A insegurança no deslocamento pela cidade: pesquisa mostra que 77% das mulheres têm medo de sofrer algum violência na rua

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Sair de casa é, para muitas mulheres, um momento de tensão. No ônibus ou na calçada, no táxi ou na padaria, são muitos os espaços em que, durante o seu deslocamento pela cidade, mulheres são assediadas e importunadas diariamente. A pesquisa "Percepções sobre segurança das mulheres nos deslocamentos pela cidade", realizada pelo Instituto Patrícia Galvão e Instituto Locomotiva, com apoio da Uber e apoio técnico e institucional da ONU Mulheres, e divuldada em outubro de 2021, mostrou que não é só o novo coronavírus que faz com que 77% das mulheres entrevistadas digam sentir medo ao sair de casa. E não é sem motivo: desconsiderando acidentes de trânsito e atropelamento, 81% das mulheres ouvidas já passaram por ao menos uma situação de violência em seus deslocamentos. As duas mais citadas no levantamento foram o recebimento de olhares insistentes e cantadas inconvenientes (69%) e importunação e assédio sexual (36%).

- É um medo que tem justificativa. A insegurança faz parte do cotidiano das mulheres há muito tempo, e elas sofrem muito mais que os homens, como mostra a pesquisa. E o ambiente onde a violência se dá é muito difícil, naquele transporte lotado com uns colados aos outros, no deslocamento para o trabalh... As mulheres ficam traumatizadas, muitas vezes, mas o índice de denúncias é baixíssimo. Numa delegacia, se ela vai fazer a denúncia de uma importunação, nem é levada a sério - aponta Jacira Melo, diretora do Instituto Patrícia Galvão.

Entre 30 de julho e 10 de agosto, 2.017 homens e mulheres que saem ao menos uma vez por semana às ruas foram entrevistados. Apenas 16% das pessoas que circulam pela cidade disseram se sentir plenamente seguras em seus deslocamentos. Ao se observarem as respostas dadas por representantes de diferentes grupos sociais, percebe-se que a sensação de insegurança não é a mesma para todos: pessoas con deficiência, pessoas de baixa renda, pessoas negras, população LGBTQIA+ e, sobretudo, mulheres (79%) estão entre os grupos percebidos como mais vulneráveis.

Para entender as razões pelas quais as mulheres se sentem mais desprotegidas, foram mapeados deslocamentos e violências vivenciadas nos trajetos. Espaços públicos são mais perigosos para mulheres que para homens e meios de transportec como ônibus (45%) e trem (43%) são os que menos transmitem segurança às suas usuárias.No entanto, a reação ainda é tímida, e o constragimento, enorme: 24% das mulheres ouvidas dizem que não contaram a ninguém situações de violência vividas, embora 2/3 delas relatarem que mudaram seu comportamento após o ocorrido, acrescentando "cuidados" a uma rotina já repleta de atenções: 96% das mulheers ouvidas evitam passar por locais desertos e escuros; 92% evitam sair à noite, 87% escolhem o lugar em que vai se sentar no transporte coletivo pensando em sua segurança, 82% evitam usar certos tipos de roupa ou acessórios, e por aí vai.

- É um ambiente hostil e pouco acolhedor para as mulheres: falta iluminação nas ruas, há a ausência de policiamento, as ruas ficam desertas. O horário de verão é um terror para muitas, que saem para trabalhar no escuro. E, em geral, as vítimas não encontram canais acessíveis para a denúncia. É preciso desnaturalizar esta violência sofrida cotidianamente pelas mulheres, isso é inaceitável e demanda a implementação de políticas efetivas de segurança pública, além de ações de zeladoria mais frequentes nas ruas. Numa outra dimensão, é preciso desconstruir o comportamento masculino, constrangê-lo a partir de campanhas informativas e educativas - conclui a especialista.

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