Indígenas são 'esquecidos' por autoridades em esclarecimentos sobre buscas a Dom e Bruno: 'Equívoco'

Maiores conhecedores da área, primeiros a terem começado as buscas por Dom Phillips e Bruno Pereira – já no dia do desaparecimento, em 5 de junho – e protagonistas num trabalho de varredura que durou dez dias ao lado de policiais, bombeiros e militares, os indígenas do Vale do Javari (AM) foram esquecidos pelas autoridades na noite desta quarta-feira (15), durante os esclarecimentos acerca dos eventos que resultaram na confissão de um dos executores da dupla, Amarildo da Costa Oliveira, o Pelado, e na descoberta de restos mortais em local apontado por ele próprio mata a dentro, em local próximo ao Rio Itaquaí, na região da comunidade de São Rafael.

Durante cerca de 20 minutos de apresentação em Manaus (AM), o superintendente regional da Polícia Federal do Amazonas, Eduardo Alexandre Fontes, destacou a importância da "união das forças" e fez agradecimentos à Secretaria de Segurança Pública do Amazonas, polícias Militar e Civil, Corpo de Bombeiros, Exército, Marinha, Tribunal de Justiça e Ministério Público estadual. Fez questão até de lembrar do apoio dado pela Aeronáutica, que não enviou um representante à mesa. Seu discurso foi seguido pelos demais presentes.

A total omissão sobre a ajuda dada pelos indígenas causou estranheza e logo foi questionada pela representante de um veículo de imprensa internacional que, em inglês, questionou: "os indígenas ajudaram muito na tentativa de encontrá-los e nada foi mencionado sobre os esforços que eles empenharam". Foi só então que o superintendente da PF assumiu o que definiu como um "equívoco" e citou a participação dos povos originários.

– De fato foi um equívoco aqui a gente não mencionar o trabalho também que foi realizado com a parceria dos ribeirinhos e dos indígenas locais. Muitos deles nos acompanharam nas embarcações, nas aeronaves. Então, sim, foi fundamental. Nós os utilizamos, quando havia segurança para eles. Obviamente, não em todas as diligencias. Mas em critério de conveniência e oportunidade daquele que estava na embarcação, chefiando a embarcação ou aeronave, houve sim muitas vezes a presença deles, que nos auxiliaram lá – disse.

O comandante André Lúcio, representante do Exército, então, acrescentou:

– Eu gostaria só de complementar que o Exercito é composto em grande parte dos seus efetivos na Amazônia por indígenas, e isso é o que nos fortalece – afirmou.

'Fomos nós que encontramos a área'

As breves explicações não foram suficientes. Nas redes, logo surgiram uma série de críticas sobre o não-reconhecimento do trabalho feito pelos indígenas. De acordo com a própria PF, foram percorridos 26,4 km2 em área de mata, de difícil acesso, durante todos esses dias, além de navegação numa distância fluvial que equivale a 70km até que os "remanescentes humanos", que podem ser de Dom e Bruno, fossem encontrados. A União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) comentou, em nota, sobre as dificuldades enfrentadas e alegou que os indígenas não foram tratados como parceiros de busca pela maior parte das autoridades.

"Fomos nós, indígenas, que encontramos a área que, posteriormente, passou a ser alvo das investigações por parte de outras instâncias, como a Polícia Federal, o Exército, a Marinha, Corpo de Bombeiros etc. Foi a equipe de vigilância da Univaja que indicou para as autoridades o perímetro a ser vasculhado em profundidade pelos órgãos estatais. Para isso, nós contamos com a colaboração e proteção constante dos policiais militares do 8º Batalhão em Tabatinga (AM): os únicos a nos tratarem como verdadeiros parceiros na busca, valorizando o nosso conhecimento e a nossa sabedoria enquanto povos indígenas, conhecedores do nosso território.

Integração com os povos indígenas

Após sua exoneração da Funai, Bruno Pereira pediu licença do órgão e decidiu fiscalizar a região, atacada por garimpeiros, madeireiros e pescadores, ao lado dos indígenas, com a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), ignorados nesta quarta-feira pelas autoridades. Na ONG o servidor público, tido como o maior indigenista de sua geração, ensinava os ativistas do vale a manusear mapas e a operar drones, o que permitia que eles próprios fiscalizassem a área e documentaram irregularidades às autoridades de segurança.

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