Infância perdida: o trauma de crianças e adolescentes vítimas de abuso e exploração sexual

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Vera Guimarães em frente a um dos centros que atendem menores vítimas de abuso/exploração sexual (Arquivo pessoal)
Vera Guimarães em frente a um dos centros que atendem menores vítimas de abuso/exploração sexual (Arquivo pessoal)

Por Everton Menezes

Vera tinha 10 anos quando foi trabalhar de diarista na casa de uma família, no bairro Uruguai, na periferia de Salvador, na Bahia. Uma menina negra, pobre e vulnerável. Enquanto limpava o banheiro da casa foi surpreendida pelo vizinho, de 29 anos. “Não deu tempo de gritar e pedir socorro. Ele me pegou por trás, tapou a minha boca e me estuprou”, lembra ela, hoje, com 51 anos.

Naquela época, a menina chegou a comentar a agressão com os pais, que preferiram silenciar por medo de alguma represália contra a filha. Mãe analfabeta, pai alcoólatra e mais cinco irmãos pequenos para cuidar. Vera costuma dizer que não teve infância e que, depois daquele abuso, passou a se comportar como uma mulher agressiva. Não tolerava desaforos. “Quando se é pobre, miserável neste país, muitos adultos aproveitam da vulnerabilidade das crianças para tratá-las como objeto. Depois do abuso que sofri, eu não deixava ninguém me tocar. Minhas amigas saíam para namorar e eu não queria saber de homem. Eu tinha duas escolhas: morrer ou seguir adiante”, conta ela.

Ainda adolescente, Vera decidiu participar de projetos sociais na periferia de Salvador. Virou militante na luta pelos direitos infantis e conheceu histórias tão cruéis quanto a sua. “É menina que engravida do pai, bebê abusado por adulto, crianças exploradas sexualmente pela família. O mundo é terrível para um menor que sofre esse tipo de violência”, afirma.

De acordo com o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, em 2018, foram registradas 76.216 denúncias no país. Dessas, 3.675 foram por exploração sexual e 13.418 por abuso sexual. Para a gerente de projetos da ONG Plan Internacional Brasil, Sara Oliveira, é fundamental entender a diferença entre exploração e abuso. O primeiro tem como base o lucro da atividade - não necessariamente o dinheiro. Muitas vezes, crianças e adolescentes são iludidos com falsas promessas de um futuro promissor, seja na moda ou no futebol. Já o abuso não envolve troca ou ganho financeiro, mas a satisfação sexual do adulto. “Precisamos questionar a situação de vulnerabilidade. Qualquer tipo de envolvimento sexual envolvendo menor de idade é considerado estupro de vulnerável já que a vítima não tem o discernimento da situação. Não é uma escolha e nunca será”, diz Oliveira.

Outro erro muito comum, segundo a gerente da Plan, é chamar as menores de prostitutas. “Isto é uma violência absurda. Ela está sendo prostituída por alguém da família ou por um aliciador que comanda o esquema”, ressalta. Elaine Bortolanza, integrante da Rede Brasileira de Prostitutas, explica que o termo prostituição infantil é errado. “O que existe é exploração sexual. Uma menina de 14 anos jamais pode ser chamada de prostituta”, informa. A partir de 18 anos, qualquer mulher ou homem pode querer se prostituir porque é uma atividade de escolha consciente.

Historicamente, a região Nordeste tem assumido as principais posições no ranking de estados com maior número de denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes. Nos últimos três anos, foram registrados pelo Dique Direitos Humanos – Disque 100 (Serviço de denúncias do Governo Federal para proteção de crianças e adolescentes) 41.715 denúncias em todo o país. Desses registros 48% correspondem a casos envolvendo meninas, 37,6% envolvendo meninos e 14,4% não informaram.

Os relatos das crianças de Vera

O abuso sofrido na infância foi, por várias vezes, pesadelo para Vera Guimarães. Mesmo adulta, ela ainda carrega os traumas. Aos 18 anos, quando teve sua primeira filha, prometeu, a si mesma, proteger a criança. Não só a ela, mas todas que cruzassem o seu caminho. Vera celebra a família que formou: são seis filhos (entre biológicos e adotivos), três netos e um bisneto. “Eu transformei minha dor em amor. Criei meus filhos e protegi dezenas de crianças ao longo desses anos”, diz ela.

Hoje, Vera coordena quatro instituições de apoio a vulneráveis na Bahia. Entre elas, está o projeto Pérolas de Cristo, em Salvador, onde atende cerca de 80 crianças e adolescentes vítimas de abuso e exploração sexual. A equipe - formada por psicólogos, pedagogos e assistentes sociais – oferece um tratamento especializado. “Criança tem que brincar de boneca e jogar bola. Infelizmente, meus meninos e minhas meninas estão vivendo problemas de adulto em plena infância. Dor, medo, revolta e angústia. São histórias terríveis.”, lamenta.

