A instabilidade de treinadores no Palmeiras

Felipão chegou para sua terceira passagem no clube (Ale Cabral/Agif/Gazeta Press)

Por Caio Calazans (@Cabrito13)

No último dia 26 de julho, Luiz Felipe Scolari acertou o retorno ao cargo de técnico do Palmeiras. É a terceira passagem de Felipão pelo alviverde. Desde 2014, ele é o décimo técnico a sentar no banco de reservas do clube. Gílson Kleina, Ricardo Gareca e Dorival Júnior em 2014, Oswaldo de Oliveira e Marcelo Oliveira em 2015, Cuca em 2016, Eduardo Batista e Cuca em 2017 e Roger Machado neste ano; antecederam Felipão no Verdão. Isso sem contar as cinco passagens de Alberto Valentim como interino. Mas porque o Palmeiras trocou tanto de comandante em tão pouco tempo?

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O jornalista Humberto Peron acredita que a falta de planejamento causou muitas vezes as mudanças de comando no clube: “Primeiro é preciso dizer que o clube teve essa quantidade de treinadores pela má escolha dos treinadores. Talvez, no período, a única escolha certa tenha sido a do Cuca em 2016. Outros foram escolhidos no atropelo como a volta do próprio Cuca (2017), desespero pelos resultados e alguns sem convicção nenhuma como Osvaldo de Oliveira, Roger Machado e Eduardo Baptista ou o Gareca”.

Pressão das arquibancadas? Cobranças de conselheiros? Polêmicas na imprensa? Nada disso, para Peron, o resultado, pura e simplesmente é o maior culpado pelas mudanças no Palmeiras: “O que interfere em clubes como o Palmeiras sempre é o resultado. Quando se ganha tudo vai bem e assuntos políticos do clube nem são expostos. O Palmeiras sempre foi um clube rachado – e sempre será – politicamente e, em muitas oportunidades, isso não atrapalhou a equipe de ganhar títulos – alguns com profissionais nem se entendendo com a direção do clube. Hoje, até pelo clube só treinar na Academia, o ambiente político que há na sede social não interfere no elenco. A política do clube serve mais como boa desculpa, quando os resultados não acontecem”.

Em termos de resultado, a quantidade de títulos conquistados no período de quatro anos entre 2014 e 2017 pode dar um sinal sobre os motivos de tantas trocas: uma Copa do Brasil em 2015 e um Campeonato Brasileiro em 2016. A exigente torcida alviverde e a tradição palestrina em disputar sempre entre os primeiros em qualquer competição torna a pressão em certos momentos insustentável. Some-se a isso as injeções de dinheiro feitas por patrocinadores nos últimos anos. Desde 2015, o Palmeiras tem o maior patrocínio do Brasil e investe pesado na contratação de jogadores. Mesmo assim, vê o rival Corinthians melhor sucedido em relação a conquistas.

Na década atual, o Corinthians é o time brasileiro mais bem sucedido em conquistas, com três campeonatos brasileiros, três paulistas, Recopa Sul-Americana, Copa Libertadores e Mundial de Clubes. No mesmo período, o Palmeiras venceu um Brasileirão da Série A (2016), um Brasileirão da Série B (2013) e uma Copa do Brasil (2015). Aliado a isso, a paciência do torcedor palmeirense, como em qualquer grande clube, é muito pequena: “É preciso dizer que em clubes como o Palmeiras, o cara tem que chegar e dar resultado. Não há paciência – e nunca terá. O palmeirense é exigente, talvez como nenhum torcedor do país – ele não quer apenas ganhar, ele quer o time jogando bem, sempre”, destacou Humberto Peron.

A instabilidade no comando técnico do time não é a única mudança constante no Palmeiras deste período. Modificações no elenco de jogadores são outro fator importante nesta equação. Só nos anos 2014 e 2015, o clube contratou mais de 60 jogadores. A tentativa de formar um elenco de qualidade e que tivesse condições de disputar títulos importantes e resultados ruins, assim como acontece em relação ao técnico, são os maiores motivadores de tantas modificações no elenco. O fato de o Palmeiras ter patrocinadores que injetam dinheiro no clube permitiu que o investimento em novos profissionais e em estrutura fosse maciço nos últimos anos.

Pela perspectiva dos atletas, muitas vezes a mudança de comando pode dar uma mexida com o ambiente do grupo. Para César Lemos, ou simplesmente César ‘Maluco’, ex-atacante que jogou no Verdão de 1967 a 1974 e com mais de 180 gols com a camisa palestrina, entende que a mudança de técnico pode ser benéfica para alguns jogadores: “De repente é bom para quem não está jogando e ruim para quem está jogando. O treinador pode ter uma simpatia por aquele que não está jogando. Sai o técnico, aquele que não está jogando pensa: será que vai chegar a minha vez de jogar agora?”.

Sobre a chegada de Felipão, César ‘Maluco’ só pensa em apoiar: “Eu, como conselheiro do Palmeiras e palmeirense, torço pelo Felipão e por qualquer técnico que a diretoria contratar”. Já o jornalista Peron prefere aguardar um pouco antes de fazer julgamentos: “Lógico que há a jogada política e que o nome do treinador serve de escudo para a diretoria. Mas, independentemente do técnico, o Palmeiras precisava de um nome forte agora, que chegasse e não fosse mais chamado de estagiário e que tivesse condições de “enfrentar” a torcida. E o Felipão foi escolhido. Agora, na parte de técnica, é preciso ver o trabalho do Felipão. A China não é parâmetro – para o bem ou para o mal – para analisar o Scolari pós 7 a 1. Vamos esperar um pouco”.

Analisando os últimos anos, é possível dizer que, mesmo após a chegada de Scolari, o futuro do Palmeiras dependerá muito do desempenho do clube nas três competições em que está envolvido ainda em 2018. Se terminar o ano sem nenhuma taça nas mãos, a exigente torcida palmeirense certamente irá cobrar fortemente a diretoria. Mesmo possuindo no comando um nome forte, com conquistas, identificação com o clube e respaldo de grande parte da torcida; resultados ruins podem fazer com que Luiz Felipe Scolari seja ameaçado pela mesma pressão que os antecessores sofreram no Palmeiras.

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