Indígena de equipe de transição de Bolsonaro atuou em "Uga Uga" e "Dois Irmãos"

Reprodução/Facebook

Uma das quatro mulheres da equipe de transição do governo Michel Temer (MDB) para Jair Bolsonaro (PSL) é a indígena Silvia Nobre Waiãpi, de 42 anos, que já atuou na Globo, foi moradora de rua e foi atleta. A descoberta é do jornal carioca Extra.

Silvia fez dois trabalhos no canal de TV mais assistido do Brasil: em 2000, em “Uga Uga”, como a famosa índia “Crocoká”, que tinha dentes assustadores e vivia correndo atrás do personagem de Marcos Pasquim; e, em 2015, como “Domingas”, empregada da casa do protagonista Cauã Reymond, na série “Dois Irmãos”.

A interpretação, no entanto, não resume nem metade da história de vida de Silvia. Aos 3 anos, ela foi adotada e aos 7, começou a frequentar a escola. “Eu queria estudar. Queria conhecer as letras”, contou ela em entrevista a Jô Soares, em 2012.

Foi nessa época que Silvia conheceu o bullying. De alunos e professores. “Eu só tinha uma camisa com um botão nas costas. Ia com ela para as aulas e achava linda, a minha melhor roupa. Notava que era deixada pelos grupos de alunos porque era pobre”, descreve ela na mesma entrevista: “Lembro que toda semana havia o hasteamento da bandeira e passei anos puxando a saia das professoras para que me deixassem fazer aquilo. Nunca deixaram. Nunca entendi por que me chamavam de legítima brasileira se nem isso eu podia fazer”.

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Aos 13 anos, Silvia teve uma filha. Antes disso, quase morreu ao ter o abdômen perfurado por um pedaço de madeira na floresta em que vivia. Aos 14, fugiu da aldeia e foi parar no Rio de Janeiro. Ficou dois meses morando na rua e passou fome até vender uma pedra que trazia de sua tribo. “Só tinha aquilo de valor. Uma pedra que peguei no fundo do rio e tomei como um amuleto. Eu acreditava que ela tinha poderes mágicos e a vendi assim. Com o dinheiro consegui comer por duas semanas”, recorda.

Silvia contou a Jô Soares que se foi capaz de vender uma pedra, poderia vender qualquer coisa. Um camelô arrumou um lugar para ela morar, ela saiu vendendo livros e revistas velhos até conseguir emprego no Círculo do Livro. Foi lá que a incentivaram a estudar artes.

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Silvia mantinha um blog no qual onde escrevia poesias. A indígena se tornou atleta depois de quase sofrer um estupro. Foi medalhista de atletismo pelo Vasco da Gama e conseguiu uma bolsa de estudos para cursar a faculdade de Fisioterapia. Depois da graduação prestou concurso para o Exército e finalmente pôde realizar o sonho de hastear uma bandeira. “Acordo todos os dias pensando que vou mudar meu país”, garantiu ela em outra entrevista.

Mãe de três filhos e avó de uma neta, Silvia dá expediente no Hospital do Exército, em Benfica, na Zona Norte do Rio. Até ser convocada por Bolsonaro, trabalhava todos os dias fazendo pesquisa na área de reabilitação de lesões medulares.