Inspirado por Racionais MC's e Bob Marley, português Plutónio torna-se estrela do hip hop tuga

Luccas Oliveira

RIO — O rapper Plutónio traz tatuado em suas costas, desde que tinha 17 anos, o título do álbum “Sobrevivendo no inferno” (1997), clássico dos Racionais MC’s e uma das pedras fundamentais do hip-hop nacional. A informação seria pouco notória se o cantor de 34 anos viesse de alguma das tantas periferias brasileiras em que jovens rimam sobre sua realidade para tentar triunfar na vida. Mas Plutónio nasceu e cresceu em Cascais, na região metropolitana de Lisboa.

— O rap brasileiro teve muita influência na minha vontade de fazer música, desde Gabriel o Pensador, os Racionais, até MV Bill e, hoje em dia, o Filipe Ret — lista Plutónio, que esteve na redação do GLOBO para participar da série de vídeos “Toca no Telhado”. — Por conta das novelas e filmes brasileiros que chegam com força em Portugal, temos o costume de ouvir muita música brasileira. Agora, há esse movimento inverso, de espalhar a música de Portugal aqui no Brasil. Já existem alguns portugueses que começam a ter alguma expressão aqui, e sinto em minhas músicas mais comentários de seguidores do Brasil, mas podemos fazer um intercâmbio muito mais infinito.

Plutónio, que esteve no Brasil como atração do festival Back2Black no mês passado, é hoje uma das principais estrelas do chamado “hip hop tuga”, uma popularidade impulsionada pela recepção dos singles de seu terceiro álbum de estúdio, “Sacrifício: Sangue, lágrimas, suor”, lançado em novembro — com mais de 12 milhões de reproduções no YouTube, o principal hit, “Meu Deus”, foi o escolhido pelo rapper para ser cantado na gravação do “Toca no Telhado”.

Mas, pegando carona no título de seu trabalho mais recente, nem sempre a carreira do músico foi feita de louros e glórias. Nascido João Ricardo Azevedo Colaço, de ascendência moçambicana, Plutónio cresceu no bairro da Cruz Vermelha, região pobre e violenta de Cascais com forte comunidade de imigrantes de ex-colônias portuguesas. Inspirado pela realidade que o cercava, o rapper começou a rimar no início dos anos 2000, descrevendo de forma crua e direta aquele ambiente e o racismo que ele e pessoas próximas enfrentavam.

A caminhada começou ao entrar no grupo Atoxicos, em 2001, que contava também com sua irmã, Grace, como uma das integrantes. Depois, Plutónio fez parte de coletivos como o Guettosuperstars até lançar, em 2013, seu primeiro álbum solo, “Histórias da minha life”. Três anos depois, saía o sucessor “Preto & vermelho”, mas nenhum dos trabalhos gerou tanto barulho (e números) quanto “Sacrifício” tem conseguido — em fevereiro, ele fará um show de lançamento do trabalho no Coliseu dos Recreios, uma das mais prestigiadas casas de Lisboa, onde se apresentaram astros como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil.

— É tudo uma consequência de evolução do trabalho que vinha sendo feito antes, mas, depois de me esforçar tanto no segundo álbum e ver que ele não correu como achei que devia, cheguei à conclusão que eu não estava a me explicar da melhor maneira — analisa o rapper, cujas canções têm chegado forte ainda em ex-colônias portuguesas, principalmente Moçambique e Angola. — Voltei para o estúdio, com “Sacrifício”, a me esforçar mais até chegar a um nível que eu achei que ia tornar minhas letras cada vez mais universais e a parte instrumental mais abrangente para todas as pessoas.

A audição de “Sacrifício” deixa claro o caminho que Plutónio optou por correr. Em termos instrumentais, ele mescla elementos do boom bap clássico do hip hop e da estética gangsta rap com toques de trap, percussões trazidas da música africana e inserções de elementos vocais como o autotune. Mas, acima de tudo, o português passou a explorar como nunca o lado melódico do r&b, provando assim não só ter habilidade para a fluência das rimas, mas também delicadeza enquanto cantor.

— O rap foi o caminho onde eu comecei, que eu encontrei para me expressar, me identifiquei com rappers pois tinham uma mensagem que lembravam o que eu estava a viver, mas minha paixão por música vem de antes disso. Comecei ouvindo Bob Marley em casa e assim aprendi a falar inglês, por exemplo — revela o músico. — Comecei a perceber que eu tinha ideias de gêneros diferentes, e passei a aplicar, melhorando meu lado melódico.

As tais universalidade e abrangência buscadas por Plutónio em “Sacrifício” chegaram também às letras das 18 faixas — metade delas já adiantadas ao público ao longo dos últimos meses, através de singles. Em seus versos, a luta contra desigualdades sociais e preconceitos passou a coexistir com declarações de amor à mãe, questionamentos sobre a fé, canções românticas e tiradas cômicas como “se eu fosse brasileiro, tu eras um vacilão”. Ele explica:

— A música acima de tudo é uma forma de expressão. Posso usá-la para elogiar uma rapariga, reclamar da atitude do meu amigo com o irmão dele, admitir meus erros ou dizer a minha mãe “a amo e sou muito grato pelo o que fizestes por mim”. Por isso, é natural que minhas músicas não sejam só sobre questões mais a ver com intervenção.