Cidades e escolas sucateadas ameaçam volta às aulas presenciais no Brasil

Lucas Tomazelli
·4 minuto de leitura
Foto: AP Photo/Leo Correa
Foto: AP Photo/Leo Correa

Com o Brasil vivendo o ápice da pandemia do novo coronavírus, o tema da volta às aulas presenciais é um dos maiores dilemas enfrentados no país. Um grande número de cidades e escolas públicas brasileiras sofre, de maneira crônica, com um entrave que impossibilita a realização de protocolos sanitários de maneira correta: a falta de infraestrutura. 

Em entrevista ao Yahoo Notícias!, professores que atuam nas redes municipal e estadual de municípios localizados na Grande Vitória, no Espírito Santo, contaram como a dinâmica local e a falta de condições nas escolas geram temor nos profissionais do setor diante de uma iminente volta às aulas de maneira presencial. 

Leia também

Carlos***, professor da rede municipal de Vila Velha, denuncia a desorganização do município nos dias que antecedem o retorno das aulas, que deve acontecer ainda em março.

"Para começar, não recebemos equipamentos de proteção. Poucas escolas entregaram apenas duas máscaras aos profissionais. Há informações extraoficiais de que, mesmo com verba, as instituições não vão investir nesse quesito. Sabemos de casos em que escolas estão comprando material sem ajuda da prefeitura, algumas tentando reformar banheiro às pressas, instalando pias novas, comprando tapetes, entre outras coisas que seriam básicas", queixa-se o docente.

No início de fevereiro, o site "A Gazeta" destacou que uma escola municipal de Vila Velha tem salas de aula sem telhado há mais de um ano, o que está deixando os pais apreensivos com o retorno presencial. A gestão municipal, por sua vez, garante que os alunos que estiverem em escolas sem condições serão realocados em outro espaço que oferecerá "condições seguras" a profissionais da educação, alunos e pais, sem dar mais detalhes sobre onde seriam esses locais. 

Carlos concorda que Vila Velha tem um número muito alto de escolas sem condições de promover uma volta minimamente segura. "Muitas escolas daqui têm problemas desde a sua fundação, já que foram construídas em locais adaptados. Já não havia estrutura antes da pandemia. Algumas escolas não têm ventilador e nem parte elétrica adequadas. Outras não possuem pessoal suficiente, em algumas faltam até merendeiras", relata o professor que teme o que chama de uma "tragédia anunciada".

Professores de outros municípios reclamam também da falta de transparência das autoridades locais. Vanessa***, docente que atua em Guarapari e Vila Velha, diz que boa parte dos professores ficou sabendo de detalhes da volta às aulas via imprensa.

"Ficamos sabendo dos detalhes através da mídia. Em Vila Velha nos foi informado, mas em Guarapari ficamos sabendo pelo jornal. Ninguém nos consultou se achamos viável ou não", lamenta a professora. 

Falta de estrutura e apoio aos professores

Foto: Bruna Prado/Getty Images
Foto: Bruna Prado/Getty Images

Tanto Carlos como Vanessa se queixam que, durante toda a pandemia, não houve apoio das gestões municipais durante o ensino remoto, alegando que tiveram que usar seus próprios equipamentos e recursos durante o período em que trabalharam de suas casas.

Na véspera do retorno presencial, outra questão amedronta os professores: a forma de locomoção na região da Grande Vitória. 

"Grande parte dos professores trabalham em mais de uma escola. Alguns, como eu, precisam de três ônibus para ir e três para voltar. Mesmo em horário de picos, há pessoas sem máscaras nesses coletivos, que também são utilizados amplamente pelos alunos", lembra o professor. 

Vanessa relata o sentimento de medo generalizado entre os docentes que atuam na região. Com o país passando pelo auge da pandemia, muitos se sentem com medo de voltar a atuar nessas condições.

"Estou em casa há praticamente um ano, me cuidando. Sinto por mim e pelos meus colegas com esse retorno. Lamento porque não podemos gritar publicamente sobre a questão. Há um desespero geral, não sabemos o que vamos encontrar nesse retorno". Carlos compartilha da sensação da colega de profissão.

"Tenho visto professores com um nível de stress e medo muito grande. Não há como o professor zelar por sua segurança. Recentemente, passei em frente a uma escola estadual [que já retomou as atividades] e havia alunos aglomerados, esperando os portões abrir, todos sem máscara", lamenta o professor. 

Questionada sobre as condições das escolas dos municípios da Grande Vitória, a Secretaria de Educação capixaba afirmou, em nota, que "as redes municipais de ensino possuem autonomia para a tomada de decisões, seguindo os protocolos sanitários estabelecidos". O órgão alega, desde o início do ano, ter promovido diálogo com "objetivo de orientar e alinhar" o retorno das atividades presenciais.

***Nomes fictícios usados à pedido dos docentes, que solicitaram anonimato