Inep incluiu professores bolsonaristas na elaboração do Enem, sem seleção oficial

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BRAZIL - 2021/05/18: In this photo illustration the homepage of the Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) website is displayed on the computer screen. (Photo Illustration by Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)
Foto: Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket via Getty Images.
  • Lista de 22 nomes foi escolhida pelo presidente do instituto, Danilo Dupas

  • Elaboradores da prova precisam passar por edital de processo seletivo

  • Entre agregados há uma professora de biologia criacionista

A cúpula do Ministério da Educação (MEC) tentou incluir profissionais na elaboração do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano, sem que eles passassem pelo processo seletivo. No total, são 22 pessoas, incluindo apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), de acordo com o jornal do Estado de S. Paulo.

Entre os nomes, há uma professora de Biologia que apoia a teoria criacionista e quatro docentes ligados à Universidade Mackenzie, onde estudou o ministro Milton Ribeiro.

As pessoas teriam sido selecionadas por Danilo Dupas, presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), com a anuência do MEC. O grupo receberia permissão para entrar na sala segura do Enem, um local com detectores de metal e senhas nas portas, e selecionar as questões da prova a partir do banco de itens, além de acompanhar a impressão da prova na gráfica.

O problema foi descoberto por servidores do Inep em abril e culminou em um pedido de demissão do coordenador da área. A lista com os 22 nomes circulou entre funcionários e muitos manifestaram seu descontentamento, o que levou Dupas a retirar os nomes da relação.

A elaboração do Enem sempre conta com colaboradores externos, além dos servidores do Inep. Esses colaboradores são professores selecionados via um edital que avalia o currículo e a formação acadêmica do candidato. Este grupo não passou por essa seleção.

A lista tinha 15 nomes de pessoas que passaram e foram aprovadas na seleção. Este grupo, juntamente com os 22 agregados que não passaram pelo processo de seleção, iriam receber a vacina contra a covid-19 de forma prioritária, por conta do trabalho presencial, que é realizado em salas fechadas, pela segurança da prova.

A questão da vacinação chamou a atenção de muitos servidores e acabou com os 37 pedidos de demissão na semana passada. Estes funcionários acusam o presidente Dupas de assédio moral e desconsideração de critérios técnicos.

Conheça alguns dos 22 agregados

Entre os professores selecionados de forma irregular para cooperar na elaboração da prova estão dois membros do grupo Docentes pela Liberdade (DPL), que se intitula “um grupo apartidário” com o objetivo de “romper com a hegemonia da esquerda e combater a perseguição ideológica”. No site, há uma foto de Bolsonaro segurando uma camiseta do DPL. O grupo também usa as redes sociais para atacar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Os nomes do DPL que estão na lista são Aline Loretto Garcia, esposa do diretor do grupo, Marcelo Hermes Lima. Ela negou ter participado da elaboração do Enem. O outro nome é do secretário executivo do DPL, Pedro Lucena, que também afirmou que não participou.

Outra agregada à elaboração do exame é a professora do Mackenzie Vera Lucia Azevedo, que aparece como especialista em Matemática, que também disse ao jornal O Estado de S. Paulo que recusou o convite para uma reunião com o Inep.

Já o professor Antonio Egno do Carmo Gomes, da Universidade Federal do Tocantins, que está na lista na área de Literatura, é do Núcleo de Estudos Bíblia e Literatura, financiado pelo Fundo Mackpesquisa, grupo do qual Dupas já participou.

Uma das especialistas em Biologia da lista é Mayara Cordeiro, professora de uma escola religiosa em Blumenau, que nas redes sociais defendeu seu posicionamento enquanto criacionista - ou seja, que não acredita nas teorias e evidências científicas sobre evolução da vida no planeta, mas sim em uma versão religiosa.

“Com todo respeito, não importa o que você amigo evolucionista venha me dizer e nem qual argumento você venha me trazer, eu não vou mudar meu posicionamento, e isso não faz de mim menos bióloga que você. Sou criacionista e isto não está em discussão”, escreveu nas redes sociais. Ela também nega participar da construção da prova em conversa com o jornal O Estado de S. Paulo.

Também da área de Biologia, a professora substituta na Universidade Federal Rural do Semi-Árido Joselena Mendonça Ferreira já questionou dados sobre mortes por covid.

Já para a área de Artes está Thérèse Hofmann Gatti Rodrigues da Costa, da Universidade de Brasília, que pesquisa sobre a “melhoria na qualidade da educação básica” no programa das escolas cívico-militares, criado por Bolsonaro em 2019.

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