Informe sobre cardeal predador sexual assombra reunião do episcopado dos EUA

Catherine MARCIANO
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Cardeal expulso do sacerdócio Edgar Theodore McCarrick, no Vaticano, em 4 de março de 2013
Cardeal expulso do sacerdócio Edgar Theodore McCarrick, no Vaticano, em 4 de março de 2013

O relatório que documenta como um predador sexual - o cardeal americano expulso do sacerdócio Theodore McCarrick - conseguiu fazer uma carreira de prestígio, revela a indiferença da hierarquia católica para com os jovens padres agredidos e é um desastre para a Igreja americana que se reúne nesta segunda-feira (16).

Divulgado na semana passada pela Santa Sé, o relatório de 450 páginas ressoa como uma advertência à Conferência Americana dos Bispos Católicos, que se reunirá por videoconferência até terça-feira.

O documento detalha uma série de denúncias de jovens padres e seminaristas adultos submetidos à violência sexual, crime que vários bispos dos EUA não levaram a sério, nem abriram uma investigação.

"No contexto atual de vigilância extrema, esses bispos seriam afastados", disse à AFP o padre americano James Martin, editorialista da revista jesuíta "América".

"O relatório alerta o episcopado dos Estados Unidos de que sua correspondência pode ser tornada pública no futuro", acrescenta, referindo-se ao fato - inédito - de a Santa Sé ter reproduzido correspondências na íntegra.

O documento também é uma viagem pelo processo de seleção de bispos, uma máquina para evitar escândalos públicos, onde prevalece a defesa da hierarquia sobre a de um padre, ou de um fiel.

Nele, o papa Francisco usa o termo "clericalismo" para denunciar o que é, segundo ele, a primeira causa dos abusos sexuais.

"Recentemente, o movimento MeToo contribuiu para falar de abusos sexuais contra adultos de todas as esferas", apontou o padre alemão Hans Zollner, assessor do papa Francisco para a proteção de menores contra os abusos.

O professor universitário e psicoterapeuta recorda que o novo arsenal legislativo contra os abusos adotado pela Santa Sé há dois anos também afeta os "adultos vulneráveis".

Já Theodore McCarrick, nascido em 1930 e que se tornou bispo em Nova York em 1977, duas vezes promovido em Nova Jersey (em Metuchen, em 1981, e em Newark, em 1986), superou sem problemas as supostas investigações exigidas por cada nomeação.

- Convites para sua cama -

Já havia rumores sobre seu "modus operandi" em Nova Jersey. Ele organizava encontros nos finais de semana em sua casa no litoral com jovens seminaristas, ou padres, vários ao mesmo tempo. O bispo McCarrick então convidava um jovem para sua cama e exigia uma massagem nas costas antes de passar para o contato físico e sexual.

Vários jovens, com medo e intimidados por um homem que poderia prejudicar sua ordenação sacerdotal, denunciariam essas práticas à sua hierarquia nas décadas de 1980 e 1990.

Uma vez consagrado, um deles relata o ocorrido, por exemplo, ao monsenhor Edward Hugues, que está à frente da diocese de Metuchen. O prelado fica vermelho, promete que fará algo, mas não voltará a tocar no assunto.

Esse mesmo bispo receberá outras vítimas, inclusive um brasileiro que afirma ter sido agredido três vezes. O monsenhor lhe teria recomendado perdoar "pelo bem da Igreja".

Vários bispos testemunham a mão de McCarrick pousada, sob a mesa de um restaurante, em um jovem padre visivelmente aterrorizado. Enojados, muitos simplesmente deixam o local.

No início da década de 1990, o prelado também é mencionado em cartas anônimas enviadas ao embaixador do Vaticano, ou a cardeais americanos.

"É sempre a palavra de McCarrick que vence", lamenta James Martin, "horrorizado" por um relatório que mostra os prelados "muito desconfortáveis com questões sexuais e temerosos do poder".

- Queda após denúncia de um menor -

Será preciso esperar a denúncia, em 2017, de uma primeira vítima "menor" à época dos fatos (anos 1970), para afastar o influente cardeal aposentado da Igreja.

"O fato de compartilhar sua cama com homens, em uma dinâmica de poder, não deveria ter sido o suficiente para derrubá-lo?", surpreende-se Martin, que descreve uma "vergonha imensa para a Igreja americana".

O cardeal John O'Connor, arcebispo de Nova York, finalmente enviará uma lista de suspeitas, com ares de escândalo, em 1999, para Roma. A pedido de João Paulo II, quatro bispos são interrogados. Eles confirmam que McCarrick compartilhou sua cama, mas omitem algumas vítimas.

McCarrick foi nomeado arcebispo de Washington em 2000 por decisão pessoal do papa polonês, convencido por uma carta do hábil predador. Este novo erro, no nível mais alto, constitui a revelação mais explosiva.

"Muitas pessoas intervieram na nomeação de McCarrick, advertidos, e escreveram ao papa", conta o padre Zollner, que defende a criação de um "grupo de assessores independentes" que seja, no futuro, "um antídoto saudável para o clericalismo".

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