Inscrição para concurso militar cresce com desemprego em alta

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***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 30.09.2020 - Pessoas olham para anúncios de vagas de emprego na Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 30.09.2020 - Pessoas olham para anúncios de vagas de emprego na Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo. (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - A evolução no número de inscritos nos principais concursos do Exército mostra forte correlação com a alta do desemprego no Brasil.

As inscrições para a EsPCEx (Escola de Preparação dos Cadetes do Exército) e para a ESA (Escola de Sargento das Armas) deram um salto em 2016, quando o percentual de pessoas desocupadas ultrapassou a barreira dos 10%, segundo dados do IBGE. A taxa terminou 2020 em 14,2%.

O ano de 2016 coincide com a permissão para que mulheres concorram nessas provas. Mas, mesmo excluindo as inscrições femininas, é possível verificar um forte aumento.

A EsPCEx teve 17.633 jovens inscritos em 2015 e 29.771 no ano seguinte, dos quais 22.064 homens. Foram mais de 40 mil entre 2017 e 2020.

Na ESA, em 2001, foram 113 mil homens disputando 1.480 vagas. O número caiu para 37.055 em 2006 e voltou a subir em 2019, para 118 mil interessados --85 mil para o concurso exclusivo masculino.

"Quando a gente entra em crise, a procura aumenta bastante. Os jovens procuram a estabilidade, bom salário, fora os benefícios", diz Leonardo Chucrute, coordenador do curso preparatório Aprovação Virtual. Estudar no Exército garante de imediato uma ajuda de custo.

Na EsPCEx e na ESA, a ajuda é de R$ 1.199. O curso de um ano na EsPCEx é a porta de entrada para a Aman, onde o jovem recebe soldo de R$ 1.334 até se tornar um oficial, com salário inicial na casa dos R$ 6.000.

A internet contribui para a procura, diz Gustavo Klauck, coordenador da Academia Pré-Militar, outro curso preparatório: "Tenho alunos até em aldeias indígenas". Seu foca no ensino a distância.

O alistamento militar obrigatório é também um meio de entrada. Alan Amaral, 28, que há dez anos não tinha planos de estudo ou trabalho, viu no Exército uma oportunidade.

"Acho que muita gente entra por isso. Começa a ganhar seu dinheiro com 17 e 18 anos, tem uma independência. Alguns têm um sonho, mas a maioria entra por isso", disse ele.

Hoje, um recruta recebe soldo de R$ 1.078. Amaral foi selecionado para a Brigada Paraquedista e trabalhou um ano e meio na ocupação do Complexo do Alemão, no Rio.

Ficou três anos no Exército. Deixou a Força por decisão própria, cursou administração e hoje estuda gestão financeira enquanto trabalha como corretor de imóveis.

"Absorve coisas ruins do militarismo, mas o amadurecimento também é tremendo. É muita disciplina. Não pode chegar cinco minutos atrasado, não pode estar com a cara de ontem, indisposto. Amadurece bastante", diz.

O recruta selecionado no alistamento obrigatório pode permanecer por até oito anos no Exército. Mas pode ser dispensado por indisponibilidade de vagas.

Matheus Mendes, 23, dispensado três anos após se alistar, estuda para a prova da ESA para retornar aos quartéis.

"Sempre gostei por causa da disciplina, assistindo vídeos no YouTube. Achava muito maneiro as formaturas", diz ele, morador de Japeri, região metropolitana do Rio.

Filho de doméstica e autônomo, vê no Exército uma oportunidade de carreira estável, mais que entre os civis. IN