Inspetor da Polícia Civil condenado por chefiar milícia disputava poder com Ecko

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Um inspetor condenado por chefiar uma milícia da Zona Oeste do Rio usou o aparato da Polícia Civil para enfraquecer rivais e, assim, garantir o domínio de uma comunidade. Rafael Luz Souza, o Pulgão, cumpre pena de 15 anos de prisão por sua atuação à frente do bando que controla a Carobinha, em Campo Grande — única favela do bairro que não pertence ao maior grupo paramilitar do estado. A quadrilha inimiga foi chefiado por Wellington da Silva Braga, o Ecko, até o último dia 12 de junho, quando ele, já capturado, acabou sendo morto numa operação ao tentar desarmar um agente, segundo relatos oficiais.

Pulgão e Ecko eram desafetos e disputavam a tiros o controle do bairro. Em depoimento à Justiça, o primeiro contou que, ao longo de quatro anos, atuou como colaborador de duas delegacias especializadas, passando informações que levaram seus rivais à prisão ou à morte — e, de quebra, abriram brecha para o crescimento de sua milícia.

O policial afirmou, durante relato na 33ª Vara Criminal do Rio, que, como é “nascido e criado” em Campo Grande, sempre teve acesso a dados sobre a milícia de Ecko. Pulgão relatou que, em 2014, um ano após se formar na Academia de Polícia Civil, foi contatado por dois agentes da Delegacia de Homicídios, que pediram “ajuda sobre informações a respeito da milícia”. Passou, então, a colaborar com a dupla, mesmo sem estar lotado na especializada.

De acordo com Pulgão, graças à sua colaboração, “as prisões começaram a aparecer”, o que levou um dos policiais que o tinham como fonte a ser promovido. O agente passou a trabalhar na Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco/IE), unidade responsável pela investigação de milícias.

O colaborador também disse que participou, mesmo sem estar lotado na Draco/IE, da operação da especializada que terminou, em abril de 2017, com a morte de Carlos Alexandre da Silva Braga, o Carlinhos Três Pontes, antecessor do irmão Ecko no comando da milícia. Mas, segundo Pulgão, sua atuação “vazou”. No final de seu depoimento, afirma que teve a cabeça colocada a prêmio. “Valia R$ 500 mil”, completou.

O inspetor foi preso em julho de 2018, ao ser flagrado por agentes da Corregedoria da Polícia Civil saindo de uma boate, na Barra da Tijuca, com cinco fuzis e uma metralhadora antiérea. Também foram presos o ex-PM Antônio Carlos de Sousa Filho, o ex-armeiro do Exército Célio Palma Junior e Weslley Rangel Santos, que já havia respondido a processos por integrar milícias.

Pulgão disse aos agentes que “estava aliviado” por ter sido capturado pela corregedoria, já que tinha o receio de cair nas mãos de Ecko.

Ao longo do depoimento, Pulgão negou integrar a milícia da Carobinha, mas a investigação que culminou com sua prisão reuniu diversas provas de seu envolvimento com a quadrilha. Uma delas é um áudio gravado por um homem que delatou policiais civis ligados a um esquema de extorsão de dinheiro na Zona Oeste.

Na conversa, o delator afirma que Pulgão lhe ofereceu trabalho na milícia da Carobinha: “Ele falou comigo: ‘Tem coragem de bancar lá para mim? Quero colocar um negocinho ali, uma situação’. Isso só dá problema, não dá dinheiro, 400 ou 500 por semana para ficar lá batendo cabeça”.

Durante o diálogo, o homem ainda afirma que Pulgão é “maluco” por se envolver com a milícia mesmo sendo policial civil, pois estaria correndo um grande risco.

O policial foi condenado em 2019, mas recorreu da sentença. No ano passado, a 2ª Câmara Criminal manteve a decisão.

Outras duas acusações

Pulgão figura como réu em mais dois processos. Num deles, responde pelo homicídio de Wagner Luís Ribeiro Adão, em 9 de novembro de 2017. Segundo o Ministério Público, o policial civil ordenou o assassinato “por vingança, pelo fato de a vítima não ter aceitado proposta para fazer parte da milícia da qual é líder”. Na época do crime, o inspetor ajudava a Draco/IE a prender seus rivais na Zona Oeste.

No outro processo, Pulgão é acusado de integrar uma quadrilha de policiais civis especializada em “botes” — abordagens feitas com o objetivo de extorquir dinheiro.

O Ministério Público denunciou que Pulgão colocava a estrutura da Polícia Civil a serviço de seu bando: “Existem fortes indícios de que Rafael Luz Souza faça parte da milícia da Carobinha e que, devido a esta ligação, estivesse usando viatura da 34ª DP para ‘atravessar’ arma para aquela milícia”.

Mesmo preso na Cadeia Pública Constantino Cokotós, em Niterói, Pulgão segue recebendo salários. Em junho, ganhou R$ 6.690,84. Questionada sobre seus crimes, a Polícia Civil alegou que “quem deve se pronunciar a respeito da forma de atuação destas delegacias, no caso específico, devem ser os gestores da época”. Ele responde a três processos disciplinares que podem resultar em exoneração.

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