‘A indústria do futuro é o que nos traz à cop27’, diz José Firmo, CEO do Porto do Açu

O Porto do Açu, em São João da Barra, no Norte Fluminense, quer se consolidar como um polo de industrialização do futuro. Hoje ligado à atividade petrolífera, quer ser um porto verde. Uma das apostas é o hidrogênio verde, mas para alimentar indústrias com energia renovável aqui.

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“Um ecossistema de novas energias, conectado a uma produção de hidrogênio que não tem por desenho somente exportar, sustentar a necessidade de hidrogênio da Europa, mas, sim, descarbonizar o aço, o fertilizante e as operações portuárias do transporte marítimo”, explica ao GLOBO José Firmo, CEO do empreendimento da Prumo, sucessora da LLX de Eike Batista e controlada desde 2013 pela americana EIG.

O executivo está no Egito, onde apresenta detalhes do projeto na COP27, a conferência climática da ONU. Hoje, o porto responde por 40% do petróleo exportados pelo país e também escoa seis milhões de toneladas de minério de ferro para o exterior. A estratégia para um futuro mais verde está na criação de uma base de geração de energia sustentável, a ser usada como insumo por indústrias interessadas em reduzir suas pegadas de carbono.

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Como opera o Açu hoje?

O porto nasce com 130km2, e em 40km² há uma reserva com muitas missões, como ser uma plataforma de compensação ambiental para os clientes e estabelecer um modelo de gestão e licenciamento ambiental único. O terminal portuário já exporta perto de 40% do petróleo brasileiro e seis milhões de toneladas de minério de ferro.

É uma estrutura que já faz dele o segundo maior porto brasileiro em movimentação de carga. Há ainda a estrutura do terminal 2, principalmente de óleo e gás, com a GNA (Gás Natural Açu, que desenvolve e opera projetos sustentáveis em energia a gás) com duas térmicas, uma de 1,3 GW já produzindo e outra de 1,7 GW com previsão de operar em 2025. Já são sete mil pessoas trabalhando. Mas isso é só o começo porque temos 44km2 de área para ser industrializada. São R$ 20 bilhões no plano de investimentos para os próximos dez anos, entre o Açu e as empresas que já estão instaladas no porto.

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E como vai crescer?

O que tem à frente é a industrialização. A vertical dessa industrialização que tem chamado mais atenção é a razão de nós virmos à COP27: a industrialização do futuro. A indústria que vai estar aqui em 30 ou 50 anos vai ser muito distinta da que já se instalou até hoje.

Grandes portos (com a combinação) energia-indústria mundiais, como os de Houston (EUA) e Antuérpia (Bélgica), estão com 95% a 97% de utilização. Em visita a um deles, vimos algumas áreas vazias. Responderam que ali só se poderia alugar para indústria de transição, de baixo carbono ou a chamada transition-ready, aquela já plugada numa linha de transição energética. Daí, geramos a ideia, uma oportunidade única. Não há porto pronto como o Açu com, ao mesmo tempo, a oportunidade de área e infraestrutura.

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E qual é a oportunidade?

O Açu Greenport é uma plataforma que une novas energias, hidrogênio e industrialização. Em geral, iniciativas em curso têm a ideia de manter o Brasil como um grande exportador de commodities. Se o hidrogênio verde ou a amônia vai ser a commodity do futuro, se pararia aqui. Mas estamos falando de muito mais do que isso, da industrialização.

Para isso, no Açu, temos três grandes hubs: a descarbonização do aço, com uma planta de Hot Briquetted Iron (HBI, produzindo a partir de pelotas de minério de ferro, num processo que resulta em baixa emissão de CO2); a descarbonização dos fertilizantes, com uma planta de amônia, e a descarbonização do transporte marítimo, através dos combustíveis limpos. A ideia é ter uma base de energia renovável e outros produtos que são insumos para outras indústrias.

Energia é o ponto de partida?

É o fundamental. Há três hotspots de energia eólica no Brasil: no Sul, no Nordeste e em frente ao Porto do Açu. Do ponto de vista logístico, o Açu faz muito mais sentido do que qualquer outro lugar. Temos 14 projetos pré-licenciados em eólica offshore (no mar).

E há cinco clientes que fecharam memorandos de entendimento e estão desenvolvendo projetos com a gente: Shell, Iberdrola, EDF, TotalEnergies e Equinor. Porque o mais importante para que o eólico offshore seja eficiente é ser integrado à cadeia logística completa. Hoje existem bases logísticas em discussão no Açu. O que já temos é a conexão com o grid (a rede de distribuição de energia).

O projeto no Açu tem a habilidade de injetar diretamente no Sistema Sudeste. O Nordeste já não tem mais capacidade de gerar energia renovável e mandar para o Sudeste, a menos que sejam construídos novos linhões de transporte, que são caríssimos. O desenho é ter bases logísticas e criar uma cadeia de fabricantes de turbinas, blades (pás) e torres (de aerogeradores). Na base logística será preparada a instalação das torres no mar, que representa 40% do custo.

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E haverá unidade solar?

Sim, com a Equinor. A decisão de investimento deve sair em julho de 2023. Temos: solar, eólica offshore e agora uma análise nova de (energia de) biomassa e biogás muito promissora. Está se formando em volta do Açu um ecossistema de fontes de energia muito resilientes.

É o que a gente está apresentando na COP como algo muito novo: um ecossistema de novas energias, conectado a uma produção de hidrogênio que não tem por desenho somente exportar, sustentar a necessidade de hidrogênio da Europa, mas, sim, descarbonizar o aço, o fertilizante e as operações portuárias do transporte marítimo.

Iniciamos o licenciamento de 1 milhão de metros quadrados de um cluster para hidrogênio, onde já temos a Shell como primeiro cliente, com o desenvolvimento de uma planta-piloto de 10MW e que pode se expandir a 100 MW. E já assinamos memorandos com Linde, Iberdrola e EDF para o desenvolvimento de plantas-pilotos. A energia solar tem a função de habilitar esse piloto, porque (o hidrogênio verde) tem de ter energia renovável como fonte. O Brasil tem uma das energias renováveis mais eficientes e baratas do mundo. E, com isso, tem condições de produzir o hidrogênio mais barato do mundo.

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E como fica o aço?

Os dois segmentos industriais que mais emitem CO2 são o de aço e o de químicos e plásticos. Como já temos seis milhões de toneladas de minério de ferro exportados pelo Açu, a primeira ideia é ajudar a descarbornizar o aço. Na Europa, há produção com fornos elétricos. Aqui, é alto forno convencional. No segmento que usa fornos elétricos, pode gerar zero carbono. Aqui, as plantas podem reduzir suas taxas entre 30% e 50%.

Fertilizantes também?

O Brasil importa 95% de seus fertilizantes nitrogenados. Não vemos como um país agrícola ficar com esse nível de dependência. Temos dois clientes analisando para, em 2023, decidir sobre a instalação de misturadoras no Açu.