De infância pobre, ator Jonathan Azevedo se torna embaixador do Intersolidário e arrecada alimentos

Pedro Zuazo
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O ator Jonathan Azevedo é embaixador do Intersolidário
O ator Jonathan Azevedo é embaixador do Intersolidário

RIO — Jonathan Azevedo lembra como se fosse ontem o dia em que entrou carregando uma cesta básica na cozinha de sua casa, na Cruzada de São Sebastião, no Leblon. Ao ver os alimentos, a mãe respirou aliviada por ter o que pôr nas prateleiras já vazias da despensa. Hoje, aos 34 anos, após vencer as dificuldades de uma infância pobre e conquistar os holofotes da TV, o ator não perde a oportunidade de estender as mãos a quem precisa. Ele é o embaixador do Intersolidário, uma iniciativa do 38º Intercolegial, realizado pelo GLOBO e pelo EXTRA, com apoio da Rádio Globo, e apresentado pelo Sesc RJ.

Com a impossibilidade de realização de treinos e competições, por causa da pandemia, as escolas que participaram da festa das quadras no ano passado agora abraçam o movimento de solidariedade. Os torneios esportivos deram lugar a uma corrida pela arrecadação de doações, que serão direcionadas ao banco do programa de segurança alimentar Mesa Brasil Sesc RJ.

Na última quarta-feira, o ator ajudou a receber doações na blitz — ponto de coleta itinerante — montada na Praça Serzedelo Corrêa, em Copacabana.

— Eu já senti na pele o que é precisar de uma cesta básica. Na minha infância, sempre encontrei pessoas dispostas a me ajudar. Por isso, hoje fico feliz de poder usar minha visibilidade para arrecadar alimentos — conta o rapaz, que se destacou na TV ao interpretar o traficante Sabiá, na novela da TV Globo “A força do querer”, de Gloria Perez.

O engenheiro Alex Fioriani, de 27 anos, que passava pelo local, ficou sensibilizado e contribuiu com a doação de dois quilos de arroz.

— Iniciativas desse tipo sempre foram importantes, mas durante a pandemia acho que se tornaram essenciais para muitas famílias — afirmou ele, após entregar os alimentos.

Da mesma opinião partilha o ator, que desenvolve um projeto social no Vidigal, onde mora atualmente. Na avaliação dele, o Intersolidário tem o potencial de transformar muitas vidas; não apenas das famílias que receberão os alimentos, mas também dos estudantes que participam da busca por doações.

— Ao envolver os estudantes numa ação social, o Intersolidário ensina lições que valem mais do que uma medalha ou troféu. Os alunos vão botar em prática no campo social aqueles valores que sempre foram estimulados nas quadras: a importância de trabalhar em equipe e de saber reconhecer o mérito não só de quem faz o gol, mas de todos que contribuem para a vitória — afirma Azevedo.

Coordenador de Educação Física do Liceu Franco-Brasileiro, um dos colégios que participam da iniciativa, Thiago Acampora também ressalta o aprendizado que o Intersolidário proporciona para os alunos.

— Não temos um time disputando contra o outro, pois estamos todos jogando juntos por uma vitória coletiva. No esporte, sempre dizemos que temos rivais, mas não inimigos. Agora, é a oportunidade de mostrar, fora das quadras, como funciona essa cultura de ajuda mútua — diz ele.

Além de Jonathan Azevedo, cada escola participante pode indicar três alunos embaixadores, que terão a missão de movimentar suas comunidades com ações para a coleta. Para inscrever o embaixador, basta o responsável da escola preencher o formulário disponível no site do projeto: intersolidario.oglobo.com.br.

Os leitores podem fazer doações nos pontos de coleta itinerantes. Já foram montados no Largo do Machado, na Tijuca, no Jardim Botânico e em Copacabana. As datas e os locais das próximas ações estão nas redes sociais do Intercolegial: no Instagram (@intercolegial) e no Facebook (@intercolegial.rj).

A cuidadora Rosemere Felipe Pereira, de 48 anos, que mora com a filha e quatro netos na Vila do João, no Complexo da Maré, entrou em desespero ao ficar desempregada, durante a pandemia. A filha dela, que trabalhava como vendedora numa loja de roupas, também foi demitida, e com isso elas ficaram sem qualquer fonte de renda para sustentar as despesas das quatro crianças de 1, 7, 9 e 12 anos. A ajuda veio na forma de doações arrecadadas pelo Mesa Brasil Sesc RJ.

— Passamos momentos muito difíceis e ainda estamos passando, na verdade. Mas essa ajuda foi a coisa mais importante que já aconteceu na minha vida — diz Rosemere.

A situação financeira de Joseli Barbosa Monteiro Fabiano, de 33 anos, também apertou durante a quarentena. Moradora da Vila Pinheiro, outra comunidade da Maré, ela precisou fechar o quiosque de tapiocas que garantia parte do sustento da casa. Mesmo com o marido trabalhando, ficou cada vez mais difícil para a família manter em dia o pagamento das contas e a alimentação dos dois filhos, de 4 e 10 anos, que antes faziam a maior parte das refeições na creche e na escola.

— Primeiro, nós recebemos uma cesta de verduras, o que foi uma surpresa, porque não estávamos contando com essa ajuda. Depois, vieram duas cestas básicas. O projeto tem nos ajudado bastante. Se não fossem essas doações, a gente ia ter que deixar de pagar o aluguel ou cortar algumas refeições — desabafa Joseli.

De 1º de janeiro a 22 de outubro deste ano, o Mesa Brasil Sesc RJ arrecadou 1.841 toneladas de alimentos junto a 339 parceiros doadores. Nesse período, os donativos já foram distribuídos a mais de 383 mil pessoas que estão em situação de vulnerabilidade social em 49 municípios do estado.

Desde o começo da pandemia, já são mais de 1.329 toneladas de alimentos arrecadados e que estão sendo destinados aos que foram mais impactados pelos efeitos econômicos do isolamento social. Noventa militares da Marinha, do Exército e da Aeronáutica apoiam a logística de recebimento e distribuição das doações.

Coordenadora do Mesa Brasil Sesc RJ, Cida Pessoa diz que a ação solidária tornou-se ainda mais importante durante a pandemia.

— O programa existe há 20 anos, mas nunca foi tão necessário. É enorme a quantidade de relatos que recebemos de famílias que ficaram desempregadas e não têm condições financeiras de alimentar as crianças, que não estão indo para a escola pública onde, para muitas delas, era o único local onde havia refeição. Então, as doações chegam como um socorro para essas famílias — diz.

Apesar do aumento de demanda por doações, o fervor solidário perdeu fôlego desde o início da quarentena. No início, houve uma onda de solidariedade que não se manteve. Cida alerta que, para muitas pessoas, o “novo normal” é um cenário que precisa ser revertido o quanto antes.

— A gente fala muito do “novo normal”, mas para muita gente a situação ainda é de penúria. No início, houve uma grande mobilização, uma onda de solidariedade, mas aos poucos fomos nos acostumando. O risco é cairmos no descaso, na indiferença pelo sofrimento que as pessoas estão passando — afirma a coordenadora do programa.