Indígenas chilenos querem criar nação Mapuche

Por Paulina ABRAMOVICH
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O Mapuche Juan Pinchu é fotografado do lado de fora de sua casa em Temulemu, Temuco, no dia 9 de novembro de 2017

Duas décadas de luta fizeram com que erguesse sua casa em terrenos que eram da companhia florestal no sul do Chile: Ramón Llanquileo defende o combate frontal do povo mapuche para conseguir a restituição de suas terras ancestrais.

Nesses terrenos "recuperados", Llanquileo, um dos líderes da Coordenadora Arauco Malleco (CAM), e sua esposa, Cecilia Pine, pais de dois filhos, cultivam batatas, milho e feijão, além de criarem galinhas e porcos tal como faziam seus antepassados.

Há seis meses, com madeiras extraídas de florestas até pouco tempo nas mãos de empresas, Ramón ergueu uma pequena casa em terrenos nos quais a CAM exerce seu controle depois de desalojar a poderosa florestal Mininco, no interior de Cañete, 600 quilômetros ao sul de Santiago.

"Nossa estadia aqui obedece precisamente ao plano de fazer retroceder as empresas florestais pouco a pouco" do território mapuche, disse à AFP Llanquileo, que perdeu um olho em um confronto.

Para chegar a esse lugar, que parecia abandonado pela Mininco, que não respondeu às consultas da AFP, é necessário pegar um sinuoso caminho de terra que tem como fundo a cordilheira de Nahuelbuta, com notórios espaços desmatados por anos de exploração madeireira.

Antes dos conquistadores espanhóis se estabelecerem no Chile em 1541, os mapuches eram donos das terras desde o rio Biobío até cerca de 500 quilômetros mais ao sul.

Durante a colonização, esta "fronteira" persistiu, até que o território foi ocupado pelo Exército chileno em uma campanha militar que começou em 1861 e durou duas décadas.

Os mapuches, após sucessivos processos, foram reduzidos a viver em cerca de 5% de seus antigos domínios.

Agrupados em pequenas comunidades e divididos, sem espaço para plantar ou criar animais, a maioria teve que renunciar ao seu meio de subsistência tradicional e migrar para as cidades.

- Seis anos de prisão -

Para a CAM, a subsistência como a de Llanquileo representa uma das maiores conquistas em duas décadas de luta para reconstituir a "Nação Mapuche" nas regiões chilenas de La Araucanía, Biobío e Los Ríos.

Nessa zona foram assentadas milhares de famílias alemãs a partir da segunda metade do século XIX, convidadas pelo Estado chileno para explorar um imenso território quase despovoado.

Com cerca de 150 membros, a CAM denuncia a repressão pelas forças policiais com a aplicação da severa "Lei Antiterrorista", que data da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) e pela qual organismos internacionais condenaram o Chile.

Llanquileo e Héctor Llaitul, líder histórico da CAM, passaram seis anos na prisão depois de serem condenados em 2008 pelo ataque a um fiscal e pelo roubo de madeira, acusações que os dois negam.

- Ataques a imóveis e caminhões -

Para sindicatos empresariais da zona, os dois lideram uma organização que semeou o terror, obrigando a mobilização de 3.000 policiais, com ataques a imóveis da indústria florestal e caminhões que transportam madeira, assim como agricultores não mapuches.

"Nós, como transportadores, entendemos as demandas do povo mapuche, mas não estamos de acordo com a forma como eles estão tentando visibilizar essa situação", se queixa Alejo Apraiz, presidente dos caminhoneiros de La Araucanía.

O governo de Michelle Bachelet destaca que ao final de seu mandato terá restituído quase 66 mil hectares de terras fiscais a comunidades indígenas.

- Caminhos distintos, mesmo objetivo -

Mas nem todos os mapuches optaram pelas ocupações forçadas. Chamadas de "institucionais", algumas comunidades negociaram com o Estado.

Temulemu, em Traiguén, assinou em 2011 junto com outras duas comunidades um acordo para recuperar 2.500 hectares também da Mininco, acabando com 15 anos de disputas marcadas por um violento desalojamento em 1998 e pela prisão durante cinco anos por terrorismo do 'lonko', o líder da comunidade, Pascual Pichún.

O caso levou a Corte Interamericana de Direitos Humanos a condenar o Estado chileno.

"Cada comunidade é livre e autônoma para tomar sua própria decisão de como avançar mais rápido", disse o atual lonko de Temulemu, Juan Pichún, à AFP sobre terrenos que rebrotam seis anos depois de serem recuperados.

"Nós mudamos a vida aos poucos. Já não dependemos muito de ir à cidade comprar os alimentos. Aqui mesmo estão voltando a produzir os alimentos que são naturais. E isso permite melhorar a saúde de nossos habitantes", acrescenta.

Em Temulemu também lutam para recuperar a cultura ancestral.

Nesta comunidade, 22 crianças estudam em uma escola intercultural onde aprendem as formas de vida de seus ancestrais, enquanto um programa oficial fomenta o uso das ervas com as quais seus antepassados curavam doenças.

Os mapuches são quase 7% da população chilena, com níveis de pobreza acima dos outros habitantes.

- O Papa, mediador? -

Sem canais de negociação abertos, aguardam a visita do papa Francisco, em janeiro, que buscará aproximar posições em um conflito que persistirá sob o governo que vencer no segundo turno de domingo, entre os candidatos de direita, Sebastián Piñera, e de esquerda, Alejandro Guillier.

"Não esperamos grandes coisas nem do Papa, nem de outra pessoa. Aqui as transformações concretas serão feitas por nós com o nosso esforço", sentencia Llanquileo.