Indicado por Bolsonaro, presidente da Anvisa se contrapõe a Mandetta no combate ao coronavírus

RENATO ONOFRE
**ARQUIVO** BRASÍLIA, DF, 16.03.2020: O presidente Jair Bolsonaro. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O diretor-presidente substituto da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antonio Barra Torres, adotou uma postura moderada frente ao avanço do coronavírus e se tornou um contraponto ouvido pelo presidente Jair Bolsonaro às posições tomadas pelo ministro Luiz Henrique Madetta (Saúde).

Torres estava ao lado de Bolsonaro no domingo (15) quando o presidente ignorou orientações do Ministério da Saúde e participou dos protestos pró-governo sem demonstrar preocupação com o risco de transmissão do vírus do Covid-19.

A visão de Bolsonaro é a mesma defendida nos últimos meses por Torres nas reuniões Grupo Executivo Interministerial de Emergência em Saúde Pública, que reúne oito ministérios e a Anvisa. A agência é o único órgão sem status de ministério a participar do grupo.

Torres chegou à Anvisa em julho, por indicação de Bolsonaro, para função de diretor. Em janeiro, foi indicado para assumir a presidência -ele aguarda sabatina do Senado para ser efetivado, por isso, ainda é chamado de "diretor presidente-substituto".

Contra-almirante da Marinha, Torres sempre defendeu que deveria se evitar medidas drásticas em relação ao coronavírus para não criar um clima de pânico no país. A diferença de pontos de vistas entre ele e Mandetta sobre o enfrentamento da crise se acentuou nas últimas semanas.

No dia 4 de março, o ministro da Saúde, em coletiva na sede da pasta, em Brasília, já cobrava da OMS (Organização Mundial de Saúde) a decretação de pandemia no mundo, alertando para necessidade da mudança de status para que países como Brasil pudessem tomar de medidas mais drásticas para conter a crise. A poucos metros dali, no Congresso Nacional, o diretor-presidente substituto da Anvisa defendia o oposto.

Torres participava de uma audiência pública convocada pela comissão externa da Câmara criada para acompanhar a crise. A deputados o dirigente da Anvisa minimizou os efeitos do coronavírus no país naquele momento afirmando que só havia "dois" casos. Na ocasião, disse que era necessária uma "tranquilidade atenta" para não permitir a "disseminação de pânico".

"Se há realmente uma perspectiva que essa situação pode se agravar, e pode, temos que nos ater o que temos hoje", minimizou ao falar que havia apenas dois casos confirmados até o momento da doença.

Desde o início da crise do coronavírus, em janeiro, o diretor-presidente da Anvisa já esteve no Palácio do Planalto oito vezes. Em três, se reuniu sozinho pessoalmente com o presidente. Neste mesmo período, Torres teve apenas uma agenda oficial a sós com Mandetta.

As diferenças de visão entre eles ficaram ainda mais claras na semana passada quanto Torres interveio junto a Bolsonaro sobre a proibição de novos cruzeiros atracarem no País.

O presidente atendeu ao pedido do diretor-presidente da Anvisa e obrigou Mandetta a recuar da decisão do Ministério da Saúde de impedir a saída de novos cruzeiros no país enquanto durar a situação de emergência pelo coronavírus.

A medida, anunciada na sexta-feira (13), tinha o objetivo de evitar a transmissão do Covid-19. A pasta também retrocedeu na recomendação para que todo viajante internacional fique em isolamento em casa por até sete dias a partir da data de desembarque, mesmo sem sintomas do vírus.

O recuo foi publicado numa atualização do boletim epidemiológico sobre o coronavírus publicado no sábado (14). A nova versão do texto exclui o isolamento voluntário a viajantes e a medida que suspenderia pontos de parada de cruzeiros marítimos.

Além da Anvisa, o Ministério do Turismo também foi contra a medida.

Uma ala do governo defendeu que a suspensão de cruzeiros marítimos teria efeito bastante negativo no setor de turismo, prejudicando ainda mais a atividade econômica do país. O grupo também reclamou que não tinha sido consultado sobre a proposta.

Dentro da Anvisa, assessores e servidores afirmaram que a decisão do Ministério da Saúde deixou o diretor-presidente da Anvisa irritado já que ele não foi consultado antes da publicação da medida. A interlocutores Torres teria dito que era necessária a "voz correta, no quadrado correto".

O objetivo do Ministério da Saúde era evitar a concentração de pessoas, especialmente idosos, nesses locais, onde a transmissão respiratória é mais comum. A interrupção de saídas desses navios turísticos valeria enquanto vigorar a declaração de emergência, provocada pela expansão da contaminação do coronavírus.

Torres é considerado um dos nomes técnicos indicados pelo presidente para impor dentro da Anvisa sua visão do órgão. A sua ascensão ao órgão se deu pela proximidade com a cúpula militar. Bolsonaro já o conhecia de círculos militares fluminense.

O diretor-presidente substituto da Anvisa ingressou na Marinha em 1987 e chegou ao posto de contra-almirante, o terceiro mais alto da corporação, em 2015. Aos 16 anos, entrou para a faculdade de Medicina e se especializou em cirurgia vascular no Hospital Naval Marcílio Dias. Entrou para reserva no ano passado.

No ano que entrou na Marinha, Torres esteve na equipe de médicos e enfermeiros que atuou no atendimento as vítimas do acidente com Césio-137 que matou oito pessoas e contaminou outras 250 pessoas em Goiânia (GO).

Em julho do ano passado, foi indicado para função na diretoria da agência. Na ocasião, durante a sabatina no Senado, ele destacou sua atuação nessa crise onde fez quatro cirurgias como fundamental para entender os riscos que o manuseio errados de objetos e elementos podem ser prejudiciais à população.

Torres foi um dos responsáveis para frear a proposta que permitia o cultivo de cannabis no Brasil para fins medicinais. A agência aprovou a venda de produtos a base de canabidiol em farmácias, mas rejeitou por três votos - um de Torres - mas barrou o aval ao plantio para pesquisa e produção de medicamentos.