Indonésia solta líder religioso islamita ligado a atentados de Bali

·3 minuto de leitura

O clérigo radical islamita Abu Bakar Bashir, ligado aos atentados de Bali de 2002, foi libertado nesta sexta-feira (8) de uma prisão indonésia, graças a uma redução de sua pena, provocando a ira das vítimas.

Abu Bakar Bashir, de 82 anos, é considerado o líder espiritual da organização islâmica Jemaah Islamiya, responsável pelos ataques de Bali em outubro de 2002, que mataram mais de 200 pessoas, incluindo dezenas de australianos.

Ele sempre negou seu envolvimento, e sua condenação por esses ataques, os piores já ocorridos na Indonésia, foi anulada em apelação por falta de provas.

O líder religioso foi condenado a 15 anos de prisão em outro caso, por ter ajudado a financiar campos de treinamento islamitas na conservadora província de Aceh.

Mas ele conseguiu uma redução de sentença. Seus advogados também alegaram o risco de contrair o coronavírus na prisão, devido à sua idade avançada.

Há dois anos, uma primeira tentativa de libertá-lo foi adiada, devido à agitação gerada na Indonésia e na Austrália, países de origem de dezenas das vítimas dos ataques de 2002.

Esta manhã, "ele foi entregue à sua família que, acompanhada por uma equipe de advogados, veio buscá-lo na prisão" perto de Jacarta onde estava detido, declarou uma porta-voz das autoridades penitenciárias, Rika Aprianti, em um comunicado.

Ele deixou a prisão de Gunung Sindur em uma van branca por volta das 5h30 (19h30 de quinta-feira no horário de Brasília), escoltado por membros das forças antiterroristas indonésias, constataram vários jornalistas da AFP.

O líder religioso, que se recusou a renunciar à sua ideologia extremista, deve chegar à sua casa em Solo, no centro da ilha de Java, nesta sexta-feira.

- Lembranças dolorosas -

Para Jan Laczynski, de 51 anos, esta soltura traz de volta lembranças dolorosas.

O australiano recorda de ter bebido com amigos no Sari Club antes de seu voo para a Austrália. Poucas horas depois, cinco de seus amigos foram mortos nas explosões.

"Dói. Gostaria de ver a justiça sendo feita", disse ele à AFP, de Melbourne.

"Ele não mudou, ele piorou, pelo que parece. Ele continuará a pregar o mal, e esse mal deve acabar", acrescentou.

Thiolina Ferawati Marpaung, moradora de Bali, sofre até hoje com sequelas dos ferimentos nos olhos causados por cacos de vidro durante as explosões.

"Sua liberação me deixa desconfortável", diz ela.

A notícia é "profundamente traumática para famílias e amigos dos 88 australianos mortos em 2002 e os quatro mortos em 2005 em Bali e os muitos feridos", disse a chanceler australiana, Marise Payne, esta semana.

Vários membros da organização envolvidos nos ataques foram executados por ordem dos tribunais, ou morreram em confrontos com as forças de segurança.

Os atentados a bomba em 2002 e os de Bali em 2005 levaram Jacarta a fortalecer sua cooperação contra o terrorismo com a Austrália e os Estados Unidos.

Jemaah Islamiyah, um grupo ligado à Al-Qaeda, foi fundado na década de 1980 por ativistas islâmicos indonésios exilados na Malásia e estabeleceram células em vários países do Sudeste Asiático.

Ele também é creditado pelos atentados com carro-bomba em 2003 contra o hotel JW Marriott, em Jacarta, e um atentado suicida com carro-bomba em frente à embaixada australiana.

Em dezembro, Jacarta anunciou a prisão do comandante militar do Jemaah Islamiya na época dos ataques, Zulkarnaen, de 57 anos, foragido há 18 anos.

bur-pb/lgo/cn/erl/rsr/mr/tt