Raoni questiona ataques de Bolsonaro contra ele

Raoni afirma que Bolsonaro está 'errado e isolado' (Foto: Vianney Le Caer/Invision/AP)

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Em entrevista, o líder indígena comentou os planos de Bolsonaro de integrar os povos originários ao modo de viver não-índio

  • ‘Bolsonaro está errado e isolado’, afirmou

Para o líder indígena Raoni Metuktire, Jair Bolsonaro está “errado e isolado”. Foi assim que ele descreveu o presidente da República em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. Raoni, que foi alvo de críticas do capitão em discurso na ONU, foi indicado ao Nobel da Paz, mas não venceu o prêmio.

Ele sustenta sua posição contra os planos do governo de integrar os povos indígenas brasileiro ao modo de viver dos brancos:

"Sou contra. Nós, povos indígenas originários, queremos sobreviver da natureza. Não aceitamos essa integração com o homem branco. Na época dos (irmãos) Villas-Boas, em que viajei com eles para várias regiões, vi muitos parentes já integrados, já misturados, casados com brancos, com filhos. Vi tudo nisso nessa viagem, de perto. Mas não quero isso. Precisamos ter nosso cocar, nosso colar. Para ter isso, precisamos da floresta. Outros parentes de várias regiões já se entregaram ao homem branco, já querem comer como branco, sobreviver como branco.”

Estima-se que, hoje, Raoni tenha cerca de 90 anos. Ele conheceu os irmãos Villas-Boas em 1954, quando aprendeu a falar português e viajou pelo Brasil explicando a cultura indígena ao restante do país. Acabou se tornando um negociador da pauta indígena no país e no mundo – em 1989, fez uma turnê internacional com o cantor estadunidense Sting para falar sobre a devastação da Amazônia. Raoni diz que em nenhum governo sua figura foi tão atacada como é por Bolsonaro:

"Sempre tive contato com os presidentes do Brasil e eles nunca falaram mal de mim, nunca criticaram a minha luta. De repente veio esse Bolsonaro falando mal do meu trabalho, falando mal da minha pessoa. Não sei por que ele faz esses ataques contra mim. Nunca agredi, nunca falei mal, nunca ataquei a família dele, nunca falei mal dos filhos ou de onde ele nasceu. De repente, Bolsonaro vem falando assim de mim.”

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O líder indígena continuou:

"Mas talvez eu entenda. Desde a campanha para presidente, ele vem nos dividindo - seja branco, índio, negro. Com plano de destruir os direitos de cada povo. Não aceitei isso e tive essa resposta dele contra mim. Sempre defendi, desde que comecei a lutar pelos direitos indígenas, que isso não deveria ser só para os índios, mas para que todo mundo fosse respeitado. Bolsonaro está errado. Ele falou mal de todo mundo e hoje está sozinho. Todo mundo está contra ele."

Depois, lembrou que também não tinha uma boa relação com a ex-presidente Dilma Rousseff (PT), que determinou a construção da Usina de Belo Monte apesar dos alertas dos povos indígenas que vivem no Parque do Xingu.

Sobre Ysani Kalapalo, que Bolsonaro levou até a ONU para argumentar que os povos indígenas querem ser integrados à sociedade ocidental, Raoni afirmou que nunca ouviu falar:

"Nunca soube de onde ela saiu, onde nasceu, nunca conheci os pais dela. Quando ela fez essa viagem com Bolsonaro, eu não estava sabendo. Nem o pessoal do Alto Xingu me informou. Quero que ela e o pessoal do Alto Xingu tenham aproximação com a gente, para que os parentes possam lutar juntos. Ela pensa errado. Talvez tenha nascido na cidade, crescido na cidade e tem outra mentalidade."

Raoni deu a entrevista por Skype da cidade de Peixoto de Azevedo (MT), a mais próxima da terra indígena Capoto-Jarina, onde ele mora. De lá viajou para Marabá (PA), onde participará de um ato em defesa do ambiente e dos povos da Amazônia na próxima quinta-feira (17). O líder indígena afirma que os ataques aos povos originários nunca foram tão fortes:

"Vocês sobrevivem de mercadorias. Criam gado, galinha, porco para poder comer. Dependemos da natureza. Temos animais na floresta que nós mesmos caçamos para nos alimentar e sobreviver. Minha mensagem é que vou continuar lutando para poder manter a floresta, defender o meu povo e que outra geração possa vir."