Influenza avança à sombra do coronavírus: falta remédio e há filas para vacina

Carol Knoploch e Constança Tatsch
Fila de pessoas querendo se imunizar contra influenza diante de clínica particular de vacinas, no Rio

RIO - No sábado à noite, Miguel, 3 anos, caiu de cama com 39 graus de febre. Mesmo medicado, nada fazia a temperatura baixar. Em meio à pandemia do coronavírus, a família foi, no meio da madrugada, para o hospital. A médica despachou todos de volta.

— Em circunstâncias normais esperamos três dias de febre, mas nesse momento, pensando que era coronavírus, entramos em desespero. A gente queria testar, mas a médica olhou para a gente como se fossemos idiotas. Na segunda-feira, meu marido caiu doente: ficou completamente prostrado, com dor, sem conseguir ficar de pé e foi para a emergência. Testou e deu positivo para influenza A. Aí começamos a correr atrás do Tamiflu, mas é impressionante, o remédio sumiu — conta Ticiana Ayala, mãe de Miguel e de Thomas, de um ano e meio.

Até o final da semana, a família tinha ido quatro vezes ao hospital, e todos estavam doentes: o pai, a mãe, os dois filhos, a babá, a empregada e uma avó. A tal ‘gripinha’ impressionou:

— É muito pesada. Eu tive muita dor de cabeça e dor no corpo, mais do que qualquer gripe que já peguei. Tive que tomar remédio também.

Enquanto o país se preocupa com o novo coronavírus, uma outra doença, já velha conhecida, avança em paralelo. O vírus influenza, da gripe, também oferece riscos e o combate a ele foi ofuscado pela nova Covid-19: o principal tratamento sumiu das farmácias e a disputa pela vacina está enorme.

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O Ministério da Saúde contabilizou 90 casos de influenza A e seis óbitos até o dia 29 de fevereiro, mas o número está muito defasado: só no Rio de Janeiro, segundo a Secretaria de Estado de Saúde, foram 121 casos até a primeira semana de março.

— Estamos em época. A gripe e a Covid-19 são duas doenças que podem concorrer e causar síndrome respiratória aguda grave. Além disso, quando uma pessoa adoece, fica mais vulnerável para pegar outra doença — afirma Tânia Vergara, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia do estado do Rio de Janeiro.

Segundo o Ministério da Saúde, em 2019, foram registrados 3.430 casos de infecção e 796 mortes em decorrência da infecção só por H1N1, uma das cepas do vírua influenza A. Conforme diretriz do ministério, somente casos de gripe grave, caracterizados como Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), independentemente do tipo, são de notificação obrigatória no Brasil. Em 2019, foram registrados 1,6 mil casos de SRAG atribuíveis ao vírus Influenza em SP, e 284 óbitos.

Já nos Estados Unidos, de acordo com o Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC), entre outubro de 2019 e março de 2020, o influenza provocou entre 22 mil e 55 mil mortes no país.

Segundo a infectologista, mesmo o que pensamos ser uma “gripinha” oferece risco.

— Ela é muito forte. As gripes fortes sempre foram assim só que antes a gente não sabia qual era o vírus e não tinha remédio.

Remédio em falta

Embora hoje se saiba qual medicamento seria indicado para tratar a influenza, o oseltamivir, conhecido pelo nome comercial Tamiflu, ele está sumindo das drogarias.

A reportagem esteve em quatro farmácias em busca do Tamiflu. Na Pacheco, o atendente informou que não havia mais o medicamento em nenhuma unidade da rede na zona Sul do Rio de Janeiro. Em outras drogarias de bairro também não havia. Só foi possível encontrar o remédio, a última unidade, em uma unidade da Droga Raia em Copacabana.

A rede Droga Raia confirmou o aumento na procura, mas diz ainda ter estoques para atender quem apresentar receita médica. Porém, “diante do pico na demanda, a disponibilidade futura desse medicamento dependerá da manutenção do fornecimento pelo fabricante”.

Um farmacêutico informou que as pessoas procuram o remédio para se prevenir contra o coronavírus, algo contestado por especialistas.

