Indígenas equatorianos desafiam estado de exceção com bloqueios viários

Em um desafio ao governo do Equador, a maior organização de indígenas do país fechou rodovias em três províncias andinas nas quais entrou em vigor neste sábado (18) um estado de exceção para controlar as manifestações, que já duram seis dias.

Os protestos continuam em Pichincha (cuja capital é Quito) e nas vizinhas Imbabura (norte) e Cotopaxi (sul), com forte presença de indígenas, que representam mais de um milhão do 1,7 milhão de equatorianos, após a declaração do estado de exceção nestes distritos pelo Executivo.

O bloqueio de vias se estendia a 17 das 24 províncias do país na manhã deste sábado, de acordo com o estatal Sistema de Segurança ECU911.

A Confederação de Nacionalidades Indígenas (Conaie) lidera os protestos pela redução dos preços dos combustíveis após o aumento de 90% (a 1,90 dólar) do galão do diesel e de 46% (a US$ 2,55) da gasolina comum entre maio de 2020 e outubro de 2021, desde quando os preços estavam congelados por pressão dos povos originários.

Desde o ano passado, a entidade propõe que os preços sejam reduzidos a US$ 1,50 e US$ 2,10, respectivamente.

As manifestações, que incluíram marchas estudantis em Quito, deixaram pelo menos 83 feridos e 40 detidos, segundo informações de autoridades e organizações indígenas.

Depois de infrutíferos pedidos de diálogo, no qual a Igreja, a ONU e universidades se ofereceram para mediar, o presidente conservador Guillermo Lasso declarou na sexta-feira estado de exceção durante 30 dias em Pichincha, Cotopaxi e Imbabura, as mais prejudicadas pelos protestos convocados por tempo indeterminado.

- Paz e segurança -

"Eu me comprometo a defender nossa capital e a defender o país", disse o presidente na sexta-feira à noite em uma mensagem transmitida por rádio e televisão.

Sob esta medida, diante de uma "grave comoção interna", Lasso ordenou um toque de recolher para Pichincha, Cotopaxi e Imbabura entre as 22h e as 05h locais (00h e 07h em Brasília), e suspendeu o direito civil à reunião.

O presidente da Conaie, Leonidas Iza, lhe respondeu na madrugada deste sábado: "Ratificamos a luta em nível nacional, em caráter indeterminado".

"A partir deste momento, preparamos a mobilização" para unir a Conaie às manifestações que outros setores de trabalhadores realizam em Quito, paralelamente ao bloqueio de estradas.

Iza não informou quando os indígenas vão chegar à capital, onde os protestos resultaram em confrontos com policiais.

A Conaie participou de revoltas sociais que depuseram três chefes de Estado entre 1997 e 2005. Em outubro de 2019, liderou violentos distúrbios contra o governo em Quito, que duraram mais de uma semana, deixando 11 mortos e mais de mil feridos.

As Forças Armadas convocaram os equatorianos neste sábado pelo Twitter a "dar cumprimento ao determinado no estado de exceção, decretado para benefício da segurança, da paz e do desenvolvimento do Equador".

- Compensações "irrisórias" -

Devido ao aumento do narcotráfico e da violência, desde 30 de abril vigora outro estado de exceção por 60 dias nas províncias costeiras de Esmeraldas, Manabí e Guayas. Em Guayas ocorriam protestos neste sábado.

Lasso, que está no poder há um ano, também anunciou na sexta-feira uma série de medidas como o aumento de 50 para 55 dólares de um bônus para pessoas em situação de pobreza, subsidiar em até 50% o preço da ureia para pequenos e médios produtores e perdoar créditos vencidos de no máximo 3.000 dólares concedidos pelo banco estatal de fomento produtivo.

A Conaie propôs uma redução de dez pontos, que exige que seja atendida antes de se sentar para dialogar.

Os "temas de fundo (...) o senhor não pretende, neste caso, resolver", declarou Iza, dirigindo-se a Lasso pelas redes sociais depois do anúncio das medidas.

No entanto, informou: "saudamos os pontos (em) que há avanços. Embora sejam irrisórios, vão ajudar em alguma coisa" os setores mais necessitados.

Até dezembro passado, a pobreza no Equador chegou a 27,7% da população e a extrema pobreza, a 10,5%. As zonas rurais são as mais vulneráveis.

Governo e indígenas coincidem em pedir que se evite a violência.

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