas dos mercados mundiais", argumentou Sergey Lavrov,

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia foi também notícia esta semana ao revelar que o objetivo do Kremlin afinal não é apenas defender os territórios rebeldes ucranianos que considera repúblicas independentes, no leste da Ucrânia, mas também conquistar o controlo de toda a costa sul ucraniana.

Entretanto, em África, onde a fome ameaça agravar-se em diversos países se os acordos não forem cumpridos, celebrou-se a assinatura na Turquia dos compromissos para permitir a exportação de cereais pelo Mar Negro.

África celebra

Os presidentes da Costa do Marfim e da África do Sul aproveitaram um encontro esta sexta-feira para se manifestarem agradados com os acordos que vinculam Ucrânia e Rússia à ONU para desbloquear a exportação de milhões de toneladas de cereais e outros produtos agrícolas, como fertilizantes russos, muito necessitados em África.

O costa-marfinense Alassane Outtara revelou ter manifestado ao presidente da Ucrânia o desejo de que "o continente africano seja tornado uma prioridade" nos destinos dos cereais.

O sul-africano Cyril Ramaphosa deixou um alerta aos líderes africanos para que coloquem "este conflito como um sinal de alarme" para a autossuficiência.

Os dois presidentes juntaram-se esta sexta-feira em Pretoria para assinarem um memorando bilateral de cooperação, nomeadamente em questões de segurança, e aproveitaram para celebrar e comentar os acordos entre Ucrânia e Rússia com as Nações Unidas.

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