Indicado por Bolsonaro, presidente da Ceagesp é denunciado por humihar funcionários

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O presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Ceagesp, Ricardo Augusto Nascimento de Mello Araújo
O presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Ceagesp, Ricardo Augusto Nascimento de Mello Araújo
  • O presidente da Ceagesp foi denunciado ao MP sob acusação de coagir e ameaçar funcionários

  • Segundo denúncia, dois ex-funcionários alegam terem sido obrigados a assinar um pedido de demissão

  • Mello Araújo, ex-comandante da Rota, foi nomeado presidente da Ceagesp por Jair Bolsonaro

O presidente da Ceagesp, Ricardo Augusto Nascimento de Mello Araújo, foi denunciado ao MP-SP (Ministério Público de São Paulo) sob acusação de praticar coação, humilhação e violência contra funcionários da central de abastecimento paulista.

Segundo reportagem da revista CartaCapital, Mello Araújo, que é ex-comandante da Rota, forçou o engenheiro Fábio Rogério Carbonieri e o técnico operacional Paulo Cesar Xavier a assinarem um pedido de demissão. Eles foram conduzidos por militares armados à sala do coronel que hoje chefia o órgão. No trajeto, proibidos de usar celulares, eles ouviram ofensas, xingamentos e ameaças.

"Cheguei para trabalhar e meu gerente e mais dois policiais falaram eu estaria furtando energia elétrica e que nove pessoas tinham me denunciando. Fui levado para a sala da Presidência para eu assinar, sob ameaças, a minha demissão. Por medo, eu assinei. Eles disseram que, se eu não assinasse, sairia preso da Ceagesp", disse Carbonieri à publicação. "Eu pedi para ler as provas que eles diziam ter, mas me disseram que como era denuncia não precisava", acrescentou o engenheiro, que trabalhava há 23 anos no local.

"Eu fui obrigado a assinar a demissão. A justificativa que eles deram é que fui reconhecido por um permissionário como responsável por uma ligação [elétrica] indevida", contou Xavier, que estava na Ceagesp há 16 anos.

"No dia 18 de abril, em um domingo, teve uma equipe que trabalhou próximo a esse permissionário e mudou a iluminação do pavilhão para o sistema automático. No dia seguinte, após o permissionário ficar sem energia, eu e um outro eletricista constatamos que havia sido feita uma instalação errônea e minha obrigação foi restabelecer a energia. Daí o gerente me disse que [a energia] não deveria ter sido religada. Ele também me disse que eu deveria resolver a situação 'porque eu tinha família' e 'se eu não resolvesse por bem seria resolvido por mal, pois eu sairia de camburão'", afirmou.

Xavier classificou a situação como "humilhante" ao lembrar que tentou explicar o ocorrido à mulher por telefone: "Eu liguei para a minha esposa para tentar explicar a situação e eles pressionando para que eu desligasse. Ela ouviu tudo. O policial catou o telefone e disse à minha esposa que eu pediria demissão. Depois, dois policiais me acompanharam até à porta do RH [Recursos Humanos]. Chegando lá, as duas responsáveis perguntaram o que havia acontecido e eu disse que estava sendo acusado por algo que não havia cometido. Eu comecei a chorar e elas me ditaram o que eu tinha que escrever. Assinei [a demissão] tremendo feito uma vara verde".

Segundo a CartaCapital, além da denúncia ao MP-SP, o Sindicato dos Empregados em Centrais de Abastecimento de Alimentos de São Paulo (Sindbast), levou o caso ao Secretário de Segurança Pública do estado de São Paulo, general João Camilo Pires de Campos, ao senador Humberto Costa (PT-PE), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Casa, ao senador Paulo Paim (PT-RS), membro da Comissão de Assuntos Sociais, e ao deputado federal Afonso Motta (PDT-RS), que é presidente da Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público.

Além das ameaças, o sindicado alega que Mello Araújo "aparelhou" a Ceagesp com a presença de policiais da ativa e da reserva no ambiente. Os padrões militares foram adotados na central de abastecimento desde que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em outubro de 2020, nomeou o ex-comandante da Rota como presidente da estatal.

"Trouxeram para a empresa a prática de combate ao crime das ruas, mas nenhuma expertise no tocante à administração de abastecimento de alimentos", diz o ofício encaminhado ao secretário de Segurança Pública do estado. "Passaram a tratar os funcionários como se estivessem em um quartel, estabelecendo, por exemplo, em vez da relação de tarefas a serem cumpridas durante um dia de trabalho, a chamada 'ordem do dia', uma prática da caserna", completa.

Procurada, a Ceagesp disse sobre o caso que recebeu "uma denúncia de furto de energia". “De acordo com a denúncia apresentada à Diretoria, a energia elétrica estaria sendo fornecida para pessoas que nem poderiam usar esse serviço, pois são ambulantes. A empresa, em nota à CartaCapital, afirmou que "diante da situação, dois, dos três funcionários envolvidos, pediram demissão e o outro está respondendo procedimento administrativo sobre esse fato".

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