Influencer arrependido, encapuzado e fake news sobre infiltrados: quem são os perfis suspensos por Moraes nas redes sociais

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que 17 contas em diferentes redes sociais sejam excluídas. Os alvos da decisão são perfis que, na visão do ministro, ajudaram a promover os atos golpistas que vandalizaram as sedes do Palácio do Planalto, Congresso e Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília.

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As 17 contas foram identificadas em relatórios de inteligência produzidos pela Polícia Federal e pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A maioria delas já estava indisponível na madrugada desta segunda-feira, quando o GLOBO tentou acessá-las.

Outras, entretanto, ainda mantinham os rastros deixados após o dia marcado pela depredação na Praça dos Três Poderes. Em comum entre elas está o fato de que fizeram transmissão ao vivo ou ajudaram a compartilhar conteúdos relacionados à invasão do patrimônio público.

Havia desde perfis com pouco mais do que 60 seguidores até influenciadores reconhecidos do bolsonarismo como, por exemplo, Bernardo Kuster, que é acompanhado por 318 mil usuários. Moraes deu duas horas para que Facebook, TikTok e Twitter bloqueassem essas páginas virtuais.

Uma análise entre as publicações mostra uma mudança de tom conforme o ato foi escalando para a vandalização do patrimônio público. Às 20h25 desse domingo, por exemplo, Kuster lamentava o resultado da manifestação:

— O que a esquerda iria ganhar de poder em anos foi adquirido numa tarde — afirmou.

Outros compartilharam vídeos com fake news, apontando a participação de supostos manifestantes de esquerda infiltrados e que seriam responsáveis pelo quebra-quebra na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Em um deles, um dos grupos que invadiu a Câmara dos Deputados pedia para que os outros não quebrassem nada - o que, obviamente, não era cumprido. No mesmo perfil, pouco antes, eram publicados vídeos celebrando o ato golpista, com dizeres como "agora o povo governa".

Um dos perfis elencados pela PF e pelo TSE é o de Fabrizio Cisneros, que almejava concorrer a uma vaga de deputado estadual pelo Democracia Cristã em Mato Grosso, mas o seu sonho não foi adiante porque o partido não cumpriu a cota mínima de 30% de candidaturas femininas. Nos vídeos, Fabrizio aparece encapuzado e fez diversas transmissões ao vivo durante o evento, chegando a mostrar a invasão de manifestantes no plenário do Supremo Tribunal Federal.

No último vídeo publicado na sua conta, já deixando a Esplanada dos Ministérios, Fabrizio disse que deixaria o local com uma carona.

— Estou com os pés calejados, cheio de bolha. Mas é isso aí: consciência limpa, consciência tranquila, vou dormir tranquilo sabendo que eu dei o máximo de mim — disse.

No Facebook, por exemplo, um dos perfis bloqueados é a página “Palhoça Tá On”, cujo foco seriam notícias da cidade Palhoça, mas que compartilhou vídeos da depredação dos três Poderes. No TikTok e Instagram, alguns dos perfis citados não apresentaram indícios de que estavam no local dos atos terroristas, mas incentivaram ações de vandalismo. Uma das contas bloqueadas, no TikTok, publicou também uma imagem de um soldado armado com os dizeres "Verás que um filho teu não foge à luta! Prepare-se para o que está por vir". A Polícia Federal pedirá mais informações às plataformas para tentar identificar os usuários por trás da propagação de materiais golpistas.

Esses vídeos foram coletados pela Polícia Federal, porque são considerados provas cruciais para a investigação, porque, em alguns casos as transmissões podem ser monetizadas, rendendo lucros para quem estava na manifestação e transmitindo ao vivo a invasão. É o caso do TikTok, que monetiza as transmissões ao vivo, mas não deixa a transmissão salva após sua conclusão. Dois perfis citados por Moraes fizeram transmissões ao vivo na plataforma.

Em sua decisão, Moraes determinou às plataformas que retirassem do ar os 17 perfis com conteúdo golpista em um prazo de duas horas e fornecesse ao STF todos os dados cadastrais dos usuários e preservasse o conteúdo produzido por eles. Em caso de descumprimento da ordem, seria aplicada uma multa diária de R$ 100 mil.

"Os fatos narrados demonstram uma possível organização criminosa que tem por um de seus fins desestabilizar as instituições republicanas, principalmente aquelas que possam contrapor-se de forma constitucionalmente prevista a atos ilegais ou inconstitucionais, como o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, utilizando-se de uma rede virtual de apoiadores que atuam, de forma sistemática, para criar ou compartilhar mensagens que tenham por mote final a derrubada da estrutura democrática e o Estado de Direito no Brasil", escreveu Moraes em sua decisão.

"Essa organização criminosa, ostensivamente, atenta contra a Democracia e o Estado de Direito, especificamente contra o Poder Judiciário e em especial contra o Supremo Tribunal Federal, pleiteando a cassação de seus membros e o próprio fechamento da Corte Máxima do País, com o retorno da Ditadura e o afastamento da fiel observância da Constituição Federal da República", complementou.