Inglaterra entra em segundo confinamento repleto de incerteza

Anna CUENCA
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Boris Johnson, de máscara, sai da residência oficial do número 10 de Downing Street em 4 de novembro de 2020
Boris Johnson, de máscara, sai da residência oficial do número 10 de Downing Street em 4 de novembro de 2020

"A incerteza é o mais preocupante", afirma Juliana Afanasjeva, gerente de uma loja de material artístico em Londres, obrigada a fechar as portas, assim como os estabelecimentos comerciais considerados não essenciais da Inglaterra no início, a partir desta quinta-feira (5), do segundo confinamento nacional contra o coronavírus.

Para tranquilizar trabalhadores e empresas, o ministro das Finanças, Rishi Sunak, anunciou a prorrogação  durante cinco meses do auxílio governamental para proteger o emprego.

Desta maneira, até o fim de março, o governo pagará 80% do salário - até 2.500 libras por mês - correspondente às horas não trabalhadas dos funcionários que não forem demitidos, apesar da queda da atividade.

"Estender o desemprego técnico e aumentar nosso apoio aos autônomos protegerá milhões de empregos e dará às pessoas e às empresas a certeza que precisam durante este inverno difícil", afirmou Sunak no Parlamento.

O Banco da Inglaterra (BoE) também contribuiu e anunciou nesta quinta-feira uma ampliação de 150 bilhões de libras (US$ 195 bilhões) do programa de ativos, que desta maneira alcança £ 895 bilhões.

- Escolas e universidades abertas -

A princípio até 2 de dezembro, os 56 milhões de habitantes da Inglaterra serão autorizados a sair de casa apenas para comprar comida, comparecer ao médico, praticar exercícios, ou seguir até o trabalho, quando não for possível adotar o "home office". 

Todos os estabelecimentos comerciais não essenciais e locais de lazer foram obrigados a fechar as portas, mas, ao contrário do primeiro confinamento, creches, escolas e universidades permanecem abertas.

País mais afetado da Europa pela pandemia, o Reino Unido registra quase 48.000 mortes provocadas pela covid-19: na quarta-feira, foram 492 vítimas fatais, o maior balanço diário desde 12 de maio.

Depois de resistir à ideia de um segundo confinamento nacional, o primeiro-ministro Boris Johnson anunciou no sábado passado que o Reino Unido seguiria os passos de países vizinhos, como França e Irlanda, com a esperança de poder permitir as reuniões das famílias durante o Natal.

Em um esforço para tranquilizar a população, Johnson insistiu na quarta-feira em que as medidas terão tempo limitado. 

"Não é que escolhemos acabar com elas, e sim que expiram legalmente", disse ele no Parlamento.

"O que quer que façamos a partir de 2 de dezembro, vamos pedir um novo mandato e uma nova votação desta Câmara", completou, insistindo em sua intenção de retornar no início de dezembro ao sistema de restrições locais.

Alguns ministros britânicos afirmam, porém, que não é possível descartar a possibilidade de prorrogação do confinamento se, após as quatro primeiras semanas, o nível de infecções continuar muito elevado.

"Não podemos descartar nada nesta crise", disse o ministro da Justiça, Robert Buckland, ao canal Sky News.

Além da angústia psicológica dos que temem o isolamento, sem a possibilidade de encontrar parentes e amigos, este quadro provoca grande preocupação nas empresas e nos trabalhadores.

Cercada de produtos de pintura antes do fechamento, Juliana Afanasjeva questionou: "O que realmente vai acontecer depois? Vai acontecer uma transição como depois do confinamento anterior (...) ou vamos realmente manter nossos trabalhos?".

"A incerteza é o mais preocupante", disse à AFP.

Instaurado em 23 de março, o primeiro confinamento foi flexibilizado progressivamente, por setores, de junho até o final de julho.

Com a atividade reduzida, muitos negócios não conseguiram decolar, enquanto várias áreas, especialmente no norte do país, viram-se rapidamente sob crescentes restrições locais, devido ao aumento de casos.

Denunciando as graves consequências que um segundo confinamento terá para uma economia já muito afetada pelo primeiro, na quarta-feira, 34 membros do Partido Conservador de Johnson foram contrários à medida, e 18 optaram pela abstenção, incluindo a ex-primeira-ministra Theresa May.

A decisão acabou sendo aprovada por 513 votos a 37, graças ao apoio de grande parte da oposição. Seu líder, o trabalhista Keir Starmer, disse que seria uma "loucura" acabar com o confinamento em uma data fixa, se os casos não retrocederem o suficiente, o que aumentou o temor de um confronto em uma próxima votação.

bur-acc/mar/fp/tt