Inferninho nas Torres: vizinhos de prédios de luxo mais famosos de Recife negam festas com garotas de programas e moradores que denunciaram estão com medo

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RIO — O Condomínio Píer Maurício de Nassau, um dos imóveis do conjunto conhecido como Torres Gêmeas, em Recife, está, mais uma vez, envolvido em polêmicas. Vídeos e áudio que circulam nas redes sociais mostram um empresário, suposto dono da cobertura luxuosa do prédio, promovendo festas com garotas de programa e música, literalmente, nas alturas durante as madrugadas. Ao GLOBO, dois moradores negaram as acusações e disseram que as imagens em que aparecem mulheres semi-nuas entrando no elevador não correspondem à estética do edifício. Em anonimato, uma mulher relatou que proprietários que denunciaram o caso preferem não se pronunciar, pois o caso envolve “pessoas influentes”.

O organizador das festas e dono da cobertura de luxo é o empresário Alexandre Maranhão, dono da empresa Maxxima Empreendimentos. Em mensagem de voz que viralizou na internet, encaminhada por um morador indignado ao síndico do condomínio, ele afirma que a torre está uma confusão, devido ao barulho e circulação de pessoas desconhecidas e “suspeitas”. Ainda no áudio, o homem diz que teme o momento em que as garotas de programa vão “voar pela janela" e cair no meio da cama dele. Um vizinho, dono de outra cobertura, já teria colocado o apartamento à venda devido aos abusos do milionário.

— Absurdo o que está acontecendo desde às duas da manhã. Os cachorros aqui de casa latindo, um sobe sobe de gente. Subiram gente aqui, erraram o andar, tocaram a minha campainha. Um barulho infernal, som nas alturas, movimento de pessoas suspeitas, confusão danada aqui. Nosso vizinho do 3801 já anunciou a cobertura dele para vender e eu vejo a hora de uma puta dessa voar pela janela e cair no meio da minha cama — diz o morador, afirmando em seguida a esposa também já está querendo vender o imóvel. — A gente não pode deixar que isso aconteça, vamos começar a gerar multa para que isso se resolva. Não podemos de jeito nenhum sofrer com isso — completa.

O GLOBO localizou a empresa de Alexandre e tentou um pedido de posicionamento sobre o caso. Por ligação, uma funcionária disse que foi orientada a não passar nenhum tipo de informação à imprensa e que o patrão encontra-se fora de Recife. A reportagem também procurou a Polícia Civil de Pernambuco, a fim de saber se foi prestada queixa de importunação contra o empresário. Em nota, o órgão afirmou que não foram registradas ocorrências até o momento.

Relatos nas redes sociais, o dono da cobertura havia sido multado pelo síndico em R$ 2 mil por importunação, mas decidiu desembolsar previamente R$ 20 mil como crédito às punições futuras, já que não pretende deixar o "cabaré de alto luxo”. O GLOBO não conseguiu localizar o atual síndico para confirmar o fato. Contudo, de acordo com o advogado Célio Avelino, morador do condomínio há 10 anos, a informação é falsa.

— Essa informação de possível multa é completamente mentirosa, não houve nada disso, inclusive o Alexandre nem está no condomínio no momento porque a família disse que foi fazer uma cirurgia em São Paulo. Estão fazendo uma piada com esses vídeos, que nem são do nosso condomínio. No vídeo aparece um elevador com uma porta diferente, que a gente claramente identifica que não é daqui — relata ele, que foi responsável pela defesa da primeira dama de Tamandaré e moradora do edifício, Sari Corte Real, indiciada por abandono de incapaz que resultou na morte de Miguel Otávio Santana da Silva, de apenas 5 anos.

O morador e ex-síndico da torre, que preferiu se identificar apenas como Jean, confirmou a versão de Célio. Ele afirmou que mora próximo ao apartamento de Alexandre e que “essas supostas imagens e vídeos não correspondem ao nosso prédio”.

Convite para festas na cobertura de luxo

Um internauta compartilhou um vídeo no Twitter contando como é feito o convite para participar das festinhas super animadas na cobertura. Com direito a open bar e “muito mais”, o anúncio dos próximos eventos são divulgados em panfletos e a entrada custa R$ 500. No papel está especificado que a próxima farra acontecerá no dia 27 de novembro, a partir das 23h.

— Galera, eu parei aqui em um sinal, em Recife, e olha o panfleto que eu recebi, por favor: Torres Gêmeas, ingresso R$ 500, open bar e muito mais, 27 de novembro de 2021, a partir das 23h. E aí vocês vão colar nessa? — brinca.

O caso inusitado ganhou tanta repercussão em Recife que criaram uma música chamada “Cabaré das Torres Gêmeas”, em ritmo de forró. A letra conta a história do suposto idoso, que teria “aberto mão de seus princípios” para ficar com uma garota de programa, e a partir disso, transformou o apartamento em um ponto de prostituição.

Fazendo crítica ao desespero dos proprietários de imóveis que reclamam das festas na cobertura, um usuário do Twitter comentou que a “a elite está preocupada com a desvalorização do imóvel”, mas que a “aberração arquitetônica, o dinheiro voando, racismo e morte não preocupam”.

Polêmicas envolvendo as Torres Gêmeas

Os condôminos Píer Maurício de Nassau e Pier Duarte Coelho, conhecidos como Torres Gêmeas, são alvos de polêmicas desde a sua construção. Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, em 2005 o Ministério Público Federal tentou barrar a construção alegando que os edifícios poderiam afetar negativamente a visibilidade e bens históricos do entorno, devido à sua descomunal altura de 134 metros. Contudo, seis anos depois, o Superior Tribunal de Justiça julgou a causa favorável à Moura Dubeux, construtora dos imóveis, gerando ondas de protestos na cidade.

O caso de repercussão nacional mais recente envolvendo o Condomínio Píer Maurício de Nassau foi a morte de Miguel Otávio Santana da Silva, de apenas 5 anos, em junho do ano passado. Ele caiu do 9º andar do edifício, localizado no bairro de Santo Antônio, no Centro do Recife, após ter sido deixado sob os cuidados da ex-patroa da mãe, a primeira dama de Tamandaré, Sari Corte Real, para que a doméstica passeasse com Mel, a cadela da família. Sari foi indiciada por abandono de incapaz que resultou em morte.

Em 2015, a Polícia Federal deflagrou uma operação no condomínio contra uma quadrilha suspeita de direcionar licitações e desviar mais de R$ 20 milhões da Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia (Hemobrás). Durante a busca e apreensão, maços de dinheiro foram arremessados da janela por criminosos. Entre os delitos apurados pela polícia estão corrupção passiva, infringência da lei de licitação, peculato, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O apartamento do arranha-céu era de um dos investigados na "Operação Pulso", o diretor-presidente da Hemobrás, Rômulo Maciel Filho.

No mesmo ano, dezenas de chineses foram presos no condomínio e regiões próximas ao Centro da cidade, acusados de abastecer o mercado com falsificações baratas. Segundo noticiado pelo Diário de Pernambuco, os asiáticos eram responsáveis ainda por controlar os preços dos produtos entre os comerciantes locais e mandar assassinar quem ousasse desrespeitar as suas ordens. Investigações da polícia apontaram que os criminosos atuavam também em São Paulo.

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