Indígenas recorrem a drones, GPS e aplicativos para proteger a floresta

URUARÁ, PA. 18/07/2020 - Área preservada da Amazônia perto de Uruará (PA). ( Foto: Lalo de Almeida/ Folhapress)
URUARÁ, PA. 18/07/2020 - Área preservada da Amazônia perto de Uruará (PA). ( Foto: Lalo de Almeida/ Folhapress)

FORTALEZA, CE (FOLHAPRESS) - Quase todos os meses, Bitaté Uru-Eu-Wau-Wau, 22, deixa a aldeia Jamari e adentra a pé pela floresta amazônica com outros 29 indígenas, entre homens e mulheres. Levam drones e aparelhos de GPS para ajudá-los a monitorar o que for possível dos 18.670 km² da Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia.

Assim como eles, vários povos indígenas em diferentes partes do Brasil estão aprendendo a usar tecnologias modernas para cumprir a árdua tarefa de proteger seus territórios --e a floresta. Se antes atuavam em colaboração com as autoridades brasileiras responsáveis pela fiscalização, agora dizem assumir cada vez mais o protagonismo diante do crescimento das invasões e do que consideram inação do Estado.

Bitaté é um dos dois coordenadores das equipes de vigilância criadas para proteger a TI (terra indígena) Uru-Eu-Wau-Wau, uma espécie de ilha de floresta cercada por fazendas e historicamente cobiçada por grileiros e madeireiros.

"Ver o desmatamento lá de cima traz um impacto", conta, ao lembrar a primeira vez que pôs no céu um drone para vigiar seu território, em 2020. "A riqueza está do nosso lado. Do outro há destruição."

A área da Amazônia Legal --onde fica a TI Uru-Eu-Wau-Wau-- perdeu quase 4.000 km² de vegetação entre janeiro e junho deste ano. Essa é a maior taxa de desmatamento para um primeiro semestre em sete anos, segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

"Sou um defensor do meio ambiente. Estamos trabalhando para proteger a floresta, mas ver as árvores sendo derrubadas e queimadas é muito triste", lamenta Bitaté.

Com dois drones cedidos por entidades indigenistas, os povos que vivem na TI Uru-Eu-Wau-Wau têm conseguido acessar com rapidez áreas remotas e flagrar madeireiros com mais segurança. Eles já não precisam se arriscar indo até o local pegar as coordenadas de GPS: agora agem de forma discreta enquanto manejam os drones. A uma distância de até dois quilômetros, fotografam e passam a denúncia adiante sem enfrentamento direto com invasores.

As imagens são usadas para comprovar eventuais crimes às autoridades brasileiras e pressioná-las a agir. Os indígenas também usam os aparelhos GPS para georreferenciar as atividades ilegais realizadas no território e, assim, tentar entender como avançam as invasões.

"Eles [os invasores] começam fora da terra indígena e vão se aproximando até entrar. Foi assim com os madeireiros, e agora estão entrando atrás de minério também. Estamos muito preocupados", conta Bitaté.

Com a missão de defender a floresta e seus territórios, ao longo dos anos os indígenas foram aprendendo a manejar mapas, se comunicar por satélite e, mais recentemente, a usar drones e inteligência artificial. Contam para isso com o apoio de projetos executados por ONGs e indigenistas, que fornecem equipamentos e orientações para usá-los.

O WWF Brasil e a Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé são algumas dessas entidades. Quando o país viu os índices de queimadas explodirem na Amazônia em 2019, elas decidiram iniciar um projeto para monitorar territórios de forma mais organizada.

Começaram então a treinar povos indígenas no uso de tecnologias no combate às emergências amazônicas. Desde então, 25 kits de monitoramento, com drones e GPS, foram doados em cinco estados.

"Eles conseguiram rapidamente se apropriar da tecnologia, e nós temos ampliado o projeto", conta Felipe Spina, analista de conservação do WWF-Brasil.

Além dos drones, o trabalho inclui aplicativos de celular para processar dados e enviar informações para uma central. O WWF também presta assessoria para que os ilícitos sejam denunciados aos órgãos competentes. "As tecnologias multiplicam a capacidade do monitoramento", resume Spina.

