Indígenas assistem a filmes em cinema pela primeira vez na Bahia

O dia 11 de dezembro foi especial para Uruba Pataxó, vice-cacica da Aldeia Indígena Pataxó Barra Velha, no Sul da Bahia. Aos 42 anos, ela foi ao cinema pela primeira vez. Ao lado de outras cerca de 60 pessoas da região, Uruba, cujo nome em português é Erilza dos Santos, sentou-se em frente ao telão montado em uma área ao ar livre para assistir a uma série de curtas-metragens brasileiros. Com um saquinho de pipoca nas mãos, dizia que aquele seria um momento especial não só para ela, mas para as crianças e os jovens que a acompanhavam.

— As crianças aqui amam teatro, e a expectativa é grande para ver o que é um cinema. Eu mesma, que estudei em uma capital, nunca fui a um de verdade — contou a vice-cacica, que atua na educação inclusiva da Escola Municipal Indígena de Barra Velha e tem formação em licenciatura intercultural pela UFMG.

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Se quisessem ir ao cinema em um dia qualquer, Uruba e as crianças teriam que percorrer cerca de 120 quilômetros até o centro de Porto Seguro, tendo de pegar estrada, canoa e balsa e pagar algo em torno de R$ 24 pela entrada inteira.

Não precisaram, pois o cinema deu um jeito de ir até elas. E chegou àquela aldeia dentro de uma van que viaja o Brasil todo carregando um telão, 110 cadeiras e equipamentos de projeção e som. O veículo ainda tem placas fotovoltaicas no teto, para captar energia solar ao longo do dia e utilizá-la nas sessões à noite. Todos os equipamentos daquele cinema itinerante funcionam a partir de energia que veio do sol.

O projeto, que já levou cinema para 500 cidades no país, impactando cerca de 200 mil pessoas que não têm acesso fácil a essa arte, ganhou o nome de CineSolar. E tudo nele parece ter sido feito para encantar quem o acompanha.

A parte de trás da van, onde ficam as baterias que armazenam a energia, por exemplo, é transformada em uma espécie de sala de aula mágica. Ao final das sessões, a equipe do CineSolar abre esse espaço para as comunidades que visita. Todas as sessões e até mesmo a pipoca são de graça.

— Não existe cinema sem pipoca. Nós sempre contratamos um pipoqueiro da região e fazemos a distribuição dos saquinhos antes e durante as sessões — conta Cynthia Alario, idealizadora e coordenadora do projeto, viabilizado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura, com patrocínio da IBM, em sua edição na Bahia, e apoio da Unesco, da Ciranda de Filmes e de entidades locais.

O CineSolar hoje conta com duas vans que andam pelo país, passando pelas estradas mais improváveis. E emocionam gente como José Everaldo Góis, de 60 anos, que assistiu a uma sessão em Coroa Vermelha, terra indígena também no Sul da Bahia.

— A última vez que fui ao cinema tinha 17 anos. Lembro de ter assistido a “King Kong” e “Lúcio Flávio” — contou ele, referindo-se a filmes da década de 1970. — Nunca esqueci a sensação, mas nunca mais voltei a um cinema.

Casado com uma indígena, ele tinha ao seu lado a filha Naoni Mesquita, de 7 anos.

— Estou amando, é a minha primeira vez no cinema. Eu assisto às coisas pelo celular, mas essa tela é bem maior — atestou a menina ao microfone, durante a sessão.

Kamayurá Pataxó, de 17 anos, cujo nome em português é Pedro Henrique Soares, também assistiu à sessão em Coroa Vermelha, que aconteceu na escola indígena onde ele estuda:

— Achei muito interessante porque o evento trouxe filmes que mostraram várias realidades diferentes. Tinha um curta-metragem sobre pessoas com deficiência, outro sobre capoeira, um terceiro sobre quilombolas... Gostei bastante do programa.

