Inquérito sobre a morte da menina Ágatha conclui que não houve troca de tiros

Rafael Nascimento de Souza

O inquérito da Polícia Civil que investigou a morte da menina Ágatha Félix, de 8 anos, revelou que não houve tiroteio no Complexo do Alemão, na noite do dia 20 de setembro, ao contrário do que informaram os policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Fazendinha. Além disso, a Delegacia de Homicídios (DH) da Capital nega que os policiais militares tivessem tentado recolher fragmento de bala do corpo da criança no Hospital estadual Getúlio Vargas, na Penha, como chegou a ser cogitado na época. 

— Até a moto (com os integrantes) passar, não houve relato de tiros. As testemunhas disseram isso e provamos com as perícias — disse o delegado Marcus Drucker, delegado adjunto da DH, que investigou o caso. 

Drucker afirmou que uma pessoa viu quando a dupla passava em alta velocidade e estava segurando uma esquadria de alumínio. As investigações foram concluídas nesta segunda-feira e e inquérito será encaminhado ao Ministério Público do Rio na próxima quinta-feira.

 — Isso não impede que ele (o PM que atirou) seja preso futuramente. Neste momento, ele se apresentou aqui na DH todas as vezes que foi chamado, tem residência fixa e não corre o risco de atrapalhar as investigações. Pedimos o seu afastamento das funções — disse o delegado Daniel Rosa, titular da DH.

Segundo Daniel Rosa, a família da menina Ágatha foi informada do fim do inquérito nesta segunda-feira, ao contrário do que disse a defesa da familia. No começo da manhã desta terça-feira, advogado Rodrigo Mondego, da Comissão de Direitos Humanos da OAB, disse que aos familiares e a defesa não estavam cientes do fim das investigações.

— Não procede a afirmação do delegado. Os investigadores deram o compromisso de dar acesso ao inquérito. No entanto, no dia que fomos para pegar eles falaram que estava no MP. Pelo visto, mentiram e o inquérito sempre esteve lá. O que soubemos é pela imprensa — afirmou o defensor.

De acordo com a DH, o policial tinha a intenção de matar quando atirou nos motociclistas e que não houve ameaça de terceiros contra o cabo.

De acordo com a DH, o policial tinha a intenção de matar quando atirou nos motociclistas e que não houve ameaça de terceiros contra o cabo.

A DH não quis divulgar o nome do cabo. Perguntado se por corporativismo a instituição não iria divulgar o nome, o delegado Daniel Rosa afirmou que não irá divulgar o nome porque o inquérito está sob sigilo.

 — Ficou provado que o tiro partiu do PM e que não houve tiros da motociclista como ele alega. Se ele mentiu ou não, essa foi a tese dele. O PM pode ter achado que houve um tiro e revidou — disse o delegado Marcus Drucker. 

Segundo o inquérito, a bala ricocheteou duas vezes — uma vez no poste, uma segunda na tampa do motor da Kombi e após isso acertou a criança.

O inquérito Partiu da arma de um cabo da Polícia Militar o disparo que, dois meses atrás, provocou a morte da estudante Ágatha Vitória Sales Félix, de 8 anos, no Morro da Fazendinha, no Complexo do Alemão. A informação consta do inquérito da Polícia Civil sobre o caso, que deve ser enviado nesta terça-feira à Justiça. De acordo com o documento, houve um “erro de execução”: o objetivo não era atingir a criança, mas dar um “tiro de advertência” para forçar a parada de dois homens que estavam em uma motocicleta.

A dupla teria fugido de uma blitz no complexo. Em seguida, o PM, lotado na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Fazendinha, efetuou o disparo. Segundo relatos de testemunhas incluídos no inquérito, o cabo estava sob forte tensão devido à morte de um colega três dias antes e, por isso, pode ter confundido uma esquadria de alumínio que o garupa segurava com uma arma.

A tragédia ocorreu no início da noite de 20 de setembro. Onze dias depois, o policial militar participou da reprodução simulada da morte de Ágatha no mesmo local, apesar de parte de seus colegas terem se recusado a fazê-lo. Segundo uma fonte ligada à investigação, “ele está muito mal e diz o tempo todo que que não queria acertar a menina”.

Um relatório do Instituto de Criminalista Carlos Éboli (ICCE), entregue à Delegacia de Homicídios da capital (DH), apontou que um fragmento de projétil encontrado no corpo de Ágatha tinha ranhuras idênticas a do cano do fuzil usado pelo PM. Ainda de acordo com o laudo, a bala atingiu primeiramente um poste. Foi um estilhaço que provocou a morte da menina, perfurando suas costas e saindo pelo tórax. A criança chegou a ser levada para a Unidade de Pronto-atendimento do Morro do Alemão, de onde foi transferida para a emergência do Hospital estadual Getúlio Vargas, na Penha.