'Inflação verde' pode ser desafio brasileiro rumo à economia sustentável e mobiliza BC

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*** FOTO DE ARQUIVO *** BRASILIA, DF, 01.10.2020 - O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, posa para foto,  na sala do COPOM na sede do Banco Central, em Brasília (DF). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*** FOTO DE ARQUIVO *** BRASILIA, DF, 01.10.2020 - O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, posa para foto, na sala do COPOM na sede do Banco Central, em Brasília (DF). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Dado o agravamento da crise do clima nos últimos anos, a transição para uma economia sustentável é cada vez mais demandada pela sociedade e por investidores de todo o mundo. O processo, no entanto, gera custos, distorce preços de matérias-primas e provoca a chamada "inflação verde".

Entre especialistas, prevalece a avaliação de que a adoção de iniciativas sustentáveis é um caminho sem volta que traz efeitos positivos, inclusive econômicos no futuro, apesar das potenciais dificuldades.

O tema entrou na pauta de discussões do Banco Central. O presidente da autarquia, Roberto Campos Neto, tem reforçado que o debate deve ganhar visibilidade e pode ser um desafio no controle de preços, não só no Brasil mas em diversos países.

"Para atingir volume de energia renovável maior, precisamos de alguns componentes, e a produção desses componentes em si é um processo muito pouco verde, é um processo marrom", disse o chefe do BC em evento do BTG Pactual na terça-feira (14).

Campos Neto tem citado o exemplo dos metais utilizados no processo de implementação de fontes de energia limpa, como cobre e alumínio, para explicar a dinâmica da inflação verde.

Nos últimos meses, houve alta de preços desses metais, que sofreram impacto tanto na demanda quanto na oferta. A pressão pela adoção de energia limpa aumentou a procura pelos metais. Em outra frente, países produtores adotaram regras ambientais mais rígidas, reduzindo a oferta.

"Vejo que fechou [mina de] cobre no Peru, fechou cobre no Chile. Na China estão atacando as indústrias de alumínio que fazem um processo menos sustentável. Então temos ao mesmo tempo uma demanda grande para atingir esse estágio da economia verde e, do outro lado, entendendo que para atingir esse estágio precisa produzir minérios e componentes que não são verdes. Temos uma ruptura na oferta e gera uma inflação nesses componentes", afirmou Campos Neto.

Essa inflação eleva custos e cria mais uma barreira na transição para uma economia de baixo carbono, especialmente em países mais pobres. Para especialistas, a demora na implementação dessas iniciativas faz com que a migração precise ser mais rápida diante do agravamento de problemas climáticos e afete ainda mais os preços.

"De fato, se a transição fosse feita de forma mais devagar, o impacto disso seria menos intenso. Não dá para voltar atrás. Cada vez mais o investidor procura não só rentabilidade mas saber onde seu dinheiro está alocado, se está alinhado aos seus valores", destaca o gestor de renda variável da Warren Investimentos, Igor Cavaca.

Para ele, a não adoção de medidas sustentáveis geraria efeitos nocivos não só para o planeta mas para a atividade econômica, como a fuga de capital estrangeiro e a perda de parcerias comerciais.

A inflação verde surge enquanto eventos climáticos se tornam mais frequentes e também impactam os preços. Desde o fim do ano passado, o Brasil passou por sucessivos choques relacionados ao clima, como chuvas e geadas, que encareceram alimentos, e agora a crise hídrica, que elevou o custo da energia elétrica.

A tese global é que esse movimento seria temporário. O Brasil, contudo, tem um histórico complexo de inflação, que é mais rígida e possui o que economistas chamam de inércia, quando o índice atual afeta os dados futuros.

"Temos uma economia muito indexada. Se o produtor precisa repassar custos para o produto, o consumidor começa a pagar mais caro e exige reajuste pela inflação, criando um ciclo", argumenta Cavaca.

O coordenador do portfólio de economia de baixo carbono do Instituto Clima e Sociedade, Gustavo Pinheiro, concorda que os efeitos da transição seriam menores se fosse feita de forma gradual, mas diz que, ao contrário de outros países, as iniciativas não devem gerar pressão inflacionária no Brasil.

"Se tivéssemos embarcado em um processo de transição para economia de baixo carbono antes, com certeza impactos econômicos e sociais seriam menores. Em 2006, saiu um relatório que mostrava os custos da ação e da não ação climática. O documento mostrou que postergar tornaria o processo mais caro, e está tornando", afirma.

"É uma oportunidade de redução de custos de energia, pois temos oferta abundante de geração eólica, solar e de biomassa que são mais baratas do que térmicas que utilizam combustíveis fósseis. Além disso, temos os menores custos de abatimento de emissão de gases de efeito estufa. Então a descarbonização pode tornar a economia brasileira mais competitiva em relação a outras economias relevantes", pondera Pinheiro.

Na visão da coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV, Claudia Yoshinaga, a inflação verde preocupa porque a economia está fragilizada e os preços já estão em escalada no país.

"É mais um fator em um copo que já está transbordando", diz. A economista ressalta que, no Brasil, a adequação do setor produtivo a processos mais sustentáveis demandaria aquisição de matérias-primas em dólar, o que elevaria ainda mais os custos em meio à desvalorização do real.

Na gestão de Campos Neto no BC, o risco climático virou prioridade, especialmente após pressão de investidores estrangeiros. Em setembro do ano passado, a autoridade monetária incluiu sustentabilidade em sua agenda institucional, que traz uma série de medidas a serem implementadas a curto, médio e longo prazo.

Dentro dessas ações, foram lançadas normas de ESG (sigla em inglês para boas práticas ambientais, sociais e de governança) para instituições financeiras na semana passada. Uma delas obriga a inclusão de mudanças climáticas no gerenciamento de riscos dos bancos a partir de julho de 2022.

Com a mudança, o BC passa a exigir que os bancos incorporem potenciais perdas com choques climáticos no cálculo de riscos, que impacta, por exemplo, análises para concessão de crédito.

O documento cita condições climáticas extremas, incluindo seca, inundação, enchente, tempestade, ciclone, geada e incêndio florestal. Além disso, o BC elenca alterações ambientais permanentes, como aumento do nível do mar, escassez de recursos naturais, desertificação e mudança em padrão pluvial ou de temperatura.

Para o advogado Valdir Simão, ex-ministro do Planejamento e da CGU (Controladoria-Geral da União), as normas do BC vêm de uma demanda da sociedade. "É uma tendência, aqueles que não se adaptarem podem perder competitividade no futuro", diz.

"O sistema financeiro, o mundo corporativo e a indústria como um todo têm internalizado a agenda ESG, adicionando um propósito às atividades de forma que a sociedade, os clientes, os empregados e os acionistas tenham responsabilidade na questão ambiental", destaca Simão.

Maria Christina Gueorguiev, sócia da área ambiental do Veirano Advogados, afirma que as regras eram esperadas pelo mercado e que podem estimular a adoção de práticas sustentáveis não só no sistema financeiro, mas também no setor produtivo.

"Os bancos passarão a mensurar o risco climático e isso impacta no custo do crédito e para quem ele empresta. Isso pode estimular mais negócios verdes", avalia.

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