'Inflação importada' é destaque pela primeira vez em alta de preços no Brasil

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*ARQUIVO* SAO PAULO, SP, BRASIL - 09-05-2015: Visitantes na Bovespa. Gráfico das recentes flutuações dos índices de mercado no pregão da BM & F Bovespa Bolsa de Valores de Sao Paulo apos o anuncio da anulacao do impeachment. -  (Diego Padgurschi /Folhapress)
*ARQUIVO* SAO PAULO, SP, BRASIL - 09-05-2015: Visitantes na Bovespa. Gráfico das recentes flutuações dos índices de mercado no pregão da BM & F Bovespa Bolsa de Valores de Sao Paulo apos o anuncio da anulacao do impeachment. - (Diego Padgurschi /Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Em carta aberta para justificar a escalada de preços em 2021, o Banco Central publicou a tradicional decomposição do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que terminou o ano em dois dígitos.

Pela primeira vez, a chamada inflação importada, que engloba alta de preços global —especialmente em commodities— e variação cambial, foi protagonista no indicador brasileiro.

No ano, a inflação acumulou alta de 10,06%, 6,31 pontos percentuais acima do centro da meta definida pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), de 3,75% com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.

Segundo a carta divulgada na terça-feira (11), a inflação importada contribuiu em 69% para desvio da meta no período, o equivalente a 4,38 pontos percentuais.

O documento, assinado pelo presidente do BC, Roberto Campos Neto, mostra que dentro do componente o preço do petróleo no mercado internacional foi o que mais pressionou a inflação, com 2,95 pontos percentuais, além de 0,71 ponto das commodities em geral e 0,44 ponto da desvalorização do real.

Segundo economistas consultados pela reportagem, a inflação importada ganhou destaque no ano passado porque houve a inversão de um movimento típico no país.

Historicamente, o Brasil se beneficia em ciclos de alta de commodities por ser exportador dos insumos, então a moeda local é valorizada nesses períodos.

Nesse contexto, a tendência é que o câmbio e a elevação de preços desses produtos sejam inversamente proporcionais dentro do indicador e equalizem o item, que costuma ficar comportado.

Desta vez, contudo, os preços desses produtos subiram ao mesmo tempo em que o real se depreciou, o que puxou ainda mais os valores para cima em moeda local. Na carta, Campos Neto falou sobre a inversão desse movimento.

"Embora a contribuição da taxa de câmbio para a inflação tenha sido menor que em 2020, cabe destacar a quebra no padrão histórico de apreciação da moeda nacional durante ciclos de elevação nos preços das commodities, como o ocorrido nos últimos 18 meses", disse.

"Como resultado, o crescimento do IC-Br [índice de commodities] e do preço do petróleo medidos em moeda local foi amplificado, atingindo 50,3% e 82,9% no ano, respectivamente, na comparação da média do último trimestre de 2021 com o mesmo período de 2020, ambas as maiores variações desde o início de suas séries históricas", continuou o texto.

O dólar atingiu, em dezembro do ano passado, uma média 9,83% maior do que a observada no mesmo período de 2020. No período, a moeda americana girou em torno de R$ 5,60.

O presidente do BC atribuiu a depreciação cambial ao aumento do risco fiscal, quando os agentes econômicos entendem que pode haver desajuste nas contas públicas, causado especialmente após manobra para abrir espaço no teto de gastos, mecanismo que limita despesas do governo.

Na prática, o país deixou de se beneficiar da alta das commodities porque os ruídos políticos e fiscais afastaram capital de investidores estrangeiros, o que desvalorizou o real.

"Não tivemos o benefício no câmbio com o ciclo de alta das commodities em razão do risco fiscal e político, ficamos só com o custo", disse o sócio da Panamby Capital e ex-diretor de Política Monetária do BC, Reinaldo Le Grazie.

Quando foi incorporada ao modelo da autoridade monetária, em 2017, a inflação importada era negativa (deflação) e ajudou a explicar por que o índice ficou abaixo do mínimo definido pelo CMN naquele ano (2,95%).

Antes, o BC mensurava apenas o repasse cambial na decomposição do indicador. Le Grazie estava à frente da diretoria na época.

"A inflação importada tem efeito parecido com o repasse cambial, mas quisemos dar mais atenção ao preço dos insumos. Naquele momento, acabávamos de sair de um ciclo de alta que foi muito bom para países emergentes e exportadores [2015 e 2016]", afirmou o economista.

A ideia é mensurar quanto da inflação foi importada de outros países. Para Le Grazie, no entanto, os conceitos podem mudar ao longo do tempo.

"Os preços subiram no mundo todo, então importamos inflação em 2021. Mas quem exportou? É uma elevação global. É importante ver como cada país reagiu a isso", disse o executivo.

André Braz, coordenador dos índices de preços do FGV Ibre, ressaltou que o petróleo sofreu impacto no ano passado tanto com a elevação do preço no mercado internacional quanto com a variação cambial.

"A nossa moeda foi muito desvalorizada com incertezas sobre a política fiscal. Mesmo aumentando juros, não atraímos investimentos", disse Braz.

"O câmbio influencia na inflação de duas formas. Primeiro na importação, já que temos de desembolsar mais em reais. Além disso exportamos mais porque fica mais vantajoso receber em moeda estrangeira, o que encarece o produto aqui dentro porque diminui a oferta", afirmou.

Até o ano passado, a inflação importada não havia sido tão expressiva. Em 2018, por exemplo, o componente foi o único que puxou os preços para cima no Brasil, mas como a inflação fechou abaixo do centro da meta (mas dentro do intervalo de tolerância), o destaque ficou com o que puxou o indicador para baixo.

Quando a decomposição do IPCA vinha apenas com repasse cambial mensurado, o componente foi preponderante no estouro da meta apenas em 2002, quando teve participação de 5,8 pontos percentuais no desvio do índice, que fechou em 12,5% —a desvalorização do real teve peso de 43,8% nos preços.

"Em 2021, tivemos uma série de ruídos políticos, como a reforma ministerial, com protagonismo do centrão, e a questão fiscal ganhou relevância com a questão dos precatórios, que virou o fim do teto de gastos", afirmou o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves.

Para o analista, o arrefecimento da inflação global deve ser lento e pode continuar pressionando preços no Brasil. Além disso, Gonçalves espera que o dólar continue subindo este ano em razão do processo eleitoral.

Na visão de Le Grazie, 2022 deve ser desafiador para emergentes com saída de fluxo de capital. "Os Estados Unidos vão subir juros, o que deve fortalecer o dólar. Deve ser um ano muito duro para o mundo todo", disse.

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