Inflação desenfreada reacende a memória da fome no Piauí

Em Miguel Alves, no Piauí, inflação tem revivido drama da fome para muitas pessoas (Reprodução/Google Street View)
Em Miguel Alves, no Piauí, inflação tem revivido drama da fome para muitas pessoas (Reprodução/Google Street View)
  • Inflação atual faz quem já passou fome voltar a conviver com a realidade

  • No Piauí, ganhos não dão para gastos básicos na periferia

  • Medo de reviver dramas do passado assusta moradores com pratos vazios

Maria Assunção, 50, moradora de Miguel Alves, Piauí, e aposentada, carrega a memória de quando tinha 9 anos, onde vivia com sua família de 13 irmãos e sobrinhos com a dor aguda: A fome, "Lembro de mamãe que ia para os matos quebrar coco, quando chegava ia comprar arroz e meio quilo de feijão para mais de 13 pessoas. É muito triste a história da pessoa que passa fome, eu já vivi ela”, afirma.

A aposentada recebe um salário mínimo mensalmente, o auxílio doença, LOAS (Lei Orgânica da Assistência Social), que com aumento das coisas, em especial a alimentação, não tem dado conta do básico. Assunção conta que um dos produtos mais caros tem sido o gás, em sua região chega a custar R$140, “Tenho vizinhos que tiveram que voltar a usar lenha, daqui um pouco com o absurdo das coisas, eu também não vou ter condições de usar gás”.

Já os alimentos que encareceram e que ela sente falta tem sido a carne, e frango, nas refeições o mais próximo de mistura tem sido ovos, e sardinha. De grãos o arroz e feijão têm sido os únicos alimentos possíveis para manter na mesa, mas o preço para esse mantimento tem levado grande parte de seu aposento, “Um salário mínimo é pouco demais, pode ser pra uma pessoa, duas, muito pouco. Antigamente eu fazia R$100 de compras, era muita coisa, hoje vem só uma sacola, duas coisinhas e já se foi o dinheiro que deveria durar o mês inteiro”, comenta. Outra despesa cotidiana e que aumentou para Assunção foi o preço de seus cremes de pele, uso obrigatório para o tratamento de pele.

Assunção até tentou investir na vendas de din din, mas com o aumento dos preços das frutas, ficou impossibilitada de dar continuidade. Ela conta que o kg do maracujá chegou a R$11, do coco E$6, abacate pequeno R$8, produtos que antes da pandemia ela conseguia comprar em pouca quantidade, agora nem isso é possível, para ela, um dos poucos meios de bico onde conseguia ter uma renda.

“Ô, minha filha, sentimento ruim é a fome”

O medo tem sido viver o passado, afirma Assunção, que diz que nesses últimos anos de pandemia viu o mundo desandar, para ela o sentimento mais presente é a tristeza em ver amigos, vizinhos e até ela mesma, em sua situação que a obriga deixar de comer. Para ela, as autoridades devem urgentemente olhar e agir para que essa situação não piore mais do que já está, “Eu não quero sentir a fome nunca mais e nem quero que ninguém sinta, o governo do Piauí precisa olhar para essas familias.”, finaliza.

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