Indeciso? Confira ranking de especialistas com as propostas para a saúde de Covas, França, Boulos e Russomano

Suzana Correa
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Foto: Foto: Arquivo O GLOBO
Foto: Foto: Arquivo O GLOBO

SÃO PAULO — A próxima gestão da cidade de São Paulo encontrará desafios enormes na área da saúde graças a continuidade da pandemia, o desafio de vacinar toda a metrópole, a falta de profissionais, queda nas taxas de vacinas e o aumento da prevalência de doenças crônicas.

O GLOBO pediu as três principais propostas para a área às campanhas de Bruno Covas (PSDB), Celso Russomanno (Republicanos), Márcio França (PSB) e Guilherme Boulos (PSOL), líderes nas pesquisas de intenção de voto. As 12 ideias foram analisadas e ranqueadas por especialistas, sem que soubessem o autor de cada uma, de acordo com os dois critérios: relevância para a cidade e viabilidade de execução.

Veja os rankings e, abaixo, como cada candidato se saiu:

O candidato a reeleição tem a proposta melhor avaliada pelos especialistas em termo de relevância: colocar a tecnologia a favor dos pacientes, ampliando acesso a telemedicina e garantindo treinamento para 60 mil profissionais. É medida que atende às demandas de promover atendimento seguro durante a pandemia e garantir atualização do quadro de funcionários.

As demais propostas de Covas, no entanto, não foram tão bem avaliadas. O candidato promete investir R$800 milhões em 150 equipamentos de saúde até 2025 — mas sem investimentos em prevenção, acompanhamento contínuo e pessoal qualificado, os especialistas alertam que novas instalações não vão resolver os problemas da cidade, como fila média de quase 30 dias para atendimento nas UBSs.

A ideia de destinar hospitais exclusivamente para moradores de ruas e cuidados prolongados dividiu os entrevistados. A iniciativa de segregar os paulistanos em situação de rua preocupa os médicos.

— A pessoa em situação de rua é um paciente como os demais. O que tem que existir é treinamento das equipes médicas para que essa população seja devidamente atendida em qualquer hospital público da cidade — defende Jamal Suleiman, médico infectologista do Instituto Emílio Ribas, centro de referência no tratamento de Covid-19 na cidade.

As três propostas de Boulos pontuaram bem em termos de relevância, mas colocá-las em prática pode não ser tão simples. O psolista sugere contratação imediata de mais médicos nas periferias da cidade, mas a região sofre para atrair novos profissionais, repelidos pela falta de condições e plano de carreira e os salários mais atraentes no setor privado.

O candidato promete garantia de teto de espera para realização de exames e procedimentos de acordo com a urgência do caso. Os mais prioritários seriam atendidos em até 48 horas. A gestão de Covas, no entanto, já tentou reduzir as filas para máximo de 60 dias através do “Corujão da Saúde”, em 2017, e não

foi bem sucedida. A viabilidade do teto de tempo passa por implantação de outras medidas que auxiliem no atendimento da alta demanda, como contratação de pessoal, explicam os pesquisadores.

Boulos propõe ainda reabrir hospitais fechados ou parcialmente abertos. A medida vem sendo adotada por Covas, que reativou 3 hospitais (Sorocabana, Guarapiranga e Brigadeiro) durante a pandemia — mas investir em instalações físicas e hospitais que atendem casos de maior complexidade não pode ser a única política de estado, dizem os experts. É preciso investir na atenção básica.

As ideias do candidato impulsionar o uso da tecnologia pela saúde da cidade (através de instalação de prontuários eletrônicos unificados e incentivo à telemedicina) foram bem avaliadas.

— São coisas que dá para fazer. Racionalizam o cuidado e evita deslocamentos. Mas só faz sentido se o profissional conhecer e acompanhar o paciente. — diz Ana Maria Malik, coordenadora do Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da Fundação Getúlio Vargas.

O candidato, no entanto, teve a ideia mais mal avaliada pelos analistas: o uso de recursos federais do SUS para zerar consultas, exames e cirurgias que não foram feitos durante o isolamento social utilizando convênios com franquias de clínicas populares. Os médicos criticam a transferência de recursos para a iniciativa privada e questionam o tratamento oferecido por essas franquias. Segundo eles, estes serviços têm dificuldade em oferecer atendimento de qualidade e a longo prazo, com acompanhamento contínuo de pacientes crônicos, por exemplo.

Sua proposta de abertura de postos de saúde aos finais de semana e feriados para zerar filas de consultas e exames é similar ao “Corujão da Saúde” realizado pela gestão Doria/Covas (PSDB), que não conseguiu reduzir de forma permanente as filas na cidade. Mas a iniciativa foi razoavelmente bem avaliadas pelos especialistas, que a consideram a mais viável entre todas as propostas e alertam para a urgência de solução do problema das filas.

França sugere ainda a construção de 14 unidades regionais de fisioterapia (nos moldes das AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente) e 14 unidades de saúde menores que tenham como referência o Hospital Pérola Byington, centro de saúde da mulher.

Sobre o conjunto das propostas de todos candidatos, Maria Amélia Veras, médica professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo é taxativa:

— Estão centrados em compra de leitos, serviços e equipamentos. Chama atenção nenhuma medida de saúde pública: ninguém fala em imunização, em prevenção, educação e comunicação em saúde. Nenhuma palavra sobre recompor com recursos humanos capacitados a vigilância e a rede de laboratórios de saúde pública. É lamentável — avalia.

As 12 propostas foram avaliadas pelos especialistas,

sem que soubessem o autor de cada uma, de acordo com os dois critérios: relevância para a cidade e viabilidade de execução da ideia. Foram atribuídas notas de 1 a 5 para cada proposta. Quanto maior a somatória das notas, melhor a colocação no ranking. Em caso de empate, a proposta melhor colocada foi aquela que recebeu pelo menos uma nota maior.

Ana Maria Malik (médica e doutora em Medicina Preventiva pela USP, é coordenadora do Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo)

Maria Amélia Veras (médica docente da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e coordenadora do programa de Saúde Coletiva da instituição, foi cientista visitante Escola de Saúde Pública de Harvard entre 2009 e 2012)

Jamal Suleiman (médico infectologista do Instituto Emílio Ribas, centro de referência no tratamento de Covid-19 na cidade, atua há 40 anos no Sistema Único de Saúde da cidade).