Inexperiência de eleitos preocupa veteranos da oposição em Hong Kong

IGOR GIELOW

HONG KONG, CHINA (FOLHAPRESS) - O primeiro pensamento de Paul Zimmerman quando os resultados da histórica eleição local de Hong Kong começaram a comprovar uma vitória acachapante da oposição a Pequim foi: "Eles elegeram crianças".

Não há uma estatística precisa disponível, mas jovens entre 20 e 30 anos são a maioria entre os 452 conselheiros locais, equivalente a vereadores, eleitos. Destes, 388 são oposicionistas como Zimmerman.

Aos 61 anos, esse holandês que renunciou à nacionalidade e vive há 35 anos em Hong Kong, é um dos mais experientes conselheiros, cargo que ocupa desde 2010. "No mesmo dia liguei para três outros velhotes como eu e combinamos de montar um grupo de assessoria para os novatos", disse.

Baseado no escritório de sua premiada ONG de urbanismo, Zimmerman pretende montar cursos com a ajuda de pequenos empresários e outros ativistas. Nada muito diferente, talvez apenas na escala dos doadores, dos grupos de renovação e formação política que proliferaram no Brasil a partir de 2017.

Sua preocupação é fundamentada. Em 2003, a oposição também teve grande vitória em eleições locais na esteira de marchas com 500 mil pessoas nas ruas contra lei de segurança que talhava a autonomia de Hong Kong, prevista por pelo menos até 2047 no acordo que devolveu a então colônia britânica à China.

O fracasso da inexperiência daqueles eleitos levou à derrota no pleito seguinte, em 2007, para os pró-establishment.

É uma situação semelhante à atual, que viu seis meses dos mais intensos protestos da história do território sob a gestão chinesa após a tentativa do governo local, pró-Pequim, de implantar uma lei que facilitava extraditar acusados para o sistema judicial comunista no continente.

A inexperiência foi ativo de Chan Tsz-wai, 27. No espaço das cédulas em que candidatos tinham propostas resumidas, a dele veio escrita à mão (claro, reproduzida). "Temos de aprender do zero", disse à mídia local no dia da vitória.

"É um risco. Mas estamos em outro patamar, temos tudo para fazer um bom governo local, pressionar dentro do Conselho e nas ruas", diz Eddie Chu, 42. Ele é um importante deputado oposicionista que também buscou um assento de vereador, o que é permitido, mas foi derrotado. Ele e o líder ativista Joshua Wong, 23, barrado na disputa, disseram à Folha que uma das prioridades é justamente ajudar os jovens a governar.

No seu distrito, Pok Fu Lam, Zimmerman contou com 2.547 votos, derrotando dois outros candidatos com um discurso de zeladoria urbana.

Esse deve ser o ponto inicial a atacar, até por ser mais fácil. "Em toda a minha região, montanhosa, há necessidade de trilhas bem marcadas. É algo simples e efetivo", afirma.

Chu tem pretensões maiores. Ele acredita ser possível criar taxas distritais para implementar o que chama de "economia amarela" -em referência à cor dos pró-democracia, em oposição ao azul dos pró-Pequim. Essa economia se basearia em fortalecer comércio e serviço locais, buscando independência das redes ligadas a Pequim. É algo sensível entre moradores.

Nesta semana a rede de conveniência Best Mart 360 anunciou que investirá mais em lojas no continente. Acusada de ligação com Pequim, ela teve 75 de suas 102 unidades destruídas por vândalos neste ano.

"Pequim, a despeito de influenciar a mídia e a educação, largou a geração mais nova que agora foi votar. Deitamos as fundações para uma década de luta, podemos incentivar uma economia local mais forte", afirma Chu.

Os planos da oposição, contudo, são maiores. A ideia é seguir pressionando, na rua e de forma institucional, visando a mudança na legislação eleitoral restritiva.

Como dizem Wong e Chu, apenas conseguindo a maioria no Conselho Legislativo é que se pode vetar atos do Executivo, passo radical nunca antes dado. O problema é que a escolha do Conselho, em eleição no ano que vem, tem regras que favorecem indicações de Pequim. Dos seus 70 membros, 35 vêm de pleitos internos de categorias profissionais, fortemente influenciáveis. O resto, do voto direto.