Infiltrações, urina e roubo: obras de artistas depredados por golpistas em Brasília sofrem com falta de cuidado em São Paulo

A destruição provocada por terroristas nas instalações do Palácio do Planalto, Congresso e no Supremo Tribunal Federal (STF), causaram especial revolta após a constatação de que obras de arte — de importantes nomes do modernismo— também tinham sido alvo de ataques. Além de peças de mobiliário e decoração cujo o valor é altíssimo, dada sua exclusividade, também entraram na rota da destruição um quadro milionário de Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976), que foi esfaqueada, e mais uma escultura limitada de Victor Brecheret (1894-1955), arrancada de sua base e jogada no chão. O violento episódio na capital federal, contudo, não é a única ação contra obras de arte dos mesmíssimos artistas. Em São Paulo, peças dos mesmos modernistas são alvo de toda sorte de maltrato: jatos de urina, roubo e, evidentemente, dos efeitos do tempo.

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Há um exemplo na Rua José Bonifácio, no centro, a poucos passos de distância da Praça da Sé. No local, jaze um mural preparado por Di Cavalcanti em 1952 no térreo de um prédio. O edifício que o abriga, cujo nome "triângulo" dá pistas sobre seu formato, foi desenhado por Oscar Niemeyer. Na entrada, o mural exibe imagens de operários responsáveis, justamente, por erguer a construção. O mosaico, contudo, tem remendos de cores diferentes do original e na parte externa está se desintegrando há algumas décadas.

— É um dos momentos mais felizes de Di Cavalcanti em seus murais. Ele apresenta uma ideia muito bonita que reproduz os trabalhadores da construção civil. É um mosaico de vidro, o chamado vidrotil. É minimalista e muito bonito, em tons de azul e cinza — afirma Ivo Mesquita, ex-diretor da Pinacoteca e curador da exposição “Di Cavalcanti, muralista”, apresentada no Instituto Tomie Ohtake, em 2021. — Há ali uma infiltração que causa acidez na massa (e derruba as peças), seria necessário rejuntar as pastilhas novamente.

A pouco menos de um quilômetro de distância de Di, no Largo do Arouche, a escritora e psicanalista Betty Milan, surpreendeu-se ao notar que uma escultura de bronze com a representação de uma mulher nua preparada por Victor Brecheret estava abandonada à própria sorte, fazendo as vezes de mictório para a população desabrigada no local. A peça chamada "Depois do Banho" está na região desde 1940 e é um dos poucos nus totais presentes na capital paulista.

— Eu estava na porta da Academia Paulista de Letras e perguntei a um porteiro se tratava-se de um Brecheret, ele disse que sim e que era utilizado como mictório. Fiquei arrasada, pedi que o presidente da Academia falasse com o prefeito sobre o caso. Chegamos a sugerir que a estátua ficasse dentro da Academia, para que pudéssemos cuidar dela — afirmou.

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A filha do artista, Sandra Brecheret, faz coro à crítica e afirma que nada tem sido feito para preservar as peças do pai.

— Me deixa muito indignada quando dizem que vão fazer algo e nada resolvem. Eu já sugeri que mudasse de lugar, pois a peça é alvo de fezes e urina. Me preocupa muitíssimo. É uma peça valiosa, que pertence à cidade, e Brecheret não está mais aqui para fazer outras.

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Sandra ainda relata especial preocupação com o monumento de 48 metros que representa o militar Duque de Caxias, na Praça Princesa Isabel, também de autoria de seu pai. O motivo da preocupação foi a movimentação da Cracolândia — onde há o uso de entorpecentes a céu aberto, por uma concentração de dependentes químicos — para o entorno da estátua, no primeiro semestre do ano passado. Neste momento, a praça já foi desocupada pelo chamado “fluxo” de venda de drogas, mas a prefeitura diz não ter um plano de restauração da obra.

Há ainda as peças que se perderam para sempre. Caso de um pequeno relevo, também de Brecheret, com a representação das "três graças", figuras herdadas da mitologia grega e que adornavam um túmulo no Cemitério da Consolação, igualmente nas proximidades do centro da metrópole. A falta da peça foi sentida pela pesquisadora Glaucia Garcia de Carvalho, do blog SP Antiga, em 2018. Ela contou que chegou a se emocionar ao notar que a peça — cujo artista admira muito — tinha sido furtada. Em casos do tipo, grandes são as chances de que a peça nem mesmo chegue ao mercado irregular de obras. Mas, sim, que sejam derretidos e revendidos pelo preço do peso do cobre.

Nabil Bonduki, arquiteto, urbanista e ex-secretário de Cultura de São Paulo, explica que a dificuldade em restaurar, manter e preservar essas obras é, em primeiro lugar, um reflexo do descaso com a cidade como um todo.

— Brecheret e Di Cavalcanti têm obras em áreas abertas e o estado dessas criações refletem o descaso do governo e da sociedade com o espaço público. São áreas muito maltratadas pelo governo e pela sociedade. Essas obras também sofrem muito impacto dos problemas sociais da capital— diz o especialista. — Não é um problema restrito a esses artistas, é algo muito mais amplo.

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Prefeitura diz que busca soluções

Em nota enviada ao GLOBO, a prefeitura da cidade de São Paulo afirmou que “realiza periodicamente a limpeza de todas as obras do Acervo de Obras de Arte e Monumentos em Espaços Públicos”. Explica, porém, que a restauração das peças ocorre por meio de parcerias do programa “Adote uma Obra Artística”, que se dá por meio de cooperação financeira de pessoas físicas ou jurídicas. A gestão municipal, por outro lado, diz que não houve interessados na parceria para tratar da obra “Depois do Banho” de Brecheret, nem do Duque de Caxias, encravado na Praça Princesa Isabel, embora ambos fossem “prioridade”.

A prefeitura ainda afirma que mantém monitoramento (público e privado) nos cemitérios e no centro para coibir a ação de vândalos e os roubos. Por fim, alega que — apesar de tombado — o mural de Di Cavalcanti no Edifício Triângulo é de responsabilidade dos proprietários do endereço, por tratar-se de um prédio privado.