Ciências no telão

A interação da equipe do CineSolar com o público durante as sessões é um dos pontos altos do projeto. Com microfones que circulam pela plateia, eles incentivam as pessoas a falarem sobre a comunidade e a comentarem os filmes. Todo mundo quer participar, de crianças a adultos.

O interesse das pessoas pelo programa é tanto que o CineSolar passou a exibir em suas sessões, desde julho, um curta-metragem sobre o #EDUCASTEM2030, iniciativa da Unesco que promove, entre meninas e mulheres, as carreiras em Stem (sigla em inglês para Ciências, Tecnologias, Engenharias e Matemática). No filme, meninas contam por que querem ser cientistas. Depois da exibição, o assunto é debatido com o público. Já tendo lecionado Ciências e Matemática, Uruba Pataxó falou sobre o tema:

— Nossos jovens precisam de incentivo. Eles hoje têm notas para ingressar nas universidades, em carreiras que incluem Matemática e Engenharia, mas muitos acabam desistindo. Às vezes até por pressão da família. Falar desse assunto usando o cinema é uma excelente ideia.

A vice-cacica foi identificada como uma das mulheres cientistas inspiradoras pela Unesco, que fez um mapeamento em várias partes do Brasil.

— Nossa parceria com o CineSolar surgiu a partir do entendimento de que a utilização de ferramentas audiovisuais pode ser um importante diferencial associado aos Recursos Educacionais Abertos. A expectativa é de que esses recursos, com a ampliação de materiais disponíveis para o ensino e a aprendizagem, apoiem a construção de sociedades mais inclusivas, abertas, participativas e com maior qualidade educacional — afirmou Marlova Jovchelovitch Noleto, diretora e representante da Unesco no Brasil.

Noleto ainda destaca que o formato de exibição do projeto apresenta um caráter de inclusão e democratização do audiovisual, uma vez que suas sessões acontecem por meio da energia solar e ao ar livre ou em locais com entrada franqueada.

Aula sobre a energia que vem do Sol

O cinema itinerante é apenas uma parte das ações promovidas pelo CineSolar. E a prova disso é que, na traseira da van que leva os equipamentos de cinema por todos os cantos do país, ainda há um espaço com iluminação e decoração especiais. Depois das sessões de cinema, é nessa estação móvel, que une ciência, arte, tecnologia e sustentabilidade, que crianças e adultos se concentram para ouvir explicações sobre como a luz do sol é captada, armazenada e transformada em energia elétrica.

— Essa ideia nasceu porque a van já contava com um espaço grande para armazenar todo o material. Antes das sessões, tiramos tudo para montar o cinema e ele fica vazio. As baterias e o conversor também ficam ali. Aí pensamos: trabalhamos com arte, vamos levar arte para esse espaço também — explica Cynthia Alario, idealizadora e coordenadora do CineSolar.

A decoração especial conta com luz negra, materiais reciclados e objetos com princípio de magnetismo e eletricidade, como laser e bola de plasma. As crianças fazem fila para entrar, os adultos ficam do lado de fora, observando curiosos, e o programa se estende pela noite.

Um dos responsáveis por apresentar a unidade móvel ao público é Paulo Perez, que costuma criar um clima de suspense com as luzes e os lasers, enquanto fala sobre magnetismo e mostra as baterias que acumulam energia e que dão 20 horas de autonomia para o CineSolar funcionar.

Na plateia de uma das demonstrações de Perez, na aldeia Barra Velha, estava Mihai Bello Braz, de 7 anos. Ela também participou da Oficinema, a oficina que o CineSolar realiza em algumas comunidades com crianças e jovens antes da exibição dos filmes. A ação conta com jogos, atividades que envolvem sustentabilidade e energia renovável e até mesmo a realização de um pequeno filme, que depois é exibido na sessão ao ar livre.

— Eu adorei tudo hoje. Nunca tinha ido ao cinema e, logo na minha primeira vez, assisti a um filme que participei — comemorou a menina.

A repórter viajou a convite do CineSolar e da Unesco.