Influenciadoras digitais muçulmanas conquistam o Brasil e quebram preconceitos ao fazer até propaganda de xampu nas redes; veja fotos

Na grande São Paulo, três mulheres possuem uma rotina comum de influenciadoras digitais: estão conectadas com a beleza, a moda e a maternidade, rodeadas de roupas coloridas, maquiagens diversas e prateleiras de produtos de skincare cuidadosamente escolhidos para indicar às seguidoras.

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O trio tem em comum a religião islâmica, que aparece frequentemente no dia a dia compartilhado nas redes sociais de Carima Orra, Mag Halat e Mariam Chami. Elas acordam cedo - não para meditações ou corridas matinais como blogueiras fitness, mas para realizar a primeira das cinco orações diárias. Os produtos que usam (e fazem as famosas publis) devem ter o selo halal, que significa que está de acordo com a religião muçulmana. Para elas, mais importante que todos os acessórios de moda é o hijab, um lenço que cobre os cabelos e pescoço e possui um significado profundo - e não, você não as verá sem eles.

Em público, elas estarão sempre com os cabelos cobertos pelo hijab, mas isso não significa que elas não realizaram o sonho de fazer uma publicidade para produtos capilares. A propaganda de xampu, sem mostrar os fios, foi a primeira de grandes conquistas na carreira das influenciadoras, que querem marcar presença dentro e fora da internet.

Além de estar de acordo com as crenças das influenciadoras, a ação publicitária também é uma boa estratégia de marketing, segundo Carima: “quando a gente não mostra o cabelo, as pessoas ficariam curiosas de saber como fica o cabelo, por isso, testariam o produto para saber”. Para ela, não mostrar como ficam as madeixas após o uso do produto faz do comercial ainda mais honesto.

Afinal, se em público o hijab é quem brilha ao redor do rosto, dentro de casa, elas cuidam da pele, dos cabelos, da saúde e do bem-estar, e, claro, indicam às seguidoras os itens que mais gostam. Além do mais, qual propaganda de xampu é 100% real?

“O cabelo das modelos nunca é o cabelo do dia a dia da pessoa”, diz Carima. “Mesmo sabendo que ali há uma escova, volume, aplique, as pessoas compram os produtos, e o mesmo acontece conosco, que mesmo não mostrando o resultado, permanecemos fiéis à verdade e à nossa realidade.”

Para Mag Halat, o próximo passo é levar os comerciais estrelados por mulheres muçulmanas à televisão brasileira. “Ir para a TV seria algo muito incrível, ter essa representatividade realmente acontecendo”, revela. A maquiadora explica que sua missão como mulher muçulmana é buscar crescimento e estudos.

— Quero que nós sejamos aceitas como mulheres normais que podem trabalhar, estudar, ser donas de casa, chefes em uma empresa. A mulher oprimida é o contrário do que o islamismo prega. Nossa obrigação, pela religião, é buscar o conhecimento — explica Mag.

Moda modesta

A modéstia é um estilo de vida para as muçulmanas, e um nicho de mercado para o mundo da moda. Tratam-se de roupas sem decotes, sem transparências, com comprimentos longos e sem marcar o corpo. No Brasil, é disseminada no meio evangélico, ganhando adeptas no catolicismo, mas sendo abraçada por mulheres que buscam conforto e expressão de identidade.

Já no mundo, o segmento tende a crescer. Um estudo realizado pela empresa de pesquisas Bain & Company em 2018 mostrou que no mercado de luxo, a moda modesta é responsável por 40% do faturamento global da indústria. A Semanas de Moda Modesta já foi realizada em Miami, Dubai, Istambul, Londres, Jakarta e Amsterdã, reunindo um público que fomenta um mercado de 370 bilhões de dólares.

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No evento, modelagens soltas e cortes longos são o elemento chave do estilo, mas o hijab é opcional. A moda modesta vem com o objetivo de incluir e acolher diferentes tipos de corpo, estilos de vida, culturas e crenças.

Mariam Chami afirma que as vestimentas fazem parte de sua identidade, e rebate a crença de que são uma forma de opressão à mulher: “a roupa que a gente veste não tem nada a ver com a felicidade! Pensam que as nossas roupas nos limitam. Mas não nos limitam em nada! A gente vai à praia, se diverte. Do mesmo jeito que as mulheres vão à praia de biquíni, eu também vou de burkini [traje de banho usado pelas muçulmanas] e me divirto da mesma forma”.

