Indianas casadas na infância revoltam-se contra casamentos arranjados

Por Annie BANERJI
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Santadevi Meghwal, uma jovem estudante de 20 anos, chora durante entrevista à AFP sobre casamentos arranjados, em Jodhpur, no dia 24 de agosto de 2015

As ameaças, o assédio e a discriminação não conseguem desmotivar Santadevi Meghwal, uma jovem estudante de 20 anos determinada em obter a anulação de seu casamento - arranjado pelos pais antes que ela completasse um ano.

Santadevi Maghwal, condenada ao esquecimento e multada pelo conselho da aldeia, integrado exclusivamente por homens, faz parte de um grupo de mulheres cada vez maior que se rebelam contra essa tradição ancestral.

Meghwal tinha apenas 11 meses quando sua família arranjou seu casamento com um rapaz de nove anos de idade de uma aldeia vizinha, no desértico estado do Rajastão, onde os matrimônios entre crianças eram moeda corrente no passado.

A jovem estudante lembra que viu o marido pela primeira vez quando uma amiga, cuja família havia participado da cerimônia 15 anos antes, mostrou para ela um homem bêbado que gritava insultos em frente à escola.

"Minha amiga virou-se para mim e disse: 'olha, é seu marido'", lembra Meghwal, que diz ter saído correndo para casa para perguntar aos pais se era verdade.

"Perguntei a eles porque tinham me casado daquele jeito", conta ela, sentada num banco da universidade de Jodhpur, onde estuda artes.

Embora a prática seja ilegal, milhões de crianças são casadas desta forma nas zonas rurais pobres da Índia.

Cerca de 50% das mulheres com idades entre 20 e 24 anos declaram ter sido casadas antes de atingirem a idade legal de 18 anos, segundo números oficiais.

Esse costume é particularmente usual no Rajastão, onde os poderosos conselhos de aldeia, integrados por homens de uma mesma casta, dirigem de forma autoritária a vida social.

Pouco a pouco os jovens começam a se rebelar contra a tradição, exigindo a anulação destes casamentos, com o apoio de uma ONG local e do governo.

Meghwal teria que ter ido viver com o marido aos 17 anos, mas quando seus sogros vieram buscá-la, negou-se a acompanhá-los.

Desta forma, iniciou uma grande luta contra o conselho da aldeia, que infringiu inúmeras represálias à jovem.

O conselho proibiu Meghwal e sua família de participarem da vida pública.

Seu pai, um pedreiro, foi condenado a pagar uma multa de 1,6 milhões de rúpias (cerca de 25.000 dólares) - que não pode pagar.

Em maio, Meghwal pediu ajuda à ONG Sarathi Trust, que trabalha para anular os casamentos arranjados e, há três anos, obteve uma primeira vitória judicial.


- "Um raio de luz" -


"O casamento de uma criança é como um quarto escuro. E no interior encontramos um raio de luz", conta Kriti Bharti, diretora da Sarathi Trust, referindo-se a um artigo desconhecido de uma lei que permite a anulação dos casamentos arranjados.

Nos últimos três anos Bharti obteve a anulação de 27 casamentos no Rajastão, uma opção mais rápida que o divórcio e menos custosa socialmente para as mulheres.

Com o consentimento de ambas partes e uma prova de sua idade, as mulheres evitam ser afastadas da comunidade, como ocorre com o divórcio, explica Barthi.

Meghwal espera obter a anulação do casamento apesar da oposição de seu marido, com quem nunca viveu e que ameaça sequestrá-la.

A cada ano, quando é celebrada a festa religiosa de Akshaya Tritiya, propícia aos casamentos na Índia, as autoridades lançam operações contra os casamentos de menores.

No Rajastão, a polícia e os assistentes sociais interrompem as cerimônias e incitam os sacerdotes e comerciantes a não trabalharem para os casamentos de menores.

Essas campanhas e a ajuda financeira às famílias permitiram reduzir os casamentos infantis.

Joachim Theis, responsável pelo programa de proteção à infância da Unicef da Índia, acredita que acabar com essa prática levará muitos anos.

As famílias perpetuam essa tradição com a esperança de que a filha seja mantida pelos sogros.

Também optam pelo casamento infantil para evitar que suas filhas tenham relações sexuais antes do casamento, um tabu na Índia.

Além disso, consideram que dessa forma as meninas estão menos expostas a agressões sexuais.

Mas para as jovens, essa tradição é uma catástrofe. Muitas vezes elas se veem obrigadas a abandonar a escola, ficando confinadas ao lar. Também ficam grávidas muito cedo, algo nocivo para a saúde tanto das jovens, quanto dos bebês.

"Essas meninas recebem menos educação, têm mais dificuldades para educar os filhos e estão mais expostas à violência", afirma o responsável da Unicef.

Meghwal, que sonha em ser professora, quer demonstrar à comunidade que ela é a única responsável por seu modo de vida.

"Vou me casar um dia, mas depois de terminar meus estudos e conseguir minha independência", diz a jovem, com lágrimas nos olhos.