Infertilidade, um fantasma dos antivacinas que afugenta parte da população

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Voluntário acompanha vacinação em centro em Fairfax, Virgínia, em 13 de maio de 2021

"As vacinas impedem o desenvolvimento normal da placenta", "seus componentes atacam os espermatozoides" ou "97% dos vacinados ficarão estéreis" são alguns dos mitos mais difundidos na América Latina a respeito dos efeitos das vacinas contra a covid-19.

A falsa alegação de que ser vacinado pode causar infertilidade começou a circular nas redes sociais e em meios que espalham pseudociência meses antes da aprovação emergencial das primeiras vacinas, em dezembro de 2020.

Nos Estados Unidos, essa desinformação desencoraja a população e leva os profissionais da saúde a ter que persuadir os pacientes de que as histórias que leram online são infundadas.

Uma pesquisa publicada no início de maio revelou que cerca de dois terços das pessoas nos EUA que disseram que "definitivamente não" seriam vacinadas estavam preocupadas com o impacto em sua fertilidade.

E cerca de metade das pessoas não vacinadas teme que "a vacina contra a covid-19 possa afetar negativamente sua fertilidade no futuro", disse à AFP Ashley Kirzinger, diretora associada de Pesquisas de Opinião Pública da Kaiser Family Foundation, a organização sem fins lucrativos que conduziu o estudo.

Cerca de 50% das mulheres e 47% dos homens com entre 18 e 49 anos que ainda não foram vacinados dizem ter tal medo, o que ameaça o objetivo do governo de Joe Biden de alcançar a imunidade coletiva nos Estados Unidos.

As redes sociais são a principal caixa de ressonância para a desinformação. Na América Latina, vídeos, memes e textos que asseguram que as vacinas anticovid esterilizam quem as recebe foram compartilhados milhões de vezes.

A exclusão inicial de gestantes dos ensaios clínicos das vacinas pode ter criado um espaço para a disseminação desse tipo de desinformação. Hoje, os dados disponíveis sobre a segurança dessas vacinas em mulheres grávidas são limitados, "mas tranquilizadores", de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos.

"Peço aos meus pacientes para imprimirem tudo o que os deixam nervosos ou assustados para conversarmos a respeito", disse à AFP Katharine O'Connell White, professora associada de obstetrícia e ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Boston.

No entanto, aqueles que relutam em se vacinar muitas vezes não acreditam em seu médico ou procuram seu conselho.

Abinash Virk, co-diretora do programa de vacinas da Mayo Clinic, nos Estados Unidos, afirmou que aqueles que são fortemente contra a vacinação não fazem perguntas.

"Informações falsas são cativantes", acrescentou White. "É muito mais cativante do que a velha verdade chata".

Kenneth Witwer, professor de patologia e neurologia molecular e comparativa da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, declarou à AFP que a alegada ligação entre infertilidade e vacinas não é nova e que "parece surgir com frequência nas comunidades antivacinas".

Ele também observou que "não há evidências para apoiar que as vacinas tenham efeitos sobre a fertilidade masculina ou feminina", seja contra a covid ou contra outras doenças.

A imunologista María Victoria Sánchez, pesquisadora do Laboratório de Imunologia e Desenvolvimento de Vacinas do IMBECU-CCT-CONICET, da Argentina, concorda. "Não há literatura que apoie que uma vacina possa afetar a reprodução", disse à AFP.

O Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva e a Sociedade de Medicina Materno-Fetal disseram em um comunicado conjunto que "não há evidências de que a vacina possa levar à perda de fertilidade".

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) incluiu a mesma mensagem em sua campanha a favor da vacinação contra a covid-19.

No continente americano, onde mais de um milhão e meio de pessoas morreram de covid-19, 384 milhões receberam pelo menos uma dose da vacina, das quais mais de 258 milhões nos Estados Unidos, segundo dados da agência.

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