Histórias que Vera não consegue esquecer. Dentre elas, a de uma menina de 13 anos que foi abusada sexualmente pelo pai. A criança chegou ao centro de apoio graças a uma denúncia dos professores da escola, que perceberam que a estudante estava estranha na sala de aula. Durante conversa com psicólogos, a menor contou, chorando, que, todos os dias, era obrigada a assistir filmes pornográficos com o pai. Segundo ela, o responsável alegava que era importante assistir o vídeo para aprender a fazer sexo e chegar ao casamento pronta para o marido. Além de assistir, a adolescente era obrigada a fazer com o pai o que via nos filmes. Em troca, o homem lhe dava dinheiro para comprar lanche na escola. O agressor está preso.

Uma outra história, igualmente assustadora, também chocou os profissionais do Pérolas de Cristo. Era de uma menina gaúcha, de apenas 14 anos, que chegou a Salvador pegando caronas com caminhoneiros na estrada. Durante todo o trajeto, a menor foi abusada por um, dois, três... vários motoristas. Nenhum dos criminosos foi identificado. A menina pobre chegou à instituição magra, com fome e com marcas de violência pelo corpo. Na primeira sessão de terapia, ela contou que já participava de festas nas fazendas do Rio Grande do Sul. E que a família fingia não ver. Pelo contrário, estimulava a ida da adolescente aos bares e casas locais para ser explorada sexualmente. Nas festas da roça, os fazendeiros comemoravam o fato de serem os primeiros a tirarem a virgindade da vítima. “É uma perversidade o que fazem com essas crianças. É um crime. Os corpos de meninas violados e virando prêmio para esses criminosos”, afirma Vera.

Sara Oliveira, gerente de projetos da Plan International (Foto: Arquivo Pessoal/ Yahoo)
Sara Oliveira, gerente de projetos da Plan International (Foto: Arquivo Pessoal/ Yahoo)

A situação é tão séria que, segundo a coordenadora do Pérolas de Cristo, o explorador consegue fazer com que a vítima se sinta na obrigação de fazer sexo com o objetivo de levar dinheiro para casa. “É uma agressão na cabeça do menor. Os criminosos invertem os papéis. É como se eles dissessem: se você não transar comigo, você vai deixar sua família passar fome. Passa a culpa e a responsabilidade para o menor vulnerável”, diz Vera Guimarães. Depois de dois anos de um trabalho intenso com a vítima, entre terapias psicossociais e atendimento médico especializado, a menina foi reinserida ao ambiente familiar. Mas, desta vez, a pedido dela, foi morar com a avó materna.

Os dramas são dolorosos e deixam cicatrizes por toda vida. Há crianças, por exemplo, que não conseguem lidar com o problema. Foi o caso de um menino, de 14 anos, estuprado por um vizinho. Após o ato, o criminoso ameaçou matar os pais do adolescente caso ele contasse algo. O menor voltou para casa, tomou chumbinho (produto clandestino utilizado como raticida) e desmaiou. Ao chegar no hospital, foi questionado pelos médicos, mas nada falou. Disse, apenas, que queria morrer. “Quando o menino – que não tem tendências homossexuais - tem o corpo violado, é muito difícil conviver com isso”, ressalta Guimarães. Hoje, o menino cresceu e virou pai de família. O agressor nunca foi localizado.

O crime de exploração sexual prevê a pena de 4 a 10 anos de reclusão. De acordo com a gerente da Plan, Sara Oliveira, a principal dificuldade de se desvendar esse tipo de crime é a produção de provas. “A denúncia é complexa porque a maioria das vítimas tem medo em denunciar por conhecerem seus agressores”, diz. A cultura do estupro também é uma outra barreira e dificulta que um policial, por exemplo, compreenda a situação como um crime. “Ela é a causa pela qual boa parte da impunidade nos crimes sexuais começa muito antes de chegar à Justiça. A vítima precisa, antes de tudo, provar que é vítima”, afirma.

Para Sara Oliveira, uma vítima dificilmente se recupera de uma agressão desse tipo. E é fundamental que, além de trabalhar o psicológico da criança, as equipes possam acompanhar a família. Esse é um os objetivos do projeto Down To Zero, que atua em nove comunidades de cinco municípios da Bahia com o objetivo de reduzir o número de crianças vítimas – ou em situação de risco – de exploração sexual. O projeto promove, ainda, o empoderamento das crianças e adolescentes para que possam ser agentes de mudança e estarem aptas a participar de sua própria proteção. Sara ressalta, ainda, a importância da educação sexual nas escolas do Brasil. “É fundamental que os estudantes tenham acesso a esse tipo de informação. Assim, poderemos identificar muitas situações que são invisíveis aos nossos olhos, além de cuidar dessa criança. Todos nós precisamos aprender a conhecer nosso corpo e a identificar quaisquer tipos de violação contra ele”, informa.