Inspirados por ídolos da seleção, jovens atletas de projetos sociais disputam a Copa da Rocinha

“Quero ser jogador de futebol para dar uma vida melhor para minha família e porque é o que eu amo fazer. Me espelho no Neymar e sonho em daqui alguns anos jogar como ele, e em uma Copa do Mundo”. A declaração, que poderia ser de muitos jovens brasileiros, é do estudante Cauã de Souza, de 15 anos, recentemente contratado pelo Serrano Futebol Clube, de Petrópolis, com passagem pelo Bangu, e aluno há quatro anos do Projeto Craques da Rocinha. Em escolinhas como esta — só na comunidade são oito — foram revelados jogadores da seleção brasileira que vai jogar o Mundial no Catar, com início amanhã. Entre eles, o atacante Raphinha.

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Defendendo a camisa azul do projeto, Cauã participa do Campeonato Copa Rocinha, no qual todos os fins de semana, até dezembro, a comunidade recebe times de projetos sociais locais e de várias favelas do Rio, como Vidigal e Santa Marta. A equipe vencedora levará troféu, medalhas, kit churrasco e uma premiação em dinheiro.

Fundado em 1999 pelo morador Renato Silva, o Craques da Rocinha chamava-se Escolinha do Cachopão, uma referência à quadra da Cachopa, onde o projeto foi criado. Com a pandemia, em 2020, a escolinha passou a contar com o apoio do Instituto Sempre Movimento, quando ganhou o novo nome. Atualmente, a iniciativa atende cerca de 200 alunos, com aulas de segunda a sexta-feira, das 14h às 20h.

São disponibilizados materiais esportivos e equipamentos pedagógicos que possibilitam o desenvolvimento do esporte, visando a contribuir para a formação técnica, humana e cidadã das crianças e dos adolescentes participantes, com a meta de reduzir a evasão escolar. Além da quadra da Cachopa, o projeto ocupa o Campo da Vila Verde — ambos localizados do meio para a parte superior da favela, considerada a maior da América Latina.

Silva conta que foi aluno e posteriormente professor do primeiro projeto social de futebol da Rocinha, que na época funcionava na entrada da comunidade, e decidiu criar seu próprio programa para atender jovens moradores das localidades superiores da favela.

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— A Rocinha é enorme e ficava longe para boa parte das crianças, então eu vi necessidade de criar uma nova escolinha. Fico feliz que hoje existam várias outras porque precisamos bastante. É um trabalho difícil, estamos sempre necessitando de ajuda, mas é gratificante ver os alunos bem encaminhados. Alguns até conseguimos tirar do mundo do crime. Mais do que formar jogadores, nosso objetivo é contribuir na formação de bons cidadãos. Esse é o meu principal salário — afirma Silva, que além de se dedicar ao ofício voluntário de dar aulas e coordenar a escolinha, trabalha, na parte da manhã, como auxiliar de serviços gerais.

Apesar da pouca idade, de estar no início da carreira e de ainda não ser remunerado, Cauã de Souza, que sonha em trilhar os passos de Neymar, já é uma referência para outros alunos do Projeto Craques da Rocinha.

— Os meninos pequenos de 8, 9 anos vêm falar comigo e me tratam como se eu fosse de alguma forma inspiração para eles. Quando eu jogo e tem transmissão, vejo o olhar deles dizendo: “Vamos, sorrindo”. E quando eu ganho alguns troféus de destaque, isso me faz me sentir muito bem porque sei que eles também vão ficar felizes. Acredito que vou conseguir realizar o meu sonho e trazer mais oportunidades para minha comunidade e para as gerações que vêm depois de mim — diz Cauã.

O adolescente acrescenta que, além de se inspirar em jogadores da seleção com trajetórias parecidas com a dele, vê na dedicação dos pais em sustentar a família o estímulo para não desistir do seu objetivo.

— Tenho três irmãos e vejo meu pai sair de casa às 7h e voltar às 23h exausto para nos dar o melhor. Minha mãe fazendo bolo, faxina, trabalhando como babá, vendendo cosméticos e o que aparecer para conseguir nos dar educação — conta.

Mãe de Cauã, Camilla de Oliveira Rodrigues ressalta a importância de projetos como o Craques da Rocinha na vida de crianças e adolescentes da comunidade:

— Sabemos que o caminho é árduo, mas a vontade dele de realizar esse sonho é maior que tudo. Aqui temos muitos talentos e poucas oportunidades. Por isso, esses projetos são essenciais na vida desses meninos, ocupando um espaço que muitas vezes deixamos de lado por não termos condições de oferecer oportunidades pagas. Eles acendem a esperança de que a favela pode vencer.

Aluno da escolinha há sete anos, Pedro Henrique Ferreira, de 17, assinou um contrato em 2020 com o time de beach soccer do Botafogo, após ser visto por um olheiro durante um amistoso realizado pelo projeto na Praia de São Conrado. No último fim de semana, junto com a equipe, ele foi campeão da Copa Rio, em cima do Flamengo (vitória por 5 a 3).

— Jogo desde os 7 anos, amo futebol. Cheguei a desanimar quando uma tia minha que me ajudava muito faleceu, mas hoje estou focado em batalhar para viver de futebol. Treino todos os dias, corro, estou cuidando da alimentação — afirma.

O jovem revela ainda que está na expectativa de sair da Rocinha pela primeira vez, para disputar torneios internacionais de beach soccer.

— No Botafogo me pediram para tirar o passaporte porque ano que vem provavelmente vou jogar algumas partidas fora do país. Nunca viajei para lugar nenhum. Queria muito que todos os meus amigos daqui tivessem oportunidades como essa — diz Pedro Henrique.