Iniciativas criativas ajudam pessoas em situação de vulnerabilidade e risco durante pandemia

Por Alana Ambrosio

Em tempos difíceis, a ajuda vem de todos os lugares. Diversas pessoas viraram aliadas ao fornecer mantimentos e insumos para quem mais precisa durante a pandemia do novo coronavírus. A sociedade civil tem sido responsável por criativas iniciativas assistenciais colocadas em prática em várias cidades brasileiras.

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Há pouco mais de três semanas, Francisca Maria Carnevalli trocou, aos 63 anos, o artesanato de bonecas de pano que fazia por hobby para costurar máscaras de tecido para doação.

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“Eu senti no coração a necessidade de fazer alguma coisa, vi as pessoas preocupadas porque não estavam encontrando máscaras para comprar e senti tocada pra fazer o quanto eu pudesse nesse período difícil pra todos. No começo pensei em fazer 100, agora já foram mais de 500!”

Todos os acessórios são doados para asilos e igrejas próximas da onde mora, no Jardim Santa Adélia, bairro localizado na zona leste de São Paulo. As máscaras caseiras vão também para jornalistas, amigos da filha dela, que continuam indo às redações.

Há pouco mais de três semanas, Francisca Maria Carnevalli trocou, aos 63 anos, o artesanato de bonecas de pano que fazia por hobby para costurar máscaras de tecido para doação (Arquivo pessoal)

Dona Francisca até perdeu as contas de quantos metros de tecido já foram usados. Nenhum foi comprado durante a pandemia, todos estavam guardados em casa, acumulados ao longo dos anos - e carregam as mais variadas cores e estampas, desde flores até listras e animaizinhos.

A cozinha foi adaptada para acomodar a máquina de costura. A música a acompanha quando o marido e o filho não estão por perto. Se ela tiver companhia, puxa os dois para ajudar.

Cada máscara leva menos de dez minutos para ficar pronta, mas a demanda é tanta que Francisca já chegou a passar doze horas seguidas empenhada na tarefa. Elas são feitas de tecido 100% algodão, forro de TNT (tecido-não-tecido) e elásticos. A manutenção é simples, basta lavar e reutilizar.

“Dez anos atrás eu comecei a fazer artesanato para acompanhar uma amiga que estava em depressão. Desde então eu nunca parei. E agora com as máscaras é muito legal e gratificante, estou muito feliz em ter tomado essa atitude, tem bastante gente precisando. Às vezes oferecem pagamento por elas, mas eu digo que não, só doação!”

Impressão solidária

Para garantir que o processo de produção das máscaras de PETG para profissionais de saúde seja bem feito, os amigos se revezam até de madrugada para supervisionar a impressão (Arquivo pessoal)

A vontade de ajudar também surgiu no publicitário Aroldo Junior e dois amigos. Eles têm quatro impressoras 3D e passaram a fabricar máscaras de PETG para profissionais de saúde. O material é uma espécie de plástico transparente produzido com resina, semelhante às garrafas pet.

Até agora cerca de 1.500 “face shields” foram feitas e doadas para hospitais e clínicas de saúde. A princípio os equipamentos eram custeados com o dinheiro próprio do trio. Mas, com o aumento da demanda, passaram a pedir doações para conseguir sustentar a elaboração. Eles criaram a campanha “Juntos Somos Mais Fortes”:

“Com essa ação nós passamos a ver como os profissionais de saúde estavam carentes desse tipo de equipamento de proteção, teve gente que até chorou agradecendo. Somos pessoas ajudando pessoas. E só vamos parar quando não tiver mais dinheiro, quando for impossível”, promete Aroldo.

Para garantir que o processo de produção seja bem feito, os amigos se revezam até de madrugada para supervisionar a impressão. Cada máscara leva maisou menos duas horas para ser feita. O suporte que vai na cabeça é feito na impressora 3D com filamentos de plástico. A isso é juntada a chapa de PETG e um elástico para prender o equipamento na nuca. Essa montagem toda é feita por amigos e familiares do grupo.

“Se para algumas pessoas é difícil entender a importância desse equipamento, vamos tentar ajudar. Imagine em uma partida de futebol entrar em campo sem chuteira, o goleiro sem luvas, imagine um atleta sem um preparador à altura do seu talento.”

Cozinha e limpeza com afeto

Karina trabalha com touca, avental, álcool em gel na bancada e tem feito dezenas de marmitas por dia (Arquivo pessoal)

A cozinheira Karina Martin está trabalhando como nunca. De casa, monta dezenas de marmitas por dia. O menu leva grãos, legumes, uma mistura com carne ou frango e um saboroso molho, receita de família:

“Eu uso cenoura, batata, mandioca, faço tudo bem gostoso molho, para dar sustância. Comida também é afeto, é gratificante saber que estão comendo minha receita. Faço da mesma forma que faço em casa, para minha família, fica igualzinha.”

Ela já estava acostumada a cozinhar as quentinhas. Mas, agora, o alimento está indo para pessoas em situação de vulnerabilidade. As doações fazem parte de uma ação da Eats for You, aplicativo de delivery de comida familiar. Até agora quase 5.000 refeições já foram distribuídas em pontos carentes de São Paulo ou entregues para entidades, organizações e igrejas.

A ação acaba ajudando também os cozinheiros da plataforma a manter a renda, ainda que menor.

“Todos os alimentos estão mais caros. Eu fiquei impressionada com o feijão, quase dobrou o valor! Estou fazendo compras uma, duas vezes no máximo por semana para evitar sair de casa. É muito legal quando mandam fotos das pessoas comendo o que fiz”.

Todo o processo é minucioso. Karina trabalha com touca, avental, álcool em gel na bancada. E, na hora de embalar, higieniza todos os recipientes, etiqueta com seu nome, data e horário da fabricação e aguarda a retirada para entrega.

A comida é colocada em uma caixa de isopor.

Outra atitude de solidariedade com os mais vulneráveis consiste em fazer com que aqueles sem pia ou acesso a álcool em gel consigam se proteger do coronavírus.

Uma campanha nas redes sociais está ensinando como montar um kit de água e sabão para ajudar quem vive na rua. Um tutorial de internet feito pelo fundador da ONG Pimp My Carroça, o grafiteiro Mundano, explica o passo a passo:

“É necessário pegar duas garrafas de plástico, encher uma delas com água e a outra com uma mistura de água e sabão líquido ou detergente. Depois, fazer um furo em cada tampa para evitar o contato na hora do uso e amarrar os recipientes com uma corda para que não se separem. Depois, é só identificar os frascos e pronto.”

Qualquer um pode fazer, distribuir ou pendurar os kits em algum lugar público estratégico, como árvores e postes.

A tatuadora Palloma Botelho viu as instruções para montar o kit na internet e resolveu ajudar a população de rua no Rio de Janeiro.

“Entreguei em praças da zona norte, no subúrbio do Rio. Algumas pessoas se espantaram, pois nem sequer sabiam o que estava acontecendo. Eu conversei com alguns, orientei a melhor forma de higienização das mãos... ficaram bastante preocupados em manter o mínimo da higiene possível e ficaram bem gratos. A gente vê a galera realmente preocupada e tentando fazer o que pode pra não ser vetor de transmissão. Eles já são super expostos, não conseguem manter a quarentena. É colocar a mão na massa e fazer!”