Religião online

Além de falar de moda, maquiagem e outros elementos do dia a dia feminino, as influenciadoras ensinam diariamente sobre o islã nas redes sociais, como forma de sanar dúvidas frequentes do público. A maioria dos seguidores são mulheres não muçulmanas, que “caíram de paraquedas” nos perfis buscando aprender mais sobre a religião, mas acabaram se identificando com a personalidade das influenciadoras. Elas amam as indicações de produtos e serviços, torcem e vibram com cada conquista e as defendem de ataques islamofóbicos.

A internet acompanha a expansão da religião no Brasil. Segundo a dra. Francirosy Barbosa, antropóloga associada da USP com 24 anos de experiência com comunidades muçulmanas, as redes sociais favoreceram o contato entre grupos isolados em diferentes regiões do Brasil.

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“Estamos mais organizados, juntos. Aulas online unem os muçulmanos. Após o 11 de setembro, a comunidade islâmica teve que se abrir, ir à imprensa, explicar as dúvidas, e isso trouxe visibilidade, curiosidade e conversão”, explica a acadêmica.

De acordo com o censo demográfico do IBGE de 2010, a estimativa é de que existam 35.167 muçulmanos no Brasil, enquanto as instituições islâmicas afirmam ser de 1,5 milhões. A religião é a que mais cresce no mundo - de acordo com a Federação das Associações Muçulmanas no Brasil (Fambras), existem cerca de 1,8 bilhão de muçulmanos no planeta, o que equivale aproximadamente a 1/5 da população mundial.

Feminismo islâmico

De acordo com a dra. Francirosy, a cada 10 reversões (conversão ao islã), sete são de mulheres. Ela argumenta que a religião possui um grande apelo feminino, pois garante às mulheres direitos buscados pelo feminismo.

“O direito a escolher o marido, a buscar o conhecimento, o direito à consulta (a serem consultadas sobre decisões da sociedade), o direito ao divórcio. São direitos que a mulher demorou a alcançar, mas na religião islâmica, já são intrínsecos à mulher “, explica. Ela traz informações sobre a esposa do profeta Maomé. "Ela era mais velha que ele, comerciante, independente, e o pediu em casamento. Isso, hoje, pode ser visto como feminista!”

E quanto ao hijab? O lenço que cobre a cabeça das mulheres muçulmanas representa uma devoção a Deus e é um objeto de apreço das muçulmanas. “Se alguém obriga a mulher a usá-lo, já deixa de ser devoção, de ser amor. O hijab me recorda de que sou imperfeita, e quando cometo erros, e percebo que estou usando, me lembro de ser uma pessoa melhor”, diz Francirosy.

Preconceito

A discriminação quanto ao uso do hijab já fez Mag ser revistada em um aeroporto, e Mariam e Carima perderem oportunidades de emprego. “Perdi a oportunidade de ser pedagoga em uma escola americana em São Bernardo do Campo porque a mulher disse que o lenço assustaria as crianças, que elas se sentiram desconfortáveis e inseguras”, lembra Carima. Já Mariam, que é nutricionista, perdeu a vaga por ser considerada "séria demais", algo que não condiz com sua personalidade: "foi preconceito velado", diz.

Outra frase discriminatória que Mag detesta ouvir é “volta para sua Terra”. “Queria acabar com esse estereótipo, queria que as pessoas entendessem que a religião não tem a ver com a cultura, que a pessoa pode ser muçulmana independente da nacionalidade dela”, desabafa a influenciadora.

Ela acredita que no Brasil há uma ideia mais “folclórica” das muçulmanas, ligadas à cultura árabe que são culturais de uma região, não de uma religião. “A pessoa pode ser japonesa, coreana, de qualquer lugar e ser muçulmana. Eu sou muçulmana e brasileira”, explica, ressaltando que questões culturais dos países árabes não podem ser relacionadas à religião - e que como em qualquer outra crença, há pessoas que as deturpam em favores próprios.

A ideia de homens e mulheres bomba, por exemplo, é algo totalmente contrário ao islã, afirma Mariam: “no Alcorão sagrado está escrito: quando você tira a vida de uma pessoa, você tira a vida de toda uma humanidade. Assim como em todas as religiões, matar é um pecado muito grave”.

Apesar de ouvirem frases dolorosas de ataques à religião, as influenciadoras relatam que têm visto cada vez mais tolerância, caminhos sendo abertos e sonhos realizados. E mandam um recado: a religião cujo nome significa “paz” nunca pregaria a opressão.

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