Indulto a Silveira vira cortina de fumaça sobre suspeitas no MEC

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Brazilian President Jair Bolsonaro (R) and his Defense Minister Braga Netto attend the launch ceremony of the new job and income generation program at Palácio do Planalto, in Brasília, on March 25, 2022. - A Brazilian Supreme Federal Court (STF) judge on Thursday authorised an investigation against Education Minister Milton Ribeiro for alleged influence peddling to favour political allies of evangelical pastors. Bolsonaro defended the minister by assuring that he
Jair Bolsonaro e seu o provável candidato a vice em sua chapa, Braga Netto. Foto: Evaristo Sá/AFP (via Getty Images)

Meu amigo Fabiano Angélico, doutorando em administração pública com especialização em transparência e combate à corrupção, observou, em sua página no Facebook, que o presidente Jair Bolsonaro conseguiu um feito ao conceder o indulto individual (graça) ao deputado Daniel Silveira (PTB-RJ). Um, não; três.

Na lista:

- tirou das manchetes o escândalo de corrupção do MEC

- insuflou moral e ânimo nos apoiadores, algo importante em ano eleitoral

- deu mais um passo em direção a seu objetivo: dar um golpe de Estado ou, melhor ainda, diminuir de tamanho e importância o único freio e contrapeso que ainda lhe resta (STF).

De fato, a capacidade do governo de sair das cordas no momento em que mais parece emparedado é notável.

Não faz muitos dias, não faltavam notícias a respeito das andanças de dois pastores suspeitos de instalarem um balcão de negócios à entrada do Ministério da Educação. Foi o próprio Milton Ribeiro, então titular da pasta, quem havia dito, em áudio, que as prefeituras indicadas por Gilmar Santos e Arilton Moura tinham prioridade em receber recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

Três prefeitos chegaram a ser ouvidos pela Comissão de Educação do Senado e contaram que a facilidade era vendida sob pedágio, ou em barras de ouro, Bíblias ou dinheiro vivo. Uma CPI estava em processo de abertura para averiguar as suspeitas

O áudio derrubou o ministro, que agora anda por aí desarmando a tese de que porte de arma manteria seguros os cidadãos de bem. Que o digam os passageiros que escaparam de uma tragédia à la irmãos Coen após o ministro disparar sem querer seu revólver no aeroporto.

Além dos pastores, muita gente queria saber por que uma empresa ligada a um aliado do presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL) havia vendido, com valores muito acima dos praticados no mercado, kits robótica para escolas que não tinham internet ou água encanada.

As perguntas também pairavam sobre a Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba), responsável por obras de qualidade duvidosa sob responsabilidade de uma pequena empresa do Maranhão que despontou como fenômeno ao vencer uma série de licitações por pregão eletrônico sem concorrência.

O avanço em direção a respostas, graças ao trabalho e o esforço de jornalistas que foram a campo mostrar para onde ia o dinheiro, parece ter ficado suspenso com a avalanche de perguntas sobre o que acontece na fase seguinte do momento em que um presidente da República resolve salvar um aliado da prisão determinada pela Suprema Corte de seu país.

A decisão presidencial será validada?

Se for, isso garante uma trégua entre Poderes?

O perdão a um deputado condenado permite que ele concorra a um novo mandato daqui a seis meses?

E, principalmente, outros delinquentes poderão esperar na fila o perdão por suas ameaças, intimidações, coações, participação em atos golpistas, atentados à ordem democrática?

Enquanto ensaiam respostas, ouve-se bate-bocas entre ministros do Supremo e generais ligados ao bolsonarismo, o que estica ainda mais a corda do tensionamento entre Poderes.

O incêndio já lança fumaça sobre outro potencial escândalo envolvendo o sobrenome do presidente. Até aqui, revelam-se indecentes as trocas de mensagens envolvendo o digital influencer Jair Renan, filho 04 do presidente, e seus parceiros comerciais.

Um áudio em mãos da Polícia Federal mostra que uma arquiteta responsável pela reforma de um escritório do rapaz estava sincera e interessadamente envolvida em conseguir a interseção de favores junto ao Planalto.

O indulto do presidente dispersou as atenções e unificou sua base, inclusive a militar, na guerra contra o inimigo comum, o STF –como bem lembrou Angélico, o único freio e contrapeso que ainda resta ao governo.

Bolsonaro chega assim com chances reais de se reeleger em outubro graças às fumaças e às vistas grossas que acreditam, ou fingem que acreditam, em seu cajado anticorrupção e antissistema. Os exemplos que o desmentem são fartos, mas seus aliados e apoiadores, que não são poucos, parecem ocupados demais em transformar um deputado marombado, agressivo, perigoso e politicamente irrelevante em mártir. A luta dessa turma nunca foi contra a corrupção.

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