Um trabalho semelhante vinha sendo realizado na Terra Indígena Vale do Javari pelos indigenistas Orlando Possuelo e Bruno Pereira, este último assassinado há pouco mais de um mês na região enquanto atuava para combater a caça e a pesca ilegal no território que concentra o maior número de povos isolados do mundo.

Ao desaparecer junto com o jornalista Dom Phillips, Bruno levava fotografias, vídeos e informações georreferenciadas com os quais pretendia denunciar crimes à Polícia Federal. Esse material havia sido reunido por indígenas de cinco etnias da região, no Amazonas. Eles haviam criado a EVU, Equipe de Vigilância da Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari) justamente para mapear invasões e obter provas que pudessem abastecer as autoridades.

Os indígenas se dividem em equipes de 13 pessoas e vão a campo com drones e celulares com aplicativos capazes de registrar as coordenadas dos pontos de invasão a cada fotografia feita. Cada passo é acompanhado por outra equipe, que fica na base. Tudo para monitorar uma área de mais de 85 mil km² numa região também marcada pelo narcotráfico, na tríplice fronteira do Brasil com Peru e Colômbia.

"Estamos falando de um território do tamanho de Portugal, onde o governo não consegue fazer uma fiscalização efetiva em todo o seu perímetro. Então é muito importante que os moradores de lá, os índios, atuem como informantes, como vigias", justifica Orlando Possuelo, que realiza esse treinamento com os indígenas.

"A gente não quer que [a TI Vale do Javari] se torne mais uma dessas terras indígenas que estão totalmente degradadas e destruídas pela ação ilegal."

É por isso que a EVU tem se preparado para, a partir das informações coletadas em campo no aplicativo de celular, criar um mapa georreferenciado para entender como funcionam as invasões ao território. Eles também estão desenvolvendo um indicador que possa mostrar os efeitos do trabalho da equipe de vigilância.

Orlando diz que, desde que esse projeto foi iniciado, em setembro do ano passado, não contou com o apoio de órgãos do governo.

Indígenas e indigenistas veem um cenário de enfraquecimento de órgãos de fiscalização nos últimos anos. O governo Bolsonaro fiscalizou menos de 3% dos alertas de desmatamento do país, segundo o MapBiomas.

A Folha procurou a Funai (Fundação Nacional do Índio) para saber o que tem sido feito para proteger as terras indígenas, mas não obteve retorno.

"Há pouca ação dos responsáveis por combater o desmatamento na Amazônia. Neste contexto, fica ainda mais importante que os próprios grupos indígenas tenham maneiras de, por conta própria, monitorar e tentar defender seus territórios", afirma Felipe Spina, do WWF Brasil.

O indígena Ubiratan Suruí, 29, conta que equipes de dez a 15 indígenas fazem a vigilância dos 248 mil hectares da Terra Indígena Sete de Setembro, onde vivem os paiter suruí, entre os estados de Rondônia e Mato Grosso. Eles tentam impedir a invasão de madeireiros, caçadores e pescadores enquanto enfrentam a pressão do desmatamento.

"Fazemos a vigilância do nosso território porque, sem ela, as pessoas vão entrando sem dó. O governo não tem cumprido seu papel", critica.

Recentemente, eles leiloaram obras de arte em NFT (sigla em inglês para tokens não-fungíveis) para conseguir recursos e seguir com as expedições de vigilância. "O drone é uma ferramenta muito útil na fiscalização. Antes fazíamos atividades de vigilância, mas não tínhamos imagens. Muitas vezes o poder público não fazia nada porque a gente não tinha como provar", conta.

A vigilância na TI Sete de Setembro envolve desde os anciãos, tradicionais conhecedores da floresta, até os mais jovens, que têm se dedicado a aprender a usar as novas tecnologias.

"O território para nós é sagrado. É uma atividade que não vai parar nunca. As ameaças só tendem a piorar. Temos que ser fortes e buscar parceiros para ajudar. Não estamos mantendo a floresta só para a gente, mas para o mundo", finaliza Ubiratan.

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