'Influencer' argentino, cidades com zero votos? Entenda 4 alegações falsas sobre fraude nas urnas

Urnas eletrônicas
Influencer argentino levantou dúvidas sobre urnas eletrônicas que foram desmentidas pela justiça eleitoral brasileira

Inconformados com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como próximo presidente do Brasil, parte dos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL) tem divulgado alegações de fraudes nas urnas brasileiras.

Essas acusações, porém, estão sendo contestadas pelo Tribunal Superior Eleitoral e especialistas em segurança do voto.

Entre as alegações que ganharam projeção está um dossiê apócrifo divulgado pelo argentino Fernando Cerimedo - que se apresenta como empresário, consultor político e professor -, dono do canal La Derecha Diário e ligado ao deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

Ele diz que parte das urnas eletrônicas não teriam sido "auditadas" recentemente pelo TSE e teriam transferido votos de Bolsonaro para Lula durante a votação, o que a Corte eleitoral desmentiu.

Outra informação falsa que circula nas redes sociais para levantar suspeitas de fraudes é de que haveria cidades em que o petista obteve 100% dos votos válidos. Na verdade, existem apenas 143 seções eleitorais em que isso ocorreu, o que representa menos de 0,03% das 496.512 seções do país. Já Bolsonaro obteve todos os votos válidos de quatro zonas eleitorais (menos de 0,001% do total).

Há ainda acusações de seções eleitorais que teriam "sumido" do sistema da Justiça Eleitoral, num suposto indício de que votos não teriam sido computados.

No entanto, o TSE esclareceu que isso ocorreu no caso de seções pequenas, que foram unificadas com outras para "racionalizar" o processo de votação, sem prejuízo para o exercício do voto.

Entenda melhor a seguir cada uma dessas alegações de fraudes e as explicações que contestam essas acusações.

1) Suposta transferência de votos de Lula para Bolsonaro

O vídeo com falsas alegações de fraude sobre a eleição brasileira do argentino Fernando Cerimedo foi retirado do ar após alcançar mais de 400 mil visualizações no YouTube.

Nele, ele dizia ter recebido um dossiê com uma série de indícios de fraudes sem revelar quais seriam os autores de tal documento.

A principal acusação, sem provas concretas, é de que teria ocorrido uma transferência de milhões de votos de Bolsonaro para Lula em urnas antigas que não teriam sido auditadas pelo TSE.

A votação brasileira conta com urnas eletrônicas de diferentes anos, já que máquinas antigas vão sendo substituídas por novas. Nesta eleição, foram usados seis modelos: 2009, 2010, 2011, 2013, 2015 e 2020.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, todas passaram por análises e auditorias nos últimos anos, como a Auditoria Especial que o PSDB solicitou em 2014 após a derrota de Aécio Neves para Dilma Rousseff e cinco edições do Teste Público de Segurança.

No vídeo, Cerimedo diz que apenas as urnas de 2020 teriam sido auditadas recentemente e que o resultado da eleição no Nordeste indicaria que o petista obteve proporcionalmente mais votos nas seções que usaram modelos de urnas anteriores a 2020.

No entanto, o argumento de que só as urnas de 2020 teriam sido "auditadas" recentemente é falso. Os testes públicos de segurança do TSE costumam analisar o modelo de urna mais recente disponível naquele momento. Dessa forma, o último teste público, realizado em novembro de 2021, testou as urnas de 2015.

Quando ficaram prontas as urnas modelo 2020, não haveria tempo suficiente para um amplo teste público desses aparelhos antes da eleição de outubro, por isso essas urnas foram testadas por três universidades: Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Segundo o professor Marcos Simplício, do Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais da USP, não há qualquer distinção entre os testes realizados com os modelos novos e antigos.

Ele é um dos coordenadores da equipe que analisou as urnas modelo 2020 e que também participou do último teste público de segurança no TSE.

"Eu não sei de onde ele tirou a informação que a 2020 foi testada e as anteriores não", questiona o professor.

O argentino não explica o que seria a auditoria

Após a primeira publicação desta reportagem na quarta-feira (09/11), Cerimedo entrou em contato com a BBC News Brasil. Ele reclamou de ter sido chamado de influenciador e pediu para ser identificado como "empresário, consultor político e professor".

Questionado sobre o que seria a "auditoria" específica das urnas modelo 2020 que ele cita em seu vídeo, o argentino não esclareceu. Depois, disse que enviaria documentos a respeito, mas não o fez até a publicação da atualização dessa reportagem, na sexta-feira (11/11).

Embora a suposta diferença de auditoria das urnas seja um ponto central do seu vídeo, ele passou a minimizar a importância desse ponto na troca de mensagens com a BBC News Brasil.

Segundo o argentino, independentemente de qualquer auditoria, haveria supostamente diferenças nas quantidades de votos obtidos por Lula e Bolsonaro a depender dos modelos das urnas.

"Vocês estão muito concentrados nas auditorias. Não há auditorias de outros modelos que não seja de 2020. Mas, suponhamos que fizeram auditorias dois anos, três anos atrás, não importa, tá bom? Por que existe diferença numa mesma cidade, nos mesmos centros de votação, que esse dado que nós analisamos, onde há misturas de máquinas, algumas 2020, e outras não 2020, há tanta diferença de voto?", questionou em uma mensagem de áudio.

