Indicado ao Emmy Internacional, ator Raphael Logam revela que quase perdeu papel em ‘Impuros’ por causa da aparência

Naiara Andrade
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“Ser indicado uma vez é quase impossível. Imagine duas!”, ainda se surpreende o carioca Raphael Logam, que pelo segundo ano consecutivo concorre na categoria Melhor Ator ao Emmy Internacional, espécie de Oscar da televisão mundial. O duplo reconhecimento veio pelo protagonismo na série “Impuros”, da Fox, que tem suas duas primeiras temporadas disponíveis no Globoplay.

Ano passado, quem levou a melhor foi um turco. Desta vez, Logam disputa o troféu com um ator do Reino Unido, um da Itália e outro da Índia. A premiação será transmitida on-line, na próxima segunda-feira, dia 23, no site da Academia Internacional das Artes e Ciências Televisivas.

— Mais do que nervosismo, a sensação agora é de pressão. Mas a cobrança, no caso, é só minha. Eu sou o meu pior inimigo declarado. Sou capricorniano chato, que quer fazer tudo certinho, sabe? — confessa o ator de 34 anos, lembrando que em 2019 a cerimônia de premiação aconteceu no dia do aniversário de sua mãe: — Eu fiquei devendo esse presente pra ela...

Em “Impuros”, ele interpreta Evandro do Dendê, jovem de uma favela do Rio que se torna um dos maiores traficantes do Brasil. Curioso é saber que, ao ser chamado para fazer um teste para o papel, a primeira resposta do ator foi “não”.

— Pra mim, seria mais uma produção no estilo “favela movie”. Há algum tempo, eu vinha negando trabalhos estereotipados assim: o negro com arma na mão, fazendo cara feia e falando gírias. Mas a minha empresária insistiu, porque se tratava de um protagonista — conta ele, que não agradou de cara aos diretores René Sampaio e Tomás Portella por causa da aparência: — Evandro é um cara que se cuida, bonitão. E eu, na época, estava gravando um filme gringo, “Pacificado”, em que o personagem sofria de depressão. Então, estava barbudo, cabeludo, muito magro. Por sorte, ele deu uma virada na história, eu me ajeitei e voltei para ser reavaliado. Passei!

Nascido e criado numa vila de casas simples na Gávea, bairro nobre do Rio, e filho do funcionário público Luiz Fernando, de 63 anos, e da empregada doméstica Maria Eva, de 56, o ator diz que aprendeu a ser vaidoso muito por conta do preconceito racial:

— Pretinho e magrinho, se me vissem correndo, de brincadeira, sem camisa, suado e com as canelinhas russas, era “pega ladrão” na certa. Então, minha mãe me forçava a usar camisa de gola polo por dentro da calça e cinto, todo arrumadinho.

Badalado nas ruas pelos fãs de “Impuros”, o ator diz que é chamado pelo nome do personagem com frequência.

— A galera grita “Evandro!”, e eu não olho, porque sou Raphael, né? Às vezes, passo até por metido, mas é que ainda não me acostumei, acho que estão chamando outro cara, só depois cai a ficha — explica ele, que já tomou um susto com uma abordagem policial: — Eu estava no Leblon e um policial freou a moto, mandou eu encostar. Surgiu uma segunda moto, com outro PM, de arma na mão. Eu, tenso, pedindo calma. Aí, o primeiro colocou o descanso na moto, veio pra perto de mim e disse: “Eu não posso deixar de tirar uma foto com o Evandro do Dendê”. Não podia só buzinar? O Leblon inteiro me olhando... Aí eu fiz questão de posar pra foto mesmo, pra todo mundo ver que não era um bandido sendo preso. Felizmente, o final foi cômico, mas poderia ter sido trágico.

Logam, no entanto, não se considera famoso:

— Não sou um Lázaro Ramos. Sou “aquele ator que faz o Evandro”. A galera não sabe o meu nome ainda. E não posso dizer que o preconceito não aconteça mais comigo, porque sou facilmente confundido, visto como qualquer cidadão preto. Eu sou uma pessoa muito correta, só tenho medo de covardia. Não tenho nada contra, mas não uso droga nenhuma. Então, sei que estou limpo, estou certo. Mas também sei que sou preto. Tem certos lugares que eu não frequento em certas horas, porque até provar que focinho de porco não é tomada...

Na véspera do Dia da Consciência Negra, ele lamenta:

— Definiram um só dia para lembrar de uma luta que é diária. Só quem é preto sabe. Quem tem que ter consciência é o branco, de que o preto tem que ser respeitado sempre. Não há o que se celebrar em 20 de novembro, muito menos em 13 de maio, que é a maior mentira do mundo.

Saci e Macunaíma

Evandro do Dendê não é o primeiro protagonista da carreira de Logam, que já soma 21 anos como ator: “Eu fui o Saci Pererê da ‘Turma do Pererê’, em 2009, na TV Brasil. E fiz Macunaíma no teatro”.

Professor gay

Em março, o ator estava no ar em “Amor de mãe”, como o professor de História Felipe. “Ele apanhou de Danilo (Chay Suede), com ciúme de Camila (Jéssica Ellen), e se assumiu gay. Depois disso, ainda se casaria, tendo a amiga como madrinha. Mas aí veio a pandemia, e o núcleo da escola acabou”, lamenta.

Nome espiritual

“Meu sobrenome artístico é derivado de Ogã, o que eu sou na Umbanda. Gosto de tocar atabaque, inclusive porque sou contramestre de capoeira, luta a que me dedico desde os 2 anos de idade. Minha família materna é católica, e a paterna é espírita. Por isso, trago uma Nossa Senhora Aparecida tatuada no braço direito e um ofã (arco e flecha) de Oxóssi desenhado no esquerdo”.

Namoro com atriz

Logam tem uma filha (Sophia, de 13 anos) e namora há 15 meses a atriz gaúcha Karla Bonfá: “Torcem o nariz para o casal preto e branco. Pra mim, nunca foi uma questão. Estamos levando vida de casados nesses meses de pandemia. Ela mora em São Paulo, mas preferiu ficar comigo no Rio. Não conseguimos nos desgrudar! Que seja para sempre”.