Inimigos saíram como entraram da festa de Moraes no TSE: pintados para guerra

BRASILIA, BRAZIL - AUGUST 16: New president of the Superior Electoral Court Alexandre de Moraes is seen after his Inauguration ceremony as the new president of the Superior Electoral Court in Brasilia, Brazil on August 16, 2022. (Photo by Mateus Bonomi/Anadolu Agency via Getty Images)
Alexandre de Moraes durante cerimônia de posse como novo presidente do TSE. Foto: Mateus Bonomi/Anadolu Agency (via Getty Images)

A cerimônia de posse do ministro Alexandre de Moraes no Tribunal Superior Eleitoral, na noite de terça-feira (16/8), tinha tudo para se tornar, e se tornou, uma grande reunião de familiares e desafetos que se encontraram pela primeira vez após romperem relações por conta de ofensas e discussões acaloradas sobre política.

A diferença é que os integrantes do grupo da família eram sujeitos e objetos da briga.

Os convidados invertiam ali a trama do poema de Carlos Drummond de Andrade. Dilma odiava Michel, que mal falava com Lula, que não olhou para Jair, que foi provocado por Alexandre, que já foi chamado de “canalha” pelo presidente.

No meio do caminho havia José, não o do outro poema, mas o Sarney, estrategicamente posicionado entre as cadeiras da ex-presidenta e seu antigo vice para evitar que os assentos de convertessem em armas de destruição em massa.

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Pela descrição de quem esteve no salão, a festa se resumiu a um episódio em versão vida real da série “Succession”, daqueles em que o espectador passa o capítulo inteiro com o dente trincado e frio na barriga ao ver inimigos declarados cara a cara em um evento social. Não deve ser fácil estender a mão a quem quer sua morte e fingir alguma cordialidade contida num desejo protocolar de boa noite.

O único ali que parecia disposto a fazer o papel de tio alegre que tenta dispersar a tensão botando pra tocar “Só pra contrariar” era o ex-presidente Lula, que posou sorridente para fotos e não deixou de cumprimentar nem o ministro da Economia que outro dia mesmo acusou de nunca ter visto um pobre na vida.

Não teve meio sorriso ali que não serviu como declaração de guerra, a começar pelos aplausos efusivos da plateia quando o dono da festa atacou o discurso de ódio, as fake news, defendeu a lisura do processo eleitoral e citou os riscos ao Estado democrático de Direito.

Os riscos estavam presentes em carne, osso e cara amarrada no salão. Um deles sentou-se ao lado do anfitrião. Outro, um vereador licenciado responsável por espalhar ódio e lorotas pelas redes, passou o evento todo com cara de quem vai sacar a arma a qualquer instante e promover uma carnificina. Pai e filho foram um dos poucos que se negaram a aplaudir o discurso do anfitrião.

Era como mostrar o dedo do meio enquanto todos cantam parabéns ao aniversariante.

A reunião familiar que poderia servir para aparar arestas e fechar feridas dos últimos anos de sopapos em público só serviu para acirrar as tensões.

Ninguém acendeu o fósforo, mas o cheiro de gasolina espalhada no recinto, esta que o presidente se gaba de ter conseguido baixar os preços no muque, chegou às casas e às narinas dos brasileiros e brasileiras em todo o país. Quem foi chamado de golpista segue não olhando na cara de quem tomou seu cetro. Quem foi traída não cumprimentou o algoz. E quem foi ameaçado de porrada pelos grupos inimigos não perdeu a chance de mostrar que sabe como revidar.

A simples presença de parte do clã Bolsonaro ao evento foi lida, no dia em que o presidente aceitou comparecer in loco à cerimônia, como um cessar-fogo. Balela.

O rosto pintado para a guerra apresentado por Jair Bolsonaro e seu pitbull, alvo preferencial dos recados e inquéritos de Alexandre de Moraes, era um sinal de que eles não tinham medo de cara feia. E os aplausos de quem sentou frente a frente com o inimigo revelou que todos ali ainda estão enrolando os dardos.

Bolsonaro, a princípio, saiu mal na foto ao escancarar como se comporta fora do cercadinho e sua zona de conforto —em contraste com a espontaneidade de seu adversário na festa do inimigo. Mas era justamente isso que ele parecia buscar.

Primeiro, posando para as redes como presidente que não teme nem se dobra a quem levanta a voz.

Depois, reforçado a imagem de outsider, que comparece mas não se coça nem se roça nem se vicia ao lado dos inimigos –estes lançados, pelo discurso de sua campanha, a um mesmo balaio onde se confraternizam rivais políticos e autoridades judiciais.

Bolsonaro, que iniciou o dia vestido de Messias salvo da morte por obra divina em Juiz de Fora (MG), onde foi esfaqueado há quatro anos, parecia evocar uma outra passagem bíblica em uma festa onde foi convidado e só compareceu por educação: o salmo em que o convidado ungido pede para que seja preparada a ele uma mesa na presença dos inimigos.

Cada um obteve a foto que queria para apresentar ao público.

Quem não gosta do presidente ganhou mais razão para não gostar.

Quem gosta tem tudo para vibrar com sua audácia em encarar os inimigos declarados e não demonstrar sinal de armistício.

Ninguém saiu dali em missão de paz.