O argumento do vídeo de Cerimedo é que foram analisados quantos votos Lula e Bolsonaro receberam em urnas novas e antigas em cidades de até 50 mil ou 100 mil habitantes na região Nordeste.

A conclusão da análise foi que Lula teria recebido proporcionalmente mais votos nas urnas antigas, enquanto Bolsonaro teria ido melhor nas urnas novas.

Para Cerimedo, como essas cidades analisadas têm, supostamente, perfil social semelhante, as urnas diferentes deveriam ter registrado a mesma proporção de votos para os dois candidatos. Como isso não ocorreu, o argentino insinua que algum mecanismo teria transferido milhões de votos de Bolsonaro para Lula nas urnas antigas.

Para checar tal alegação, A BBC News Brasil solicitou a Cerimedo a lista de cidades usadas nessa análise para que fosse possível verificar os resultados divulgados em seu vídeo. No entanto, o argentino não forneceu qualquer detalhamento.

Ele disse que os cálculos foram feitos por 22 cientistas e matemáticos brasileiros e confirmados por sua equipe. Mas afirmou que não seria possível identificar quem são esses brasileiros porque eles temem censura e perseguição no Brasil.

Cientistas de dados brasileiros, como Caio Gomes e Tiago Batalhão, decidiram analisar a distribuição das urnas pelo país para verificar o argumento do vídeo de Cerimedo.

A partir de dados do TSE, eles constataram que, no caso da região Nordeste, as urnas mais novas foram usadas, principalmente, nas capitais e nas regiões metropolitanas, onde Bolsonaro teve desempenho melhor. Já as urnas mais antigas foram mais usadas no interior, onde Lula venceu com vantagem mais larga.

"Esse fato já torna muito difícil uma comparação entre os dois modelos de urna, pois sabemos que as condições socio-econômicas do interior do Nordeste são bem diferentes do litoral", afirma Gomes em um relatório que aponta falhas na argumentação do argentino.

Mestre em física pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e cientista de dados profissional, Caio Gomes considera equivocado até mesmo comparar diferentes cidades do interior, pois mesmo nesse caso pode haver diferenças relevantes de apoio a Lula ou Bolsonaro entre elas.

Para testar se de fato o modelo da urna interfere no número de votos de cada candidato, Gomes analisou os votos obtidos pelos candidatos dentro de zonas eleitorais em que foram usadas simultaneamente urnas novas e antigas.

Isso ocorreu em 461 zonas eleitorais em todo o país. Porém, a análise de Gomes não encontrou nenhuma variação relevante estatisticamente. Ou seja, segundo seus cálculos, Lula e Bolsonaro receberam votações similares nas urnas antigas e novas quando comparados os resultados de uma mesma zona eleitoral.

Isso indica que o modelo da urna não teve qualquer interferência na quantidade de votos recebida por cada candidato.

Mulher vota no Brasil
TSE esclareceu à BBC News Brasil os pontos que circulam como notícia falsa

2) Suposta existência de dois programas nas urnas

Outra alegação falsa levantada pelo influenciador argentino é que haveria dois softwares, ou seja, dois programas diferentes rodando nas urnas eletrônicas.

Segundo Cerimedo, essa é a única conclusão possível ao se identificar que há dois logs (registros do que ocorre na máquina) diferentes nas urnas.

A afirmação é contestada por Marcos Simplício e pela equipe da USP que tem acesso ao código-fonte da urna eletrônica.

Segundo o professor, log é o registro de tudo que ocorre na urna eletrônica, produzido pelo próprio software da máquina. Após o influencer argentino levantar a teoria de que haveria dois programas na urna, a equipe de Simplício verificou o código-fonte do software de votação e identificou que o mesmo software pode gerar dois logs diferentes a depender de como ocorre a carga do programa nas urnas.

Por exemplo, se o servidor da Justiça Eleitoral digita uma número errado no momento de inserir a senha para a carga do software e, por isso, precisa apertar a tecla "corrige" para reiniciar o procedimento, isso gera um log diferente do que o log padrão, que é registrado quando a carga é feita corretamente na primeira tentativa.

Segundo Simplício, a hipótese de que os dois logs seriam resultado da existência de dois softwares na urna é válida. Mas o argentino erra ao dizer que essa seria a única explicação possível para os dois logs.

"A gente (a equipe da USP) verificou no código que a recebemos do TSE e, não, não são dois softwares distintos", afirmou.

Jair Bolsonaro votando
Lula recebeu 100% dos votos em 143 urnas; Bolsonaro, em quatro

3) Urnas sem votos para Bolsonaro

O fato de algumas dezenas de urnas em todo o país terem registrado apenas votos para Lula também está sendo usado para levantar dúvidas sobre a integridade da eleição.

Circula nas redes sociais uma suposta lista de cidades que teriam votado apenas no petista. Essa lista vem acompanhada de um pedido para que eleitores de Bolsonaro dessas cidades se manifestem publicamente, mostrando que a ausência de votos para o presidente nesses locais seria uma fraude.