— O Tamiflu não tem nenhuma ação sobre o novo coronavírus, e até o momento, não temos nenhum medicamento com ação contra coronavírus —afirma o infectologista Leonardo Weissmann, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia — Também não há indicação de tomar o Tamiflu de forma preventiva contra o coronavírus nem contra a própria influenza.

A assessoria de comunicação do Ministério da Saúde, porém, diz que o Tamiflu é, sim, eficaz contra os primeiros sintomas do coronavírus, mas não é um tratamento oficial. A informação não é consenso entre os médicos:

— Não adianta usar Tamiflu para coronavírus, não tem nenhuma ação. Melhorar a imunidade com o Tamiflu também é besteira. Está havendo uma confusão — afirma a infectologista Tânia Vergara.

Fila para vacina

A campanha de vacinação contra a gripe foi adiantada pelo Ministério da Saúde para o dia 23 de março, mas diferentemente dos anos anteriores, ela vai começar pelos idosos e profissionais de saúde, com o objetivo de tirá-los das ruas no auge da pandemia de coronavírus e facilitar o atendimento médico, evitando confusão entre as doenças.

No dia 16 de abril serão vacinados professores, profissionais das forças de segurança e salvamento e doentes crônicos. A partir de 9 de maio, Dia D de vacinação, serão vacinadas as crianças de seis meses a menores de seis anos, pessoas com mais de 55 anos, gestantes, mães no pós-parto (até 45 dias após o parto), população indígena e portadores de condições especiais. A campanha seguirá até o dia 23 de maio.

Com isso, muita gente procurou clínicas particulares de vacinação para adiantar a imunização. Há relatos de filas de até quatro horas ou distribuição de senhas que acabavam em poucas horas.

Tânia Vergara explica que essas vacinas são importadas e agem sobre as principais cepas de vírus que circulam por aqui.

— Mas eu não acho que necessite isso, dá para esperar a época correta. Nenhuma aglomeração é necessária. Filas só vão aumentar o risco de exposição à virose que está entrando, que é o coronavírus — afirma Tânia Vergara. A infectologista espera, que esse ano, as pessoas realmente se vacinem: — O país disponibiliza essa vacina há anos e há anos ela sobra. E não é porque as pessoas não adoecem. A influenza também causa muitas mortes. Tomara que não sobre.

Segundo Luiz Nigri, diretor médico da Kinder, rede de clínicas particulares de vacinação, a procura pela vacina para a gripe, a tetravalente — 2 sorotipos A (H1N1 e H3N2) e 2 sorotipos B — está bem acima do esperado. Ele disse que o estoque inicial vai "durar dias" e que aguarda nova remessa dos laboratórios GSK (Bélgica) e Sanofi Pasteur (França). A vacinação nos postos de saúde, com cepa trivalente, começará no próximo dia 23.

— Compramos uma quantidade considerável das vacinas mas a procura está cinco vezes maior do que esperávamos — disse Nigri, que contou que a rede está distribuindo senha, de 100 a 110, por dia e para este tipo de vacina, para evitar aglomerações em suas unidades.

Mesmo assim, na manhã desta segunda-feira, havia fila na unidade de Ipanema. Em parte porque o serviço de atendimento à domicílio para estra vacina está suspenso. O valor da vacina é R$ 140.

De acordo com Luiz, além de se proteger de mais uma doença respiratória, a ideia é que, vacinado para influenza e em caso de sintomas, o diagnóstico para coronavírus seria facilitado.

A Vaccini, outra rede de clínicas particulares, informou que teve procura dez vezes maior pela vacina da gripe, em relação ao ano passado, e disse que o estoque deve durar até o final desta semana.

A empresa, no momento, fornece a vacina da GSK mas receberá até o final de março da Sanofi Pasteur e da Abbot (Estados Unidos). Para dar conta da demanda, as unidades localizadas em prédios estão funcionando também aos domingos mas os agendamentos em domicílio estão suspensos (é possível apenas fazer agendamento).