Indecisos e pessoas que podem mudar voto em cima da hora viram alvos estratégicos de Lula e Bolsonaro

Na reta final de uma eleição que deverá ser decidida nos detalhes, o xadrez eleitoral envolve um grupo relevante de eleitores fiéis, uma parcela pequena — e decisiva — de indecisos e até um grupo que mudou de voto entre um turno e outro. Segundo o Datafolha, o grau de convicção no apoio ao ex-presidente Lula (PT) e ao presidente Jair Bolsonaro (PL) ultrapassa 90%, enquanto os que não decidiram são apenas 1%, e os que admitem trocar a escolha representam 6%. O EXTRA conversou com eleitores de diferentes perfis e posicionamentos para entender o que os levou à decisão e os movimentos que ainda podem ocorrer nesta última hora.

Ainda que representem um núcleo pouco expressivo quando comparado a outros, os indecisos foram ao longo do segundo turno alvo da máxima atenção de ambos os lados na disputa. Estrategistas de Lula e Bolsonaro calculam que a eleição será decidida por uma margem estreita de votos. Então, atrair os indecisos ainda em jogo é crucial.

A tarefa, no entanto, está longe de ser simples. Morador do Leblon, o estudante Victor Guerra se identifica como de centro. Eleitor de João Amoêdo (Novo) em 2018 e de Simone Tebet (MDB) este ano — os dois declararam apoio a Lula nesta etapa do pleito —, ele diz que não gosta do petista e, ao mesmo tempo, critica a atuação de Bolsonaro durante a pandemia, a quem considera “grosseiro”.

— Bolsonaro não é o que diz. Alega ser anticorrupção, mas há as denúncias de rachadinha. Por outro lado, no governo Lula, teve o mensalão, e, no da Dilma, o petrolão, que não envolveu apenas políticos do PT. O cenário em 2002 era outro, Lula se favoreceu dos frutos do Plano Real, por exemplo. Hoje tenho dúvidas se ele conseguiria repetir o mesmo desempenho.

No segmento evangélico, alvo de dedicação intensa dos candidatos — Lula apresentou uma carta; Bolsonaro segue percorrendo templos — há também uma parcela que ainda não sabe como se comporta hoje. Frequentadora da Igreja Universal, Joana D’Arc votou no atual chefe do Executivo no pleito de 2018, mas confessa ter se decepcionado quando sua mãe morreu de Covid-19. “Ele debochava”, lembra ela, que também não se entusiasma por Lula, a quem considera um “canastrão”.

Já entre os eleitores do petista, a atuação do governo federal na pandemia é citada como um elemento crucial da escolha. Diretor da Federação das Associações de Favelas do Rio e professor de História, Derê Gomes afirma que a falta de políticas públicas eficazes na contenção do vírus é um dos motivos do desempenho ruim de Bolsonaro entre moradores de renda mais baixa.

— Lula e Bolsonaro são dois opostos na favela: Lula é esperança, foi fundamental para o desenvolvimento econômico. Muita gente foi trabalhar de carteira assinada. Agora, já não é bem assim. Os carrinhos de compra estão vazios, e o desprezo com os moradores de comunidades, por parte do presidente, impera — diz ele, morador da Vila Cascatinha, no Complexo da Penha.

Já o motorista de aplicativo Edson de Castro, morador de Cordovil, na Zona Norte, usa a pandemia para formar a convicção em sentido oposto. Ele, que no passado diz já ter votado no PT, ficou incomodado com uma afirmação do petista e definiu que votará em Bolsonaro.

— Quando minha mulher faleceu de Covid, tive muita raiva do Lula. Ele disse que o vírus veio na hora certa — afirmou, em referência a uma declaração do ex-presidente à Carta Capital, em 2020: na ocasião, ele falou “ainda bem que a natureza criou esse monstro porque está permitindo que os cegos comecem a enxergar que apenas o Estado é capaz de dar solução a crises”.

Mesmo em um cenário de candidatos com antagonismos claros, há um grupo que decidiu mudar de voto. A influenciadora digital Raylane Santanna, moradora de Teresina, faz parte de uma família inteiramente petista. De acordo com ela, em todas as eleições, sempre depositou sua confiança em partidos da esquerda e neste ano não foi diferente. Poucos dias após o primeiro turno, um amigo a questionou sobre o que gostava do plano de governo do petista e esta pergunta desencadeou uma série de mudanças. Ela é evangélica e diz defender a pátria e a família.

— Fui pesquisar os dois candidatos e percebi que, na verdade, prefiro Bolsonaro. O governo de Lula foi marcado por escândalos de corrupção e medidas tapa-buraco. É muito triste ver que o PT usa o Nordeste como massa de manobra — argumenta a estudante, que faz sucesso no TikTok com vídeos em que fala sobre sua mudança de voto.

Assim como a piauiense, uma pedagoga carioca que preferiu não se identificar trocou de presidenciável. Com problemas familiares, ela procurou acolhimento na religião e relata que suas visitas à Assembleia de Deus contribuíram para que ela apoiasse Bolsonaro no primeiro turno. “Uma verdadeira lavagem cerebral”, afirma. Hoje, ela diz que votará em Lula, principalmente após ver o ex-juiz Sergio Moro ao lado de Bolsonaro no debate da Band. “Provou que foi parcial”, diz sobre a Operação Lava-Jato.

Na história das eleições presidenciais, nunca houve um pleito em em que o vitorioso do primeiro turno fosse derrotado. O caso mais emblemático ocorreu em 2006, quando Geraldo Alckmin, então no PSDB, disputava com Lula e perdeu eleitores de uma votação para outra: passou de 39,9 milhões para 37,5 milhões.

Já na esfera estadual, das 108 eleições que não foram resolvidas em uma única convocação, 31 foram marcadas por viradas. Entre elas, o duelo entre Mário Covas e Paulo Maluf para o governo de São Paulo, em 1998. No primeiro turno, Maluf teve 32,2% dos votos contra 22,9% de Covas. Ao final da segunda contagem de votos, ele foi ultrapassado em um cenário de 55,3% a 44,6%. Desde o fim da ditadura militar, o Pará é a unidade federativa com maior histórico de reviravoltas. No total, foram três — em 1994, 2006 e 2014. Neste ano, Helder Barbalho (MDB) foi reeleito com 70% dos votos válidos no estado.