No entanto, é falso que existam cidades em que 100% dos votos foram para o presidente eleito. O que existem são algumas seções eleitorais espalhadas por diferentes municípios em que apenas Lula ou apenas Bolsonaro receberam votos no segundo turno.

A partir dos dados oficias do TSE, um levantamento da agência Tatu, especializada em jornalismo de dados, identificou que Lula obteve 100% dos votos válidos em 143 urnas, enquanto o mesmo ocorreu com Bolsonaro em quatro urnas.

Isso geralmente aconteceu em comunidades em que os eleitores têm uma visão muito coesa. Por exemplo, o petista foi escolhido de forma unânime entre eleitores de algumas comunidades indígenas, enquanto Bolsonaro recebeu todos os votos válidos de eleitores brasileiros registrados para votar em Caracas, capital da Venezuela.

Um caso que gerou especial atenção nas redes sociais bolsonaristas foi o da seção eleitoral 158 do município de Confressa, no Mato Grosso, em que houve 384 votos para Lula, um voto nulo e nenhum voto para Bolsonaro.

Para apoiadores do presidente, seria impossível tal resultado, já que o Estado de Mato Grosso votou predominantemente em Bolsonaro. Na cidade de Confressa como um todo, aliás, o presidente venceu com 69,8% dos votos.

A seção 158, porém, fica dentro da comunidade indígena Apyãwa, conhecida também como povo Tapirapé. À BBC News Brasil, o cacique da comunidade, Elber Ware'i, disse que o povo Apyãwa se reuniu, analisou as propostas de Lula e decidiu que ela era o melhor candidato para seu povo.

"Visto que a proposta da campanha do presidente eleito foi voltada em atender a questão social, especialmente no atendimento da população que mais necessitam de apoio de governo federal como Quilombolas, Ribeirinhos, Extrativistas e principalmente os povos indígenas", explicou por mensagem de WhatsApp.

"A política de combate ao desmatamento, a continuidade da educação escolar Indígena de qualidade, saúde de boa qualidade nas aldeias... Tudo isso fez com que o povo Apyãwa, votasse em 100% no candidato eleito", disse ainda na mensagem.

Além de as dezenas de sessões em que houve votos para apenas um candidato não representarem qualquer fraude, elas também somam menos de 0,02% do total de votos computados no segundo turno. Ou seja, apenas esses votos isoladamente não interferem no resultado da eleição.

4) A seção que "desapareceu" em Minas Gerais

Também causou indignação entre bolsonaristas o suposto sumiço de seções eleitorais do sistema do TSE. Um eleitor de Minas Gerais, por exemplo, gravou um vídeo indignado com esse problema.

Na gravação, ele mostra seu comprovante de votação na seção 292 da cidade de Passos. Depois, o vídeo exibe a consulta ao resultado das urnas no portal do TSE. No entanto, o eleitor não localiza na zona eleitoral de Passos a seção 292, já que a lista de seções passa direto da 291 para a 293.

"A minha seção do comprovante (de votação) tem o mesmo dado do meu título (de eleitor), onde eu votei. Por que a minha seção não está aqui contabilizada? E diz que todas foram totalizadas, 100% das urnas. Por que que a minha não está aqui? O que aconteceu e pra onde foi meu voto?", questiona.

"A gente consegue ver que não foi só com uma (seção eleitoral). Da 0183 vai pra 0185, não tem uma sequência. Pularam a minha e pularam outras. Muitas pessoas estão dizendo que não estão encontrando as suas seções e não houve nenhuma mudança na zona de votação", reforça o autor do vídeo.

Questionado pela BBC News Brasil, o TSE explicou que algumas seções eleitorais foram agregadas a outras, um procedimento que é permitido pela resolução 23.669 da Corte "visando à racionalização dos trabalhos eleitorais, desde que não importe prejuízo ao exercício do voto".

É por esse motivo que a seção 292 de Passos não aparece no sistema de consulta aos resultados das urnas. Isso, porém, não significa que os votos não foram computados.

Uma planilha disponível no portal da Corte permite consultar as mais de 24 mil seções que foram agregadas a outras nesta eleição. Em Passos, por exemplo, isso ocorreu com 34 seções, sendo que a 292 de passos foi agregada à 316.

Dessa forma, houve apenas uma urna para essas duas seções e os votos apurados foram registrados no portal do TSE todos na seção 316 de Passos. A consulta ao portal mostra que 138 compareceram para votar nessas duas seções agregadas, sendo que Lula obteve 99 votos e Bolsonaro recebeu 34. Houve ainda três votos nulos e dois em branco.

Apesar das diversas teorias sobre irregularidades que circulam nas redes sociais, diferentes instituições analisaram os resultados da eleição e não constataram fraudes, como o Tribunal de Contas da União, a Ordem dos Advogados do Brasil e o Ministério da Defesa.

No caso das Forças Armadas, o relatório também sugeriu aperfeiçoamentos no processo eleitoral e o TSE afirmou que essas sugestões serão analisadas oportunamente.

- Este texto foi publicado em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63566783