Indígenas kanamari denunciam ataque armado de pescadores ilegais no Vale do Javari

Um grupo de 30 indígenas da etnia kanamari foi cercado e atacado por pescadores ilegais no rio Itacoaí, no Amazonas, próximo de onde o indigenista Bruno Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips foram assassinados. De acordo com a Associação dos Kanamari do Vale do Javari (Akavaja), os invasores ameaçaram de morte uma liderança com uma arma apontada para seu peito depois de os indígenas recusarem a oferta de tartarugas e peixes em troca de não denunciar a ação ilegal às autoridades. Eles ainda ouviram dos criminosos que "as mortes no Vale do Javari não vão findar ate que as principais lideranças sejam assassinadas". Ao deixarem o local, os criminosos atiraram várias vezes contra as canoas dos kanamari. Ninguém foi ferido.

O ataque aconteceu no último dia 9 de novembro, mas só agora foi divulgado pela entidade. O GLOBO teve acesso aos relatos da Akavaja denunciando a ação dos criminosos. A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns (Comissão Arns) cobrou da Superintendência da Polícia Federal no Amazonas, da Fundação Nacional do Índio (Funai) e do Ministério Público Federal (MPF) "celeridade nas medidas de averiguação e, sendo o caso, de proteção do povo Kanamari" ainda nesta sexta-feira.

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""Vou tirar a máscara para você ver meu rosto e te avisar que por conta de atitudes assim que Bruno e Dom foram mortos pela nossa equipe e você será a próxima. Só não te matarei agora porque estamos na presença de muitas crianças", teria afirmado um dos pescadores à liderança. Dois os pescadores estavam apontando as armas para o grupo de indígenas que estavam à beira do rio.

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A Akavaja afirmou ainda aque depois de ameaçar o grupo, em especial a liderança mulher, os pescadores cortaram a fiação do motor de uma das canoas e saíram em seus barcos pelo rio, empunhando armas e atirando em direção às canoas do povo Kanamari. Os tiros perfuraram os tambores de gasolina que estavam no teto de uma das canoas.

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"Viver sob a mira das armas dos invasores virou rotina para as lideranças e indígenas que navegam pelos rios da região. A vida nunca mais foi a mesma depois das mortes de Bruno e Dom. Não há segurança alguma para viver dentro do nosso território, temos medo por nós e pelos nossos parentes isolados. Viemos pedir apoio para todas as instituições, parceiros e parceiras e pessoas amigas que se importam com a vida dos povos da floresta", diz trecho de uma carta divulgada nesta quinta-feira.

"Queremos ajuda, pois queremos viver. Toda a vida que habita a floresta é importante e defenderemos nossos irmãos e irmäs sempre. Seguiremos fortes até o fim".

Os indígenas foram cercados quando voltatabam de uma atividade de preparação para o Encontro de Lideranças da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari - UNIVAJA, que acontecerá na comunidade Massapê, no rio Itacoai.

Apontado como mandante do assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips, Ruben Dario da Silva Villar, o Colômbia, foi solto há pouco mais de três semanas após pagar fiança de R$ 15 mil.

A Justiça Federal marcou para os dias 23, 24 e 25 de janeiro de 2023 uma audiência de instrução e julgamento de Amarildo da Costa Oliveira, vulgo “Pelado”; Oseney da Costa de Oliveira, o “Dos Dantos”; e Jefferson da Silva Lima, o “Pelado da Dinha”. Eles se tornaram réus no processo que investiga o assassinato de Bruno e Dom Phillips em julho e seguem presos.

Cinco meses após as mortes, o Vale do Javari continua uma terra sem lei, denunciam indígenas e servidores da Funai. Apesar das ações judiciais, articulações parlamentares e mobilizações de funcionários, a fundação e o governo federal não tomaram ainda medidas para garantir a segurança dos moradores e indigenistas. Servidores continuam recebendo ameaças, diretas e veladas, de invasores.

Entenda o caso

Bruno e Dom foram assassinados a tiros quando voltavam de uma viagem pelo rio Itacoaí, no dia 5 de junho, após uma emboscada. Colômbia estava preso por conta de outro mandado de prisão, este por associação armada ligada a crimes ambientais, onde se investiga a sua relação com o crime brutal e a liderança de uma organização criminosa que usa a pesca ilegal na região para lavar dinheiro do narcotráfico na tríplice fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru.

O desaparecimento foi revelado pelo GLOBO e confirmado pela União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), região com a maior concentração de povos indígenas isolados do mundo, no dia 6 de junho. O indigenista Bruno Araújo, que acompanhava o jornalista britânico, era alvo constante de ameaças pelo trabalho que vinha fazendo junto aos indígenas contra invasores na região, pescadores, garimpeiros e madeireiros.

A PF também investiga se um esquema de lavagem de dinheiro para o narcotráfico por meio da venda de peixes e animais pode estar relacionado ao desaparecimento da dupla.

O GLOBO apurou que apreensões de peixes que seriam usados no esquema foram feitas recentemente por Bruno Pereira, que acompanhava indígenas da Equipe de Vigilância da União dos Povos Indígenas do Javari (Unijava). As embarcações levavam toneladas de pirarucus, peixe mais valioso no mercado local e exportado para vários países, e de tracajás, espécie de tartaruga considerada uma especiaria e oferecida em restaurante sofisticados dentro e fora do país.

A ação de Pereira contrariou o interesse do narcotraficante conhecido como "Colômbia", que tem dupla nacionalidade brasileira e peruana. Ele usa a venda dos animais para lavar o dinheiro da droga produzida no Peru e na Colômbia, que fazem fronteira com a região do Vale do Javari, vendida a facções criminosas no Brasil. Há suspeita de que ele teria ordenado a Amarildo da Costa de Oliveira, o Pelado, a colocar a “cabeça de Bruno a leilão”.