Indicação para STF vira cabo de guerra entre evangélicos e centrão

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Brazil's Justice Minister Andre Luiz de Almeida Mendonca, wearing a protective mask, gestures next to Brazil's President Jair Bolsonaro after the opening of the forum 'Control in the Fight against Corruption 2020' at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil, December 9, 2020. REUTERS/Ueslei Marcelino
Jair Bolsonaro e seu indicado ao STF, André Mendonça. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

“Dois ministros de Bolsonaro perderam a condição moral de continuarem como ministros”.

A declaração acima não partiu de algum opositor na tribuna da Câmara ou do Senado, e sim de um dos mais fieis apoiadores de Jair Bolsonaro.

Foi escrita, na noite de domingo, pelo pastor Silas Malafaia. Em módulo João Kleber, que anunciava atrações a conta-gotas antes de chamar o intervalo, o pastor promete postar um vídeo “denunciando esses inescrupulosos”. Algo que não tinha feito até a publicação deste texto, apesar das ameaças ao longo das últimas 16 horas.

Diante do rebuliço, o pastor avisou que o caso nada tem a ver com corrupção, “mas sim com a questão política que envolve a indicação para o STF”.

Malafaia se refere ao impasse em torno do nome de André Mendonça, o ex-chefe da Advocacia Geral da União que o presidente quer transformar em ministro “terrivelmente evangélico” da Suprema Corte.

A indicação aconteceu em julho e está travada desde então.

O nome da trava é o senador Davi Alcolumbre, presidente da Comissão de Constituição e Justiça no Senado que não demonstra o menor açodamento em pautar a sabatina no colegiado.

A ideia, claro, é ganhar tempo. E constranger o presidente até que ele desista da indicação.

Mendonça, que no governo se mostrou um cão-de-guarda obediente de Bolsonaro, enfrenta resistência por diversas razões —e não só sua denominação religiosa.

Senadores consideram o ex-AGU “lava jatista demais”.

Pesa contra ele também o fato de ser “terrivelmente bolsonarista”, principalmente após as ameaças à Corte manifestadas pelo presidente nos atos de 7 de Setembro.

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Pelas beiradas, integrantes do centrão já apresentaram ao menos uma alternativa a Bolsonaro. A repórter Anna Virginia Balloussier informou que Alexandre Cordeiro, atual presidente do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), é o nome que agrada gregos e troianos. Ele é evangélico, mas não terrivelmente, escreveu a jornalista.

Bolsonaro ficou, assim, entre a cruz dos aliados mais fieis e a espada do centrão.

A postagem de Malafaia é um dos muitos sinais de fogo amigo que pode se converter em um grande incêndio.

Por enquanto, o presidente tem demonstrado que vai comprar a briga dos pastores. No domingo (10) ele disse que o que Alcolumbre está fazendo “não se faz”. “A indicação é minha. Se ele quer indicar alguém para o Supremo, pode indicar dois. Ele se candidata a presidente ano que vem e no primeiro semestre de 2023 tem duas vagas para o Supremo.”

Só que, para manter a posição, Bolsonaro pode comprar uma briga maior com os ministros Ciro Nogueira, Flávia Arruda e Fábio Faria, três entusiastas do novo nome para o STF.

Não será uma decisão fácil nem sem traumas.

Malafaia e companhia garantem os votos da base evangélica de 2022.

O centrão e seus ministros garantem uma transição segura até lá.

Em tempo. Enquanto tenta se equilibrar, Bolsonaro precisa ficar atento também com outra fonte de insatisfação no Planalto. É que, também pelas redes sociais, o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, praticamente pediu ao boné ao classificar os “cortes de recursos sobre o pequeno orçamento da ciência do Brasil’ como “equivocados’, “ilógicos” e uma “falta de consideração”.

Resta saber se o recado chegou ao chefe, que no domingo, durante sua folga, parecia mais preocupado por não poder assistir ao jogo do Santos sem ter tomado vacina do que os rumos de